Costura contra a opressão

PAPICHA

Não era fácil ser uma garota razoavelmente moderna na Argel dos anos 1990. Eram tempos de recrudescimento do fundamentalismo islâmico, com os talibãs exercendo sua influência pelo mundo árabe. PAPICHA (“garota bonita” na gíria local) narra a resiliência da jovem Nedjma (Lyna Khoudri) no enfrentamento da opressão que se abatia sobre as mulheres na Argel da época.

Nedjma gostava de usar jeans – o que para os intolerantes significava estar nua –, cabelos descobertos, maquiagem descolada e, sobretudo, era apaixonada pelo estilismo. Fazia universidade e estudava francês, outros pecados mortais pelo código social segundo o qual às mulheres cabia ficarem em casa e servirem ao marido e aos filhos.

A diretora e autora do roteiro original, Mounia Meddour, descreve com bom senso de progressão a onda de radicalismo que vai fechando o cerco sobre moças daquele tipo, levada a cabo não só por homens, mas também por mulheres cheias de fúria ortodoxa. Até que um incidente brutal atinge a família de Nedjma, e ela decide responder com as armas de sua arte.

As roupas e tecidos, com suas cores, têm importância essencial na história. Recusando-se a usar os roupões impostos às “mulheres decentes”, Nedjma resolve organizar um desfile de moda com suas colegas da residência universitária. O objetivo é subverter a platitude dos haliks (panos brancos que cobrem inteiramente o corpo das argelinas conservadoras), transformando-os pelo corte em peças de alta costura com alguns decotes ousados para os padrões em voga.

Ainda que restrito a poucos assistentes (lembrando mesmo o desfile improvisado pelas detentas de Torre das Donzelas), o evento não passará impune pela vigilância fundamentalista, colocando em teste a consciência e a disposição de luta de Nedjma e suas amigas. As quatro moças protagonistas trazem nuances interessantes sobre as formas de conviver com a opressão, sobretudo para as que não querem optar nem pela submissão, nem pela saída costumeira do exílio.

PAPICHA é às vezes ingênuo na caracterização das protagonistas e incorre aqui e ali no sentimentalismo, mas o carisma das atrizes, o ritmo ágil e o impacto de algumas cenas contam a favor desse libelo feminista, que também é um elogio da sororidade perante a tirania.

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