Med Hondo: cinema da consciência africana

MOSTRA SEM FRONTEIRAS – O CINEMA DE MED HONDO

A partir desta segunda-feira (29/11) e até 5/12, o público brasileiro terá a oportunidade rara de conhecer a obra do realizador africano Med Hondo (1936-2019). Depois de uma apresentação presencial na Cinemateca do MAM-RJ, a Mostra Sem Fronteiras – O Cinema de Med Hondo chega ao online em site próprio, trazendo os filmes inventivos e politizados de Abib Mohamed Medoun Hondo, dono de um pensamento crítico agudo sobre o racismo e a questão colonial.

Hondo emigrou da Mauritânia para a França em 1958. Trabalhou como cozinheiro, garçom, estivador e entregador enquanto estudava arte dramática. Estabeleceu-se como dublador em francês de atores afro-americanos como Morgan Freeman, Richard Pryor e Eddie Murphy. Fez pequenos papéis em filmes de Godard (Masculino-Feminino) e Costa-Gavras (Tropa de Choque: Um Homem a Mais). Lançou-se como diretor em 1970 com Soleil Ô, filme prontamente consagrado com o Leopardo de Ouro do Festival de Locarno e a exibição na Semana da Crítica de Cannes.

Soleil Ô foi rodado em finais de semana durante quatro anos, com baixíssimo orçamento e muito apetite vanguardista. Há um fio de linearidade seguindo o protagonista sem nome (Robert Liensol), que acaba de chegar de algum país africano à “Doce França”, cheio de ilusões de acolhimento e igualitarismo. Em pouco tempo ele verá que não existe almoço grátis. Será sucessivamente rejeitado na busca de emprego, confrontado com os critérios de seleção da sociedade branca, explorado como objeto sexual por uma loura e acabará reatando com uma natureza selvagem que ele julgava poder superar pelo embranquecimento europeu.

Os ventos de 1968 impulsionaram Med Hondo a fazer desse filme um libelo ora satírico, ora raivoso mesmo. Imagens de Malcolm X e outros ativistas negros irrompem quando o assunto é a alegada “invasão negra” ou a “ameaça negro-árabe” que a Europa começava então a acusar. “Em algum tempo, os nossos netos serão negros”, prevê um branco em conversa com outro.

A trajetória de desencantamento e conscientização do personagem central é submetida a frequentes desvios narrativos para vinhetas ácidas sobre a condição dos imigrantes na França. Negros pedem perdão por usarem suas línguas nativas. Homens islâmicos são doutrinados pelo Cristianismo, batizados e carregam cruzes que logo se transformarão em espadas com as quais eles se digladiam entre si. Outros se autocaricaturam ferozmente num bar, como se devolvessem aos europeus a imagem que estes fazem deles.

Os brancos também ganham sua porção de sátira acerba: um casal discute barbaramente diante das suas respectivas televisões e outro deixa os filhos transformarem a mesa do almoço numa folia de desperdício burguês.

Num filme que parece empenhado em não “pensar branco”, Hondo recorre a animações, bonecos e canções com grande dose de indisciplina. Alguns atores interpretam diversos personagens e, vez por outra, as câmeras se limitam a flagrar gente preta pelas ruas de Paris. Diante de um casal interracial, pessoas brancas olham intrigadas e parecem emitir sons de animais. Gestos de anarquia e imagens alegóricas são acompanhadas na faixa sonora por gritos e esgares que lembram ocasionalmente o Cinema Marginal brasileiro que florescia simultaneamente, em fins dos anos 1960.

Ainda não conheço outros filmes de Med Hondo, mas tudo indica que esse modus operandi se estendeu a sua obra posterior, que poderá ser apreciada na mostra. A curadoria chama atenção especialmente para West Indies – Les Nègres Marrons de la Liberté, musical que relaciona o sistema migratório na França depois da II Guerra Mundial com a história da escravização durante o colonialismo. Outros títulos que estão na programação online e certamente merecem atenção são os longas Polisario, as Armas de um Povo e Sarraounia.

A mostra abrange debates e filmes de outros realizadores em diálogo com as questões levantadas por Med Hondo. Veja tudo aqui.

 

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