É Tudo Verdade: “Carcereiras”

Em filmes penitenciários existe o clichê de mostrar que os agentes são tão encarcerados quanto os presidiários. Eles também vivem entre grades, trancas e portões. Mesmo estando do outro lado, é como se estivessem privados de liberdade. Carcereiras tangencia esse lugar-comum. Apenas tangencia. Quando vai visitar sua família, Ana Paula Pessoa chega a uma casa protegida por grades. Na casa de sua mãe, Mariana Fazan mantém pequenos animais em cativeiro.

Ana Paula e Mariana são as duas protagonistas do filme. Trabalham no mesmo presídio feminino de Pirajuí, interior de São Paulo, mas nunca são filmadas juntas. A diretora Julia Hannud preferiu mantê-las como duas vidas paralelas com expectativas contrárias. Ana Paula sonha com uma transferência para a capital do estado, projeto que a mãe não vê com bons olhos. Mariana, por sua vez, acaba de chegar a Pirajuí e encara uma nova realidade longe de suas raízes.

O filme procura capturar seus sentimentos e desejos por meio de uma observação muito próxima de suas conversas com colegas e parentes, ou mesmo de momentos de silêncio e introspecção. É uma tarefa cinematograficamente difícil, que, nesse caso, não consegue perfurar a discrição das duas. Mesmo com a câmera muito rente a elas, o acesso à psique das moças permanece restrito.

Vale destacar, porém, o ótimo resultado dos diálogos espontâneos entre as personagens, fruto também de uma preparação a cargo de Chia Rodriguez. Cenas que usualmente naufragam em documentários de observação aqui deslizam com verdade e naturalidade.

Carcereiras marca ponto, ainda, na filmagem do cotidiano carcerário, revelando as rotinas de movimentação dentro do presídio, a triagem de produtos trazidos pelos visitantes, os cuidados com a saúde das detentas, os procedimentos de chegada e liberação. Uma noite de Ano Novo no interior da penitenciária é uma das cenas mais impressionantes que vi em documentários recentes.

O ambiente de tensão e controle permanente só é amenizado pela camaradagem entre as agentes e os esboços de cordialidade entre elas e as presidiárias. O mundo lá fora, com suas promessas de liberdade e bucolismo, fica restrito a um quadro na parede ou a devaneios eventuais.

Essa dicotomia está no filme, mas não é o seu forte. O que mais importa é a sondagem da humanidade daquelas duas mulheres num ecossistema opressivo.

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