É Tudo Verdade: Zuenir, Fernando e suas famílias

Notas sobre MESTRE ZU e FERNANDO CONI CAMPOS: CADA UM VIVE COMO SONHA
Aos 94 anos, Zuenir Ventura é um jornalista que bem merece a candidatura a explicador do Brasil. Merece também que se faça um documentário sobre sua trajetória cheia de pontos luminosos. Zelito Viana diz-se “incumbido da tarefa” na primeira cena de Mestre Zu. Incumbido, imagino, pela família Ventura. Seus filhos estão visceralmente envolvidos. A livreira Elisa coassina a produção, e o jornalista Mauro é presença frequente diante da câmera. O resultado tem a cara de filme caseiro, marcado pelo carinho e a admiração pelo biografado.

Uma roda de velhos amigos e ex-colegas de redação dá a partida para uma corrente de lembranças e elogios, à beira da hagiografia. Quando se pede para falar dos defeitos de Zuenir, os encômios até redobram. O famoso gesto de atirar uma lata de tinta em Hélio Fernandes ressurge com as cores do enaltecimento.

Como realização, Mestre Zu é trivial, quase negligente. O talento do fotógrafo Walter Carvalho não aparece nas muitas cabeças falantes tomadas em ligeiros contraplongês sobre fundos insípidos e com luz chapada.

Ainda assim, o documentário se sustenta pelo valor do personagem. É bom ouvir suas façanhas jornalísticas relacionadas a Chico Mendes, ao estudo do Rio de Janeiro como “cidade partida”, à carta de Glauber Rocha que virou a célebre matéria de elogios a Geisel e Golbery. Ou à cunhagem de expressões que definiram épocas, como “amizade colorida” e “vazio cultural”. A história do mestre começou como ajudante de pintor (o pai), boy de banco, jogador de basquete e intérprete de Jango em Paris. A prisão em 1968, em cela dividida com Hélio Pelegrino, foi um castigo que virou prêmio.

O jeitão manso e simpático de Zuenir, em contraste com seu rigor no trabalho, é motivo de muita brodagem nesse filme. E também de autoelogios à profissão de jornalista, o que nem sempre se justifica pela dita grande imprensa que temos hoje.

Enxerguei dois movimentos opostos em Fernando Coni Campos: Cada um Vive como Sonha. Um deles, o de render tributo ao cineasta pelo olhar de seus familiares. Seu filho, o consagrado diretor de fotografia Luis Abramo, divide a direção com Pedro Rossi. Diversos membros da familia estão detrás ou à frente das câmeras. O outro movimento é no sentido de não fazer um perfil convencional, mas usar uma forma que evocasse o cinema livre de Fernando.

Ele gostava de chamar o cinema de “a única arte noturna”, aquela que requer a escuridão e uma outra maneira de olhar. Numa carreira breve de pouco mais de 20 anos, perseguiu uma linguagem própria, que conjugasse a magia do cinema ao ensaio intelectual e à poesia visual. Entretanto, não comungava do autoralismo de muitos de seus colegas formados nos anos 1960. Perseguia um cinema popular que levasse à tela não o seu próprio sonho, mas o sonho dos outros. Helena Ignez comparece no documentário para dizer que ele era mais livre e mais artista que o pessoal do Cinema Novo.

A explosão de imaginação de O Mágico e o Delegado, por exemplo, ilustra a máxima coniana de que o realismo é impossível no cinema. Jean-Claude Bernardet fala da “louca liberdade” de Viagem ao Fim do Mundo, que Julio Bressane define como um filme feito “no contrafluxo”. Walter Lima Jr. lamenta que o cinema de Fernando estivesse começando a se consolidar com o metafilme Ladrões de Cinema, mas não teve tempo de avançar tanto quanto poderia. Fernando morreu na flor dos 55 anos em 1988.

O “maldito” Uma Nega Chamada Tereza e os pouquíssimo vistos Um Homem e sua Jaula e A Morte em Três Tempos ampliam o injusto obscurecimento de sua filmografia. Esse documentário pretende jogar luz sobre a obra com vários procedimentos. Temos as muitas reflexões em áudio de Fernando, assim como sua encarnação boêmia no corpo de Antonio Pitanga. Temos os depoimentos diretos para a câmera e os comentários de atores numa sala de cinema diante das imagens de seus filmes. Temos os seus poemas resgatados pela família e ainda intervenções de pesquisadoras do seu cinema.

O roteiro e a montagem articulam esses materiais de um modo idiossincrático, pouco didático, como se buscassem um paralelo com o estilo de Fernando. Acontece que Fernando não tinha um estilo como camisa de força. Podia ser ora alegórico, ora visceral. Podia ser ora autorreflexivo, ora completamente objetivo. Aqui sua memória ressurge um tanto desarrumada, mas é melhor que deixá-la na sombra.

 

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