A história de três quases

Agora que o cinema brasileiro parece tomar um novo fôlego de mercado, e que o assunto vira matéria de reflexão acadêmica e lançamentos editoriais, o momento é oportuno para relembrar outros capítulos dessa história. A partir de amanhã (quarta), o Canal Brasil vai exibir Luz & Ação, três programas em que Maurice Capovilla e Marília Alvim reuniram memórias de colegas sobre três episódios da luta dos cineastas brasileiros pela conquista do mercado. O subtítulo da trilogia corre o risco de continuar atual: “Quase fomos o que queremos ser”.

Luiz Carlos Barreto, Roberto Farias, Zelito Viana, Walter Lima Jr., Cacá Diegues e Hugo Carvana têm a palavra. E é nas palavras que os programas se sustentam, dispensando materiais de arquivo e quase totalmente cenas de filmes para ilustrar, complementar ou instabilizar o que é dito.

O primeiro programa (quarta 21h, com reprise sábado 11h30) descreve a trajetória da Difilm (1965-69), iniciativa pioneira de produtores e diretores do Cinema Novo que se associaram para assumir a distribuição de seus próprios filmes. A empresa que Lima Jr. define como uma “visão coletiva” transplantada para a esfera comercial teve uma vida curta mas radiante. Gerou lucros e fomentou novos filmes. Quando se dissolveu por conta de dissenções internas, já se anunciava no horizonte a criação da Embrafilme (1969-1990), objeto do segundo programa (dia 19 às 21h, com reprise dia 22 às 11h30).

Zelito Viana abre e fecha este programa de maneira retumbante. “A Embrafilme foi criada pelos militares para comprar o silêncio dos cineastas”, afirma no início. Mas a armadilha seria convertida numa galinha dos ovos de ouro pela habilidade política de cineastas como Farias, Barreto e Glauber, levando o cinema brasileiro a dominar 30% do mercado (no programa, fala-se em 42 e até 50%, mas os números não confirmam). De qualquer forma, o sucesso da Embra no período áureo 1974-1978 chegou a assustar os americanos, e isso é lembrado com alguns espasmos de xenofobia habituais na turma dos sessenta e setenta. Ao final do programa, coberto de razão, Zelito acusa a Veja e a Folha de São Paulo de terem publicado matérias encomendadas pela Motion Pictures Association para minar a Embrafilme, precipitando sua decadência.   

O terceiro programa (dia 26 às 21h, com reprise dia 29 às 11h30) é o único que não obtém ótimo rendimento narrativo da costura de falas. Um pouco porque o projeto da Cooperativa Brasileira de Cinema (1978-1982) nasceu falido. Cerca de 70 diretores e produtores do Rio e São Paulo arremataram um conjunto de salas deixado pela Pelmex e tentaram formar um circuito de exibição. Não mais de um ano após a criação, a CBC já exibia seu fracasso. Poucas lembranças ficaram, em boa parte registradas no jornalzinho Luz & Ação, lançado pela cooperativa em 1981 e que dá título a esta série.

O segundo bloco desse último programa é ocupado por análises do momento atual do cinema brasileiro, onde abunda a palavra “falta”. Segundo os cineastas ouvidos, falta confiança nos cineastas, falta conteúdo para as novas tecnologias, falta sala, falta “projeto”, falta “política”. Walter Lima Jr. cita o projeto da Ancinav como uma solução infelizmente metralhada no meio do caminho. Roberto Farias pede a volta do adicional de renda, discute-se a participação do estado.

Os tempos e o modus operandi  do cinema brasileiro são hoje muito diferentes da época da Difilm, Embrafilme e CBC. As ideias de grupo e classe que animaram aqueles três momentos não comovem os participantes de editais do século 21. Como reconhece Capovilla, “podem ser considerados hoje utópicos, mágicos ou  surrealistas, típicos daqueles tempos quando os cineastas, sem necessidade de serem amigos, uniam-se num propósito único”. Mas esse resgate histórico fornece uma perspectiva interessante, quando nada para se entender o que Barretão quer dizer quando fala: “O filme brasileiro deu certo, mas o cinema brasileiro não”.

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Aproveite para ver um primeiro e curto (2,5 minutos) making of do novo longa de Capovilla, Nervos de Aço:    

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