Eles e elas

Enfim tenho o meu filme preferido na safra deste Oscar: é CLUBE DE COMPRAS DALLAS. Uma performance absolutamente magnetizante de Matthew McConaughey, 17 quilos mais magro, pilota esse exame da homofobia e da burocracia que agrediu os pacientes de Aids nos anos negros da década de 1980. Ron Woodroof, eletricista e bookmaker em rodeios do Texas, descobre que tem o vírus e não aceita de bom grado seguir o rebanho rumo à morte. Sai em busca de alternativas de tratamento, seja nos EUA ou em outros países. Acaba se transformando em traficante-militante do ramo, confrontando normas da FDA e interesses da indústria farmacêutica. No caminho, coloca em xeque seus próprios preconceitos. Percebemos a qualidade da pesquisa por trás do roteiro, mas nunca sentimos o ranço de uma aula. Ao contrário, somos arrastados por uma ação dinâmica, diálogos mordazes e o convívio cintilante com personagens cheios de vida e força. Não deixa de ser uma fórmula – o vilão predestinado a se tornar herói depois de passar por uma experiência extrema. Mas aqui o modelo se beneficia de muitas nuances, contradições e um humor surpreedente em campo minado. Por mim, ganhava nas quatro principais categorias a que concorre: filme, roteiro original, ator e ator coadjuvante (Jared Leto). Um bom complemento deve ser o doc “How to Survive a Plague”, de 2012.

Fábula laranjinha sobre o amor na era das virtualidades, ELA me pareceu simpático e nada mais. Pelo menos três quartos das 2h06 são uma longa DR com um dos interlocutores fora do quadro. Mas há coisas interessantes. Para começar, o filme propõe uma nova imagem (melhor dizendo, um novo som) da mulher ideal: Samantha é sensível, perspicaz, bem informada, rápida, intuitiva, evolui o tempo todo, é sensual, está sempre presente, toma ótimas iniciativas na vida do homem amado e ainda compõe alguma coisinha ao piano. Ela não tem corpo, tudo bem, mas a gente sabe que o ideal não existe. Samantha aspira a ser algo além de um sistema operacional. Quer ser gente de verdade. Nesse sentido, ela é como os andróides de “Blade Runner”, o HAL de “2001” e os anjos de “As Asas do Desejo”. Nesse admirável mundo novo em que a vida pode ser ensinada num game e as projeções sem tela conversam com as pessoas, nosso tristonho Theodore vive em tom menor, sempre a ponto de cair no choro. Assim também são os outros seres humanos que passam pelo filme quase como sonâmbulos. Por isso a voz de Scarlet Johansson soa como a coisa mais afirmativa em cena. Talvez esteja aí o aspecto mais atemorizante do roteiro de Spike Jonze: quanto mais abrimos espaço para os sucedâneos virtuais, mais reduzimos nossa própria voz a um espectro deles. Nada muito distante da realidade dos applemaníacos, por exemplo, que madrugam para aplaudir a abertura de uma nova loja da marca. A pergunta que fica: estará a tecnologia caminhando no sentido de ser não apenas um meio, mas também uma finalidade?

NEBRASKA me sugeriu um cruzamento de “A Última Sessão de Cinema” / Bogadnovich com “Uma História Real”/Lynch. Começa despretensiosamente, mas avança no sentido de um delicado estudo do efeito da fantasia sobre a cabeça de um homem e de uma comunidade. Ninguém, exceto os filhos, quer acreditar que o velho Woody não tenha ganho 1 milhão de dólares. O road movie nos leva a uma dessas cidadezinhas melancólicas do meio-oeste americano onde a vida oscila entre o nada e o menos ainda. A sensação de perda do princípio de realidade parte do protagonista e ocupa todo o cenário. Estamos numa América opaca e semi-inconsciente, à qual os filmes de Hollywood quase não dedicam mais atenção. A fotografia em preto e branco e a trilha musical são duas grandes belezas, assim como a atuação de Bruce Dern. Que bom rever também Stacy Keach, o astro do “Fat City” de Huston, outro filme pertencente a esse filão humanista do cinema americano. Alexander Payne dirige como se seguisse um manual do cineasta correto, e talvez por isso falte um pouco de energia ao filme. Mas NEBRASKA é principalmente aquilo que quer ser: um bom e sóbrio retrato do que fica à margem do sonho americano.

A protagonita de PHILOMENA gosta de contar os romances açucarados que leu. Conta-os da maneira mais resumida e banal. Curisoamente, é dessa forma também que o roteiro do filme conta a história dessa mãe em busca de traços do filho que lhe foi roubado num convento da Irlanda. Ela vai à luta com a ajuda (?) de um jornalista desempregado, que, como ex-estrela da BBC e ex-porta-voz do governo, parece tão habilidoso quanto um trator desgovernado. O filme me pareceu um dramalhão brega que tenta acomodar dentro de si uma comédia de costumes razoável. As interações entre Philomena e Martin rendem algumas risadas e um esboço de discussão sobre vampirização jornalística, ética religiosa, dilemas da maternidade e melodramas de pacotilha. Pena que tudo é muito frágil, mais ainda com a direção burocrática de um Stephen Frears rendido ao modelo de telefilme. A tradução equivocada e desleixada para com os duplos sentidos dos diálogos colabora para uma experiência decepcionante.

Para um filme narrado pela Morte, até que A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS não é tão mórbido. Mas é claro que a perda e a tristeza rondam as personagens o tempo inteiro, deixando a plateia sempre na expectativa do pior. É o terreno adequado para germinarem as redenções e as salvações provisórias, bem na medida dos romances blockbusters. A ideia-mestra é um hiperclichê do filme mainstream: a cultura como aproximador de almas gentis e como verniz que preserva o sentido da vida. Assim é que Liesel Meminger vai atravessar os horrores da II Guerra e nos legar a história da sua sobrevivência. Não li o livro, mas vejo que o filme segue as normas mais corriqueiras do gênero para um resultado, afinal, bastante anódino. Uma grande virtude é a trilha pouco extravagante (ufa!) de John Williams. Vendo o rostinho angelical de Sophie Nélisse, imaginei a continuação da saga de Liesel num filme com Kate Winslet na idade adulta e Judi Dench na maturidade: “A Mulher que Escrevia Livros”. Mas podiam dispensar aquele Sr. Morte como narrador, que não faz o menor sentido.

MEMÓRIAS DE SALINGER é um bom documentário que poderia ser bem melhor se houvesse uma seleção mais criteriosa dos fatos narrados. Algumas histórias de relacionamento de J. D. Salinger com mulheres e editores são supérfluas. Seria melhor também se não houvesse tanta preocupação em “parecer ficção”, seja inserindo microencenações à la Errol Morris (mas sem a mesma qualidade), seja criando sequências meio sensacionalistas (a guerra, os atentados inspirados no “Apanhador”), seja inundando de música um filme que requeria mais sobriedade. Vinte minutos a menos seriam bem mais. De qualquer forma, o doc tem pulso e se vira razoavelmente com o pouco material fotográfico ou fílmico existente de um personagem esquivo na maior parte da sua vida. A dificuldade maior para um público menos interessado em Salinger é que sua biografia não oferece muitos atrativos e sua obra conhecida se resume ao livro-impacto dos anos 1960. Um pouco mais de reflexão literária ajudaria a ampliar o alcance do filme.

2 comentários sobre “Eles e elas

  1. Pingback: Melhores de 2014 | ...rastros de carmattos

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