Brasil, Trinidad, Índia e Escócia

O GNT inicia hoje (quarta), às 21h, a série MULHERES EM LUTA, dirigida por Susanna Lira. Serão cinco episódios traçando pequenos perfis de grandes mulheres que atuaram na resistência à ditadura civil-militar. No primeiro episódio ficamos conhecendo um pouco melhor Rita Sipahi, ex-militante da Ação Popular e do Partido Revolucionário dos Trabalhadores, hoje conselheira da Comissão de Anistia; e Fátima Setúbal, ex-simpatizante da Var-Palmares e aqui filmada em seu último dia como professora de História. Ambas foram presas e torturadas. O programa faz uma rápida contextualização com materiais de arquivo, mas privilegia mesmo os depoimentos de Rita e Fátima. Mulheres, nesse caso, favorecem uma rememoração ligada não só aos fatos (como começaram na luta, o que aconteceu na prisão), mas também a repercussões na família, questões de maternidade e até a citação de um exemplo de machismo por parte dos representantes do regime. Susanna não se limita a colher memórias, mas está interessada também na atualidade. Daí o tom de conscientização e esperança que envelopa o programa, principalmente na relação de Fátima com seus alunos adolescentes. Os episódios seguintes trarão Lucia Murat, Jessie Jane, Ana Miranda, Iná Meirelles, Estrella Bohadana, Rose Nogueira, Vera Vital Brasil e – façanha especial da diretora – Rioco Kayano, mulher do guerreiro José Genoíno.

Já assisti a três filmes no Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, em cartaz no Odeon: O Grande Kilapy, do angolano Zézé Gamboa, Maami, do nigeriano Tunde Kelani, e CALYPSO ROSE, de Pascale Óbolo, camaronesa residente em Paris. Os dois primeiros são cheios de problemas e ingenuidades, como boa parte dos filmes africanos que apostam numa comunicação imediata com o público médio. Mas o documentário sobre a cantora Calypso Rose, estrela máxima da música de Trinidad e Tobago, é uma pérola que não deve ser desprezada. Pascale desvenda as muitas camadas da personagem – a cantora e compositora esfuziante, a feminista não panfletária, a espiritualista energética, a celebridade cheia de si, a mulher consciente de sua ascendência escrava e das circunstâncias que a fizeram ter uma vida sexualidade reprimida. Tudo se revela com sutileza e clareza num belíssimo trabalho de edição que costura cenas filmadas em Trinidad e Tobago, Nova York, Paris e Benin. É aquele tipo de documentário em que a ausência de preguiça se combina com um talento legítimo para esculpir o perfil de um artista. CALYPSO ROSE será reprisado na quinta-feira, às 17h30 no Centro Cultural da Justiça Federal.

O simpaticíssimo THE LUNCHBOX parte de uma hipótese rara: o sistema de entrega de marmitas de Mumbai cometer um equívoco. Os dabawallas (ou tiffinwallas) são famosos mundialmente pela eficiência. Consta que um endereço errado só ocorre em média uma vez a cada 8 milhões de entregas. Eu já tive oportunidade de observar (e filmar) sua atividade na estação de Churchgate. O filme de Ritesh Batra se vale de uma dessas exceções para fazer uma espécie de “Nunca te vi, sempre comi tua comida”. O viúvo Saajan passa a receber as delícias que Ila, infeliz no casamento, prepara para seu marido. É preciso certa boa vontade para aceitar que o marido não estranhe o sabor e a embalagem que ele também passa a receber por engano – e que isso se estenda por tanto tempo. Mas a suspensão da credibilidade é compensada por uma deliciosa história de amor potencial. Há ali ingredientes bem característicos do cinema “sério” indiano: os matrimônios fracassados mas mantidos em nome do conservadorismo familiar, o funcionário público que encarna o peso da burocracia, o alívio cômico representado pelo jovem funcionário que chega para substituí-lo, a importância da comida como fetiche erótico. Estamos distantes do modelo Bollywood, embora haja uma sutil referência a um dos seus mais famosos musicais, “Saajan”. Na delicada trama de bilhetes enviados nas marmitas, fala-se muito da realidade indiana atual, geralmente através de textos inspirados e tocantes. Apesar de uma certa apatia e dos tempos muito estendidos do ator principal, o filme mantém bom ritmo e, dentro de uma estrutura previsível, oferece surpresas e algumas lacunas muito sugestivas. Como as marmitas, que parecem sempre iguais mas podem conter uma promessa de mudança e felicidade.

Eu nunca tinha ouvido falar no duo de folk rock escocês The Proclaimers antes de ver SUNSHINE ON LEITH. O filme de Dexter Fletcher é uma adaptação da peça musical e do disco homônimos, grandes sucessos nas terras ao norte do Canal da Mancha. Leith, diga-se, é o bairro do antigo porto de Edimburgo. Se acreditarmos no filme, é um reduto de classe média feliz em que os jovens saem da puberdade direto para o pub. Quando não iam para a guerra do Afeganistão. Na primeira sequência, dois deles estão voltando depois de um episódio trágico com sua unidade. Mas Davy e Ally se comportam como se acabassem de voltar das férias na Disney. Querem namorar, beber e reatar com suas famílias. Nada será muito fácil, pois precisarão enfrentar planos inesperados e segredos revelados de namoradas e pais. A profundidade dessas questões é menor que a de um pires. Mas, lembrem-se que eu citei The Proclaimers no início. Isso significa que a cada cinco minutos eles vão parar tudo para cantar uma canção bem chatinha e eventualmente dançar as coreografias menos imaginativas do cinema contemporâneo. Algumas parecem comercial de cerveja, outras um flashmob de 10 anos atrás. Os diálogos são cheios de falsas questões, ditos de uma forma que pareceria ingênua até na boca de Sandra Dee, e ainda por cima com um “fundo musical” quase permanente que barateia as supostas emoções em troca do “feel good”. Se topar com esse filme em algum lugar, saiba que é no máximo uma iguaria local, intraduzível e intransferível.

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