Na mira do Oscar: O amor nos tempos do racismo

Sobre os filmes UM LIMITE ENTRE NÓS, LOVING e MOONLIGHT

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Para quem aceitar um filme que se impõe mais por sua teatralidade do que por malabarismos de adaptação, FENCES (no Brasil, “Um Limite Entre Nós” com estreia prevista para 2 de março) pode ser um dos melhores, se não o melhor, da safra do Oscar 2017. Denzel Washington assumiu a direção e retoma o papel principal da remontagem teatral de 2010, assim como Viola Davis. A peça de August Wilson, escrita em 1983 e premiada com o Pulitzer, é da estirpe da grande dramaturgia americana. Sua superioridade sobre os draminhas raciais e familiares que competem no Oscar é acachapante.

Denzel é Troy Maxson, um ex-presidiário e ex-jogador de beisebol que trabalha na limpeza pública e sustenta sua família com rigores exacerbados. Como em muitos maridos da década de 1950, o zelo excessivo encobre insatisfações e inseguranças várias, que convergem para a metáfora da cerca – uma proteção contra os intrusos, contra a vulnerabilidade dos afetos e, enfim, contra a morte. Os ecos da II Guerra, ainda muito presentes, trazem suas sequelas mentais e emocionais. Nas entrelinhas, há o conformismo de uma geração de afro-americanos que ainda se regozijava em alcançar o “lugar dos brancos” e superar a condição marginal através de uma conduta digna.

Os dois primeiros atos do filme causam certo estranhamento pelo volume de diálogos que servem para desenhar o personagem de Troy. As falas gigantes, que deixam os outros atores em boa parte do tempo como meros ouvintes, sugerem um veículo para Denzel mostrar sua verve, amplificada pelo corpanzil, a postura e o andar pesados. E é mesmo estranho que um lixeiro analfabeto tenha tal exuberância de fabulação verbal. Mas a verdade é que a peça aos poucos impõe seu ritmo e sua lógica. O drama se desenvolve de maneira envolvente, chegando ao último ato em tom francamente emocionante.

Entre os muitos monólogos de tirar o fôlego (nosso e deles), Viola Davis tem seus dois grandes momentos, com as lágrimas que sempre credenciam a uma estatueta. O encontro de uma partitura extraordinária com um elenco de Stradivarius só podia soar como música de câmara da melhor qualidade.



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No mesmo estado de Virginia e na mesma época em que se passa a ação de “Estrelas Além do Tempo”, já em cartaz, vivem os protagonistas de LOVING. Mildred e Richard Loving são um casal interracial que enfrenta as leis segregacionistas vigentes na passagem dos anos 1950 para os 60 e, para não serem presos, têm que se mudar para Washington. O apego à terra, porém, os leva a incursões clandestinas de volta a seu condado, até que jovens advogados abraçam sua causa no marco da luta pelos direitos civis.

Na corrida pelos Oscars deste ano, LOVING é mais um filme sobre o tema racial e baseado em fatos.  Distingue-se dos demais por sua fatura discreta, compassada e terna, ecoando no estilo o próprio jeito de ser dos personagens. Mildred e Richard nos comovem não por grandes lances de dramaturgia, mas pela maneira firme e doce com que defendem sua união e seus direitos de pertencimento. Ora sintonizados num mesmo mood, ora divergindo mansamente (como na relação com os advogados e com a mídia), eles formam um casal cativante em sua simplicidade.

O filme concorre ao Oscar somente pela atuação de Ruth Negga, uma joia de meiguice e contenção, mas a performance minimalista de Joel Edgerton não fica atrás. Um erro sério de miscast, a meu ver, envolve a escalação do humorista Nick Kroll no papel do advogado civilista. Ele sugere desconfianças fúteis em relação ao personagem e jamais convence. Da mesma forma, o filme cria algumas cenas de suspense artificial que pouco combinam com o despojamento de todo o resto.

O diretor e roteirista Jeff Nichols baseou-se parcialmente no elogiado documentário “The Loving Story” (2011), de Nancy Buirski. O fato de que LOVING em nada se pareça com um documentário atesta a personalidade dessa versão dramatizada. Para os apreciadores de documentários, vale registrar a breve presença de um repórter da revista Life (Michael Shannon) exercitando o tipo de observação que inspirava, naquele preciso momento, os criadores do cinema direto.



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Há duas maneiras de ver MOONLIGHT – SOB A LUZ DO LUAR, indicado para oito Oscars e um dos favoritos para melhor filme. Uma maneira é como a crítica internacional o vê: um drama sólido, sóbrio e sombrio sobre o crescimento de um jovem negro nas franjas do mercado de drogas, da intolerância social e da homossexualidade represada. Outra é como eu o consigo ver: um “Boyhood” que não deu certo, uma comprida e pálida radiografia da enrustição gay.

No subúrbio de Miami, o pequeno Chiron enfrenta a timidez, o bullying brutal e a dependência química da mãe. Ou seja, nada de novo sob o sol dos dramas sociais americanos além do fato de ter um negro gay como protagonista. No terceiro ato, na passagem para a idade adulta, um episódio crucial, ligando afetividade e violência, parece agir como uma varinha de condão. Chiron passa a ser outro homem, embora os resquícios do menino permaneçam paralisando sua personalidade. A elipse é bem dura de engolir.

Com um inegável talento para atuar sem fazer quase nada, o conjunto do elenco é o grande trunfo do filme de Barry Jenkins. O silêncio de Chiron é uma caixa de ressonância para os conselhos, as ofensas e as muitas músicas que passam pelo seu ouvido (incluindo “Cucurucucu” por Caetano Veloso). A câmera imprime urgência emocional a algumas cenas, e as discretas in(ter)venções da edição de imagem e som dão um toque de  originalidade aqui e ali. Mas tudo isso me pareceu muito pouco para o prestígio de que o filme desfruta na temporada de prêmios. A safra, enfim, está longe de ser das melhores.

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