Dois suecos teatrais

Num filme como MISS JULIE, Liv Ullmann demonstra que, como diretora, soube balancear a herança de Bergman com uma inflexão própria, menos ascética e mais carnal. Sua adaptação da peça “Senhorita Julia”, de Strindberg, é bastante pessoal na medida em que condensa radicalmente o texto a três personagens, imersos num jogo claustrofóbico de sedução, dominação e vingança de classe. O mundo que Strindberg descreveu na sua Suécia de fins do século XIX (aqui transposto para a Irlanda) era marcado pela barreira intransponível das classes sociais e dos gêneros. É nesse contexto, portanto, que MISS JULIE deve ser visto e pode ser melhor apreciado. A jovem aristocrata (Jessica Chastain) conduz o empregado John (Colin Farrell) a seduzi-la ao mesmo tempo que o despreza, enquanto ele a deseja e simultaneamente a culpa por isso. O amor não tem lugar em meio às interdições e à percepção de cada um sobre o seu “lugar” naquela sociedade. Liv Ullmann não se esquiva ao teatro. Em vez disso procura potencializá-lo através do tempo das cenas, da colocação inteligente da câmera (sempre conectada com a posição de cada personagem na escala de poder) e do suspense, este ligado especialmente à cozinheira (Samantha Morton), noiva de John e reserva de retidão cristã naquele triângulo fumegante. Diálogos e monólogos magnetizantes são ditos pelos atores como se cuspissem pérolas pela boca e pelos olhos. Liv Ullmann trafega sem medo da fina sutileza às explosões dramáticas mais arriscadas. Afinal, não é de hoje que ela conhece o caminho.


UM POMBO POUSOU NUM GALHO REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA – o título já ocupa metade do espaço do comentário e é só o início das estranhezas desse filme vencedor do Leão de Ouro em Veneza 2014. Não conheço os trabalhos anteriores do setentão Roy Andersson, mas presumo que sejam tão, digamos, particulares quanto este. Vejo ali um cruzamento de tradições que incluem o expressionismo alemão, o surrealismo, o teatro do absurdo e as comédias de Tati. Tudo isso a serviço de uma visão desesperançada do ser humano, marcada pelo fracasso, a derrota e todo tipo de carência. Mas, longe de outras correntes mais famosas do cinema sueco, Andersson quer desconcertar pelo riso crítico. Afora uma linha narrativa muito tênue em torno de dois tristonhos e malogrados vendedores de gadgets de humor, o resto são tableaux fixos dentro dos quais só se move o estritamente necessário. Os personagens parecem aves empalhadas como a que aparece na primeira cena. São gente feia, triste e mal vestida arrastando suas ruínas em câmera lenta e cronologia estapafúrdia. Mesmo o rei Charles XII, que passa a caminho da Batalha de Poltava (1709) como um jovem conquistador – inclusive de namorados -, logo retorna com seu exército derrotado precisando, mais que tudo, de um banheiro desocupado. Andersson não tem alvo certo a não ser essa disposição do homem para o fiasco – no amor, na guerra, no comércio, no respeito para com os supostos seres inferiores. Acho que o Leão de Veneza foi um exagero. O filme abusa um pouco de recursos clássicos de comédias como as repetições, os deslocamentos de contexto e as excentricidades corporais. Fez-me rir ocasionalmente e me interessou pelo exotismo da encenação, mas me pareceu tolo em alguns momentos, vago em outros e cansativo em outros tantos. Valeu sobretudo como uma curiosidade de taxidermia, mas que eu teria gostado mais de ver ao vivo num palco de teatro.

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