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MAIS UM ANO é mais um filme de Mike Leigh sobre a felicidade. Estranho dizer isso de um diretor que fez coisas duras como “Segredos e Mentiras” e “Vera Drake”. Estranho dizer isso de um filme em que vemos uma mulher de meia-idade fragilizada por extrema carência afetiva e pelo medo de envelhecer (Mary/Lesley Manville); outra deprimida por uma vida infeliz coroada pela insônia (Janet/Imelda Staunton confinada apenas à cena inicial, uma pista falsa de que será ela a personagem principal); um homem que afoga a solidão em comida (Ken/Peter Wight); um cunhado amargurado à beira da demência (Ronnie/David Bradley); um sobrinho raivoso e problemático (Carl/Martin Savage). É que a felicidade em Mike Leigh vem sempre ao custo de muito sofrimento – e isso se vê de maneira especial em “Simplesmente Feliz”. Todos esses personagens infelizes de “Another Year” estão ali para servir de contraste ao que importa de fato: mostrar a plena e plana felicidade do casal central, Tom/Jim Broadbent e Gerri/Ruth Sheen. Eles vivem tranquilos há mais de 30 anos em torno do trabalho, da sua horta, dos seus chás e da solidariedade para com os seus entes queridos. Eles não têm nenhuma receita de satisfação e harmonia para passar aos outros, nem ao espectador. Apenas vivem em paz, tendo sempre uma mínima palavra de conforto para quem precisa. No fundo, essa simples disposição para compreender tem um pouco da formalidade britânica, mas é fruto principalmente do estado de espírito que eles cultivam junto com as sementes e tomates do seu quintal. Um estudo da felicidade simples, construído em silêncio pelo simples contraste com os demais personagens. E para isso Mike Leigh excede novamente na direção de atores excepcionais, cujas inflexões e sutilezas nos diálogos naturais e precisos nos colocam dentro de um drama que se permite ser também uma comédia humana. Um reflexo da vida no qual todos nos reconhecemos.


GAROTAS, resgatado esta semana pelo Cine Joia, desvela, com olhar essencialmente feminino, a busca pessoal de uma menina em comunidade da periferia de Montreuil. Oprimida pelo machismo, a indiferença e uma perspectiva de vida medíocre, Marieme vai se associar a uma gangue de garotas e a um grupo de tráfico na procura de uma afirmação e uma liberdade que ela só consegue definir pela negação: não quer ser faxineira como a mãe, nem esposinha direita, nem eterna patricinha-bandida, nem puta tampouco. Esse é o cardápio de opções disponíveis para uma menina como ela. A diretora Céline Sciamma (do ótimo “Tomboy”) faz um cativante estudo de personagem, apesar da forma brusca como apresenta as metamorfoses da camaleoa Marieme. Há semelhanças entre as atitudes da gangue, infantis e agressivas ao mesmo tempo, e as das personagens de “Antonia”/Tata Amaral e “Bling Ring”/Sofia Coppola. Trata-se, afinal, de uma história de autorreinvenção e vampirização de estilos, que tanto pode resultar em êxito como afundar no vazio. GAROTAS é duro mesmo quando parece ceder às fantasias pop das meninas ou quando a câmera, muito sensível aos corpos, ensaia momentos de ternura. Algumas canções bem bonitas e atrizes afinadíssimas com seus papéis completam o charme doce-amargo desse romance de formação.


Vencedor do prêmio Caméra d’Or em Cannes e darling de festivais internacionais, QUANDO MEUS PAIS NÃO ESTÃO EM CASA (ILO ILO) tem muito a revelar sobre a classe média de Singapura durante a crise econômica do final dos anos 1990. A contratação de empregadas filipinas, o emprego clandestino como cabeleireiras, as demissões em massa nas empresas, os suicídios e as esperanças depositadas em bilhetes de loteria e cursos de auto-ajuda pintavam um quadro de desespero surdo, dado o império da disciplina vigente no país. A família Lim vive seu pequeno inferno particular testemunhado pela nova empregada, Terry, vinda da província filipina que dá o título original ao filme. O relacionamento entre Terry e o filho dos patrões, menino endiabrado, passa por fases distintas e ameaça contribuir para a desagregação da família. Mas o diretor Anthony Chen, também autor da história, não quis fazer filme de gênero. Por trás dos estereótipos de opressão familiar e de classe, ele consegue desenhar seus personagens com humanidade, mesmo que esta custe a se expressar e o faça pelas frestas do dia-a-dia. A dramaturgia é às vezes previsível, com pistas plantadas de forma um tanto óbvia, mas o filme acaba driblando suas próprias armadilhas e deixando uma boa lembrança doce-amarga. Além de descortinar com naturalismo quase didático hábitos e formas de vida de um país que pouco vemos na intimidade.


Como cenário de um filme sobre memória, identidade, mistério e criação artística, o Deserto do Atacama é altamente inspirador. É para lá que segue o protagonista de ROMANCE POLICIAL, um escritor carioca em fase de bloqueio criativo e autoquestionamento pessoal. A escolha é boa até demais, pois ao se tornar suspeito de um crime ele passa a vampirizar personagens e acontecimentos para um novo romance e uma tomada de consciência sobre si mesmo. A melhor coisa do roteiro de Jorge Durán é essa ideia de um homem que se arrisca pela sua obra e vê a vida misturar-se a ela. Pena que o desenvolvimento da ideia se prenda a muitos clichês do gênero escritor-em-crise-encontra-mulher-e-perigo. Há uma intenção louvável de explorar os mitos e a etnografia do deserto chileno, embora tudo se limite a uma visão superficial e ilustrativa. A elegância que Durán demonstra na condução da mise-en-scène e no uso das locações, infelizmente, não se repete no quesito narrativa, refém de personagens muito tipificados e soluções pouco inventivas. Eis o tipo de filme que eu adoraria ter apreciado mais.


SANGUE AZUL, de Lírio Ferreira, fez boa carreira em festivais, tendo sido exibido com destaque em Berlim e ganhado três prêmios no Festival do Rio, inclusive os de melhor filme e direção. Eu não consegui acompanhar essa boa recepção festivaleira. O roteiro me pareceu bastante desengonçado, com flechas (ou facas) sendo atiradas para todos os lados: a mística do circo como pano de frente para eventos trágicos, um filho pródigo que volta a Fernando de Noronha, um incesto que sai de longa hibernação, a interação entre os nômades da trupe e os sedentários do lugar. Um cheiro de psicologismo barato exala da metáfora do garoto/rapaz que tem medo de mergulhar mas se atira no ar como Homem-Bala. O folclorismo também inunda o filme com danças místicas à beira-mar, lendas narradas por um velho pescador (Ruy Guerra), show de Lia de Itamaracá, cenas de sexo em múltiplas variantes – tudo isso sem relação consistente com a narrativa, como se estivesse ali apenas pelo seu valor de espetáculo ou homenagem. As cenas do prólogo, num preto e branco extasiante de Mauro Pinheiro Jr., assim como o pas-de-deux subaquático do final, apresentam um tom elegíaco e uma organicidade que vai faltar ao resto do filme. SANGUE AZUL me passa a impressão de um argumento forte que se dissolveu no desenvolvimento fragmentado, na fragilidade dos diálogos e numa direção meio sem rumo.


ARTIGAS, LA REDOTA, em cartaz no Joia e dirigido pelo nosso uruguaio César Charlone, faz parte do projeto espanhol Libertadores de oito filmes sobre os grandes líderes da luta de emancipação da América Latina. Bolívar terá o seu e Tiradentes também – este, ao que consta, dirigido por Marcelo Gomes. Em ARTIGAS, o tom épico dá lugar a uma mirada reflexiva e distanciada. A história do militar José Artigas, ungido herói nacional do Uruguai mesmo sem ter vencido as batalhas decisivas contra o exército luso-brasileiro, é contada indiretamente através de dois outros personagens: um falso jornalista enviado para matá-lo no início do século XIX e o pintor Juan Manuel Blanes, encarregado de pintar seu quadro em fins do mesmo século. Assim, o filme trata, na verdade, da construção das imagens históricas. Calderón, o mercenário espanhol, aproxima-se da realidade dos insurretos e começa a admirar o homem que devia matar. Blanes, desprovido de materiais que o inspirassem, usa a imaginação e tem sua primeira versão do quadro rejeitada por não retratar o herói da forma “limpa” e destacada como previa a encomenda oficial. Enfatizando mais o mito que a reconstituição de fatos, o filme tem um excelente achado de roteiro e economiza na produção ao concentrar-se num período de entreguerras, no reduto chamado La Redota. A realização, porém, resulta com aspecto televisivo, usa recursos que lembram o spaghetti-western (zooms, música intrusiva) e às vezes se atrapalha por conta de uma montagem abrupta e uma decupagem confusa.


A crer numa das cenas de JAMES BROWN, houve um dia em que Brown ironizou os Rolling Stones por dividirem o palco com ele sem nunca antes terem se apresentado nos EUA. Desde então, os Stones não só beberam nas águas do “Godfather of the Soul”, como Mick Jagger agora assina a produção de sua cinebiografia. Uma abordagem que não poupa tintas para pintar um astro arrogante, egocêntrico e rancoroso. Mas genial. O melhor de JAMES BROWN, como já disseram os críticos americanos, é a performance de Chadwick Boseman (o Jackie Robinson de 42: A História de uma Lenda), pulsante e convincente tanto dentro quanto fora do palco. Afora isso, o que temos é uma fórmula de gênero um tanto batida, que o roteiro tenta inovar de maneira bastante arbitrária. A linha cronológica é cortada aqui e ali por flashbacks e flashforwards que não acrescentam muita coisa aos eventos em si nem à trajetória de Brown como um todo. Há lugar para os traumas familiares, os conflitos com colegas de banda e as aventuras amorosas, mas nada omite a impressão de que faltou material dramático para sustentar um filme de 139 minutos. O diretor Tate Taylor busca o impacto com perseverança, apelando até mesmo para a interlocução direta com a plateia. Em vários momentos, Boseman/Brown fala para a câmera sem que nada justifique tal procedimento. Se era preciso energizar as cenas ao máximo para fazer justiça ao tufão James Brown, devemos reconhecer que os aditivos foram insuficientes. O trabalho de caracterização é o que justifica um certo interesse pelo filme.