Ele e ele

Como seria o mundo se recriado por mulheres? É o que tenta responder a comédia poética O NOVÍSSIMO TESTAMENTO. Jaco Van Dormael (“Toto le Héros”, “O Oitavo Dia”, “Sr. Ninguém”), cineasta divertidamente preocupado com o destino das pessoas e do mundo, inventou agora que Deus é um escritor colérico e sádico que mora no fundo de uma máquina de lavar de Bruxelas, cidade criada por Ele num momento de grande aborrecimento. O Filho morreu na cruz, mas – surpresa! – existe também uma filha, menina disposta a consertar os muitos erros do Pai. Para isso ela precisa encontrar seis apóstolos e, antes de mais nada, enviar mensagens avisando o prazo de vida a todos os mortais equipados com celular. As reações e incidentes provocados por esse “Deathleak” fazem algumas das vinhetas mais divertidas do filme.

Van Dormael é um excelente contador de histórias que sabe flertar com a transcendência e com o humor negro sem abrir mão da singeleza. Enquanto Deus come o pão que o diabo amassou no meio de Suas criaturas, o rebanho da menina encontra saídas românticas para suas aspirações mais profundas. Nem tudo resulta interessante – e o segmento de Catherine Deneuve contracenando com um gorila é um dos que menos rendem. Ainda assim, o filme é capaz de encantar com suas incessantes ilustrações líricas, baseadas em efeitos digitais e cenográficos simples mas sugestivos. E a recriação do mundo acaba se fazendo por meio de milagres tão prosaicos quanto o da multiplicação dos sanduíches de presunto.



O Instituto Moreira Salles está lançando em DVD o doc OS DIAS COM ELE, de Maria Clara Escobar. Trata-se de uma visita (na verdade, duas) ao pai, o filósofo, dramaturgo, poeta e professor Carlos Henrique Escobar, autoexilado em Portugal. Fui aluno do Escobar no curso de Jornalismo da UFF, nos anos 1970, e testemunhei o caráter de um dos mais provocativos intelectuais da esquerda brasileira. Escobar foi preso e torturado na ditadura. No filme, Maria Clara tenta estabelecer uma conversação com o pai sobre vida familiar e repressão política. Em ambos os aspectos, o contato é difícil, negociado passo a passo, chegando às vezes ao nível da confrontação.

O caráter essencialmente improvisado do filme, se sofre no quesito estética e objetividade, por outro enfatiza o problema essencial entre uma filha e um pai que praticamente não se conhecem.

O DVD traz ainda um trecho de 25 minutos de conversa sobre Marxismo que não foi incluído na montagem final e um livreto com introdução crítica de Carla Maia e depoimento da diretora. Neste, Maria Clara relata: “Eu filmava muito, tudo. Ele encenava muito – e assim íamos definindo a talvez única relação possível. O que retrata e o retratado. O que olha e o que é visto. E, por que não, dentro dessa mesma lógica de relação de poderes negociados e apropriação de sua matéria: o que é pai e a que é filha. Repetimos muitas vezes este procedimento; e de maneira estranha, através da repetição, íamos nos aproximando e conhecendo pouco a pouco as armadilhas de cada um e as armadilhas, talvez, em que cada um se encontrava preso.”

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