Meu giro por Tiradentes

Comento aqui rapidamente os longas da Mostra Aurora e os curtas da Mostra Foco, das quais fui jurado na 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Para uma melhor abordagem das questões em pauta, divido o artigo em quatro temas.

Tema 1 – A volta ao índio

Na comemoração dos 10 anos da estreia de Serras da Desordem em Tiradentes, o filme foi reexibido na abertura do evento, junto com uma homenagem a Andrea Tonacci. Três dias depois subiu ao palco da Cine-tenda o venerando Luiz Paulino dos Santos para apresentar o longa Índios Zoró – Antes, Hoje e Depois?. Aos 83 anos, filho de mãe indígena, o diretor de Um Dia na Rampa e Crueldade Mortal retornava ao cenário e a personagens do seu curta Ikatena – Vamos Caçar, de 1982. Os zorós, principalmente as crianças, filmados na época como um enclave de pureza lúdica, são reencontrados hoje como índios um tanto tristes, envolvidos com a tarefa de sobreviver como semi-brancos e convertidos a igrejas evangélicas.

O filme é tanto sobre os zorós quanto sobre Luiz Paulino. Hoje líder de uma comunidade do Santo Daime no interior de Minas, ele se insere no quadro como um misto de âncora e pregador. Exibe Ikatena para os índios, participa de rituais, pronuncia-se contra a extinção das tribos indígenas e o tráfico de madeira, invoca Krishna e o xamanismo para restabelecer uma harmonia perdida. Homem religioso, não oferece argumentos contra a fala chocante de um pastor indígena segundo a qual, nos anos 1980, época de Ikatena, os zorós viviam “perdidos”, sem um “deus verdadeiro”.

(Esse quadro dos índios evangelizados foi exposto com mais detalhes no recente A Nação que não Esperou por Deus, de Lucia Murat.)

Apesar da estrutura errática e de algumas insuficiências técnicas, Indios Zoró evidencia uma situação muito comum a tantas tribos brasileiras e refaz nosso contato com um realizador bastante peculiar. Auxiliado pelo produtor e montador André Sampaio e pelo produtor pernambucano Tiago Melo, Luiz Paulino dos Santos esbanjou alegria e engajamento nesse retorno às aguas do cinema. Literalmente até, como na cena em que ele, sem que nem a equipe de filmagem esperasse, mergulhou de roupa e tudo num rio, repetindo o gesto das crianças de Ikatena. Esse foi talvez o melhor plano que vi em Tiradentes.

Os índios um dia conhecidos como avá-canoeiros são os personagens de Taego Ãwa, que os irmãos goianos Marcela e Henrique Borela fizeram a partir do desejo de confrontar remanescentes da tribo com uma série de materiais audiovisuais sobre eles encontrados num arquivo de universidade. Em grande parte, o documentário se nutre das imagens do passado, filmadas em Super 8, 16mm e VHS. Uma cena de caçada ao cervo, obstinadamente acompanhada por um cinegrafista universitário, é o momento mais forte. Talvez por timidez ou excesso de zelo, Marcela e Henrique não exploraram a contento o dispositivo de devolver as imagens aos índios. Nem, ao que consta, estes se mostraram lá muito interessados. Daí uma certa dissociação entre passado e presente.

Ainda assim, fica claro que a transmissão da cultura dos Ãwa dependia em grande parte da figura patriarcal do velho Tuttawa, morto depois das filmagens. O doc reconta uma história de coerção, deslocamento e morte dos índios pelos brancos na década de 1970, assumindo então uma postura de solidariedade à luta da família Ãwa pela demarcação de suas terras. Em dado momento, a narrativa abandona o tom de observação e exposição de arquivos para montar uma colagem bastante retórica sobre o avanço do poder político-industrial branco sobre as populações indígenas. Em parte, é um aceno dos Borela à inspiração assumida de Serras da Desordem.

A volta ao índio apareceu ainda, subsidiariamente, em dois outros filmes. No curta Noite Escura de São Nunca, uma projeção sobre prédios inclui imagens de indios junto a outras de manifestações políticas urbanas numa fala sobre repressão e resistência. No longa Jovens Infelizes, Andrea Tonacci (ele mais uma vez) aparece numa palestra explicando a busca pelo seu “eu-índio” interior. De alguma maneira, a figura do índio condensa, para jovens e veteranos, uma espécie de reserva (com frequência idealizada) de liberdade e desassociacão com o sistema capitalista, reserva esta em risco crescente de desaparecimento físico e espiritual.

Tema 2 – Política, fantasmas e utopia

O longa e o curta vencedores do Prêmio da Crítica de suas respectivas mostras trabalham de maneiras diferentes o mal-estar político contemporâneo e a ideia de resistência. O curta Noite Escura de São Nunca, de Samuel Lobo, confina-se numa vila residencial do Centro do Rio, na tênue relação entre uma mulher marcada por um trauma da ditadura (a perda da irmã) e duas moças atuantes em manifestações recentes. Em narrativa frouxa, mas com bons momentos sobretudo na participação como atriz da professora de cinema Guiomar Ramos, o curta materializa o incômodo através de detalhes do cotidiano caseiro (animais repelentes, paredes mofadas) e recorre à figura de um demônio mais ou menos sedutor cuja função me pareceu associada à loucura.

Bem mais articulado e incisivo é o longa vencedor da Mostra Aurora, Jovens Infelizes ou um Homem que Grita Não é um Urso que Dança, de Thiago B. Mendonça (foto abaixo). Ali também há a ideia de confinamento. Uma pequena comunidade de artistas-militantes habita um pequeno apartamento em São Paulo, onde fazem tudo coletivamente, da discussão de questões públicas e privadas à intensa atividade sexual. É onde também ensaiam uma peça teatral e preparam suas ações de rua, que incluem o sequestro de um governador algo parecido com José Serra.

Realização essencialmente coletiva, o filme se beneficia da intimidade entre os atores, construída no trabalho como grupo de teatro. O título, extraído de um texto de Pasolini, tem a ver com a submissão da juventude ao “fascismo do consumo”. No entanto, o filme põe em cena um espectro mais amplo de insatisfações, fúrias e contradições dos jovens politizados numa era em que as esquerdas não parecem mais impedir a escalada do capital. A iconoclastia religiosa, as performances irreverentes na rua, a inserção dos personagens nos protestos anti-Copa em 2014… São muitas as estratégias usadas para encenar o enfrentamento de um estado de coisas sintetizado na frase pichada em um muro: “Está tudo uma merda”.

Para mim, a força de Jovens Infelizes não está tanto no seu furor anarquista nem em suas indagações sobre a utopia, e muito menos nos excessos de verborragia e surubas. O que me interessou foi a maneira orgânica e culta como tudo aquilo chega à tela. Toda uma tradição das vanguardas políticas e artísticas é evocada – de canções esquerdistas e anarquistas à iconografia revolucionária do século XX; do teatro de Zé Celso ao cinema de Carlão Reichenbach, Tonacci e dos marginais de 1960/70; de Brecht e Beckett a Manhã Cinzenta e à face mais política da Nouvelle Vague. O preto e branco dominante ajuda a inscrever o filme nessas linhagens, ao mesmo tempo que o jogo dos atores transpira uma sensibilidade bem contemporânea.

Os ecos da ditadura militar ressoaram no curta paulista Entre Imagens – Intervalos, uma pequena joia na área do filme-ensaio. André Fratti Costa e Reinaldo Cardenuto saíram atrás dos rastros do artista plástico e ativista de esquerda Antonio Benetazzo, morto pela repressão e cujas únicas imagens em movimento se resumem a poucos segundos como figurante em Anuska, Manequim e Mulher. O foco, porém, foi ajustado para as lacunas que existiam a respeito do personagem. Assim, num estilo de certa forma tributário de Alain Resnais e Chris Marker (As Estátuas Também Morrem), Jorge Furtado (Ilha das Flores) e Patricio Guzmán (Nostalgia da Luz), o filme caminha pela escassez de imagens, o desmentido de versões e o mistério da obra inacabada. O princípio da colagem, caro ao trabalho do artista, e a ideia de ocultamento, tipica do militante, fornecem o eixo formal para relembrar o homem e resgatar sua obra sem o aparato do documentário convencional.

No confuso O Rosto da Mulher Endividada, Renato Sircilli e Rodrigo Batista tentaram mostrar o neoliberalismo como sendo uma decorrência funesta da redemocratização do Brasil e apontando como consequência o esmagamento dos sonhos de liberação econômica da mulher.

Tema 3 – Corpos em transe

Seis curtas e dois longas centravam sua dramaturgia nos corpos dos personagens, com níveis distintos de politização. A temática homoafetiva compareceu em dois curtas. Lightrapping, de Márcio Miranda Perez (SP), inspira-se no trabalho de um fotógrafo que retrata homens nus em logradouros públicos. Valendo-se de uma sofisticada iluminação noturna, a ficção conta o alvorecer sexual de um rapaz a partir do contato com um fotógrafo. Já A Vez de Matar, a Vez de Morrer, de Giovani Barros, usa alguns recursos do western para revelar a face gay dos agroboys de Mato Grosso. Algo como um Brokeback Mountain sem nenhuma mulher para atrapalhar.

Na seara do filme de gênero, Encontro dos Rios, de Renata Spitz (RJ), equivoca-se no ritmo, na direção automatizada do elenco e na trilha sonora enquanto narra as fantasias de uma menina a respeito de um corpo visto no rio. O paulista Levante, de Jader Chahine e João Paulo Bocchi, explora com acerto o ponto de vista das entrevistas de emprego e das câmeras de segurança na história de um ex-PM contratado como segurança de escola de alta classe média. As normas de conduta e a natureza violenta do personagem vão se chocar durante uma rebelião dos alunos – que, como está em voga na pauliceia chique, consiste em tirar a roupa. O curta coloca o espectador num lugar incômodo e imagina um aparato de vigilância e identificação muito próximo de migrar da ficção científica para a realidade.

Distinguido com o Prêmio Aquisição do Canal Brasil, o curta Eclipse Solar (ES) é mais um trabalho corajoso de Rodrigo de Oliveira no ramo das narrativas tocadas pelo mito e pelo anacronismo. Uma mãe é confrontada pelo filho que desprezou e pelo demônio com quem fez um pacto. O vocabulário audiovisual abrange Beethoven, canto lírico, madonas de um museu de Vitória, figurinos de época e posturas hieráticas como em filmes de Jean-Marie Straub, Manoel de Oliveira ou Eugène Green. No oposto desse estilo empostado, o pernambucano Ainda me Sobra Eu, de Taciano Valério, simplesmente abre a câmera para uma performance intensamente pessoal – e corporal – do poeta e cineasta Tavinho Teixeira.

O longa Filme de Aborto, de Lincoln Péricles, é outro que recorre ao instrumental brechtiano, e por extensão godardiano, para falar de angústias de jovens infelizes da periferia de São Paulo. Temos aqui um casal massacrado pelo trabalho opressivo e assolado pela dúvida sobre ter ou não um filho. Quem está grávido é o homem, o que supostamente facilita a opção pela interrupção, já que o aborto só seria crime se praticado pela mulher. Essa hipótese de inversão irônica – com uma curiosa cena de homens conversando na sala de espera de uma “clínica” – acompanha outras inversões e desarticulações operadas pelo filme: imagens tomadas através de espelhos, ausência de sincronia entre falas e imagens, indefinição entre raiz documental e elaboração ficcional. A reiterada banalidade do cotidiano contrasta com a inserção de canções de Kurt Weil e uma sequência de Chaplin.

No debate em Tiradentes, Lincoln Péricles assegurou a intenção de fazer um filme “didático” de militância contra a sujeição de trabalhadores e mulheres. Não vejo, porém, como esse objetivo pode ser atingido à base de tanta pseudo-invenção canhestra, já que o próprio poder de comunicação do cinema entra no rol dos itens sabotados.

Talvez o filme mais esperado da mostra, Animal Político, primeiro longa do pernambucano Tião (Muro), causou um pequeno desapontamento. O corpo em questão é o de uma vaca, criada com todos os confortos nas tetas de uma família (humana) burguesa, mas que um dia se sente sufocada pela falta de sentido e parte em busca de iluminação. O filme pode ganhar muito se examinado à luz do budismo (a vaca reedita a viagem de Sidarta), dos filmes de aventura animal e do surrealismo pop (a CowParade instalou vacas de fiberglass decoradas por artistas locais em diversas cidades do mundo nos anos 2000). De qualquer forma, o esperto aparato estético e de produção mobilizado pelo filme tem sua graça restrita à primeira meia-hora, tornando-se depois repetitivo e um tanto estéril.

Como se temesse isso, Tião enxertou de modo brusco uma espécie de curta-dentro-do-longa sobre uma bela náufraga loura, herdeira da indústria canavieira, que desfila sua nudez selvagem numa ilha deserta e acaba se conectando magicamente com o percurso da vaca. Mas é preciso ressaltar que, apesar da arbitrariedade desse segmento e da limitada evolução do argumento, Animal Político tem uma simpática originalidade e rascunha sua filosofia com uma pegada lúdica que cativa a plateia.

Tema 4 – Espaços em conflito

O tema da curadoria dessa edição da mostra, “Espaços em conflito no cinema brasileiro”, foi bem ilustrado por dois longas da Mostra Aurora: Aracati e Banco Imobiliário. No primeiro, uma área do sertão cearense surge modificada por grandes intervenções da engenharia e da tecnologia. Gigantescos moinhos eólicos fatiam a paisagem, uma cidade foi inundada para dar lugar a um açude no Vale do Jaguaribe. Um pouco na linha do cinema de Jia Zhang-ke, as diretoras Julia de Simone e Aline Portugal documentam esse cenário sem pressa e com um refinado senso de construção estética. Seguem a pista do vento Aracati, do litoral para o interior do estado, colhendo o testemunho e as fabulações de alguns poucos e fortes personagens.

Em Aracati, estamos mais próximos da contemplação que de uma visão crítica-sociológica do progresso. Há tanto o cavaleiro quase medieval em seu isolamento e o camponês que sabe observar o vento quanto o sertanejo performático que chega a construir uma teoria instintiva do documentário diante da câmera. A memória de um passado não tão distante já vai sendo empurrada pelo vento para o esquecimento, e o filme tenta capturar vestígios dessa passagem. Chamado em Tiradentes de “wind movie”, Aracati nem sempre transita com suavidade entre o olhar para a Natureza e o contato humano. Mas isso não o impede de ser um documentário tão bonito quanto inquietante.

Por sua vez, Banco Imobiliário, de Miguel Antunes Ramos (um dos autores do premiado curta O Castelo), crava suas lentes no contexto urbano e fornece uma visão inédita dos bastidores do mercado imobiliário em São Paulo. Embora dialogue com o cinema de crítica urbanística pernambucano, Banco Imobiliário dele difere ao trocar o ponto de vista acusatório externo por um interesse agudo pelo processo de trabalho e o pensamento de incorporadores, corretores e técnicos de marketing. Ao ouvi-los vendendo seu peixe e repassar seus discursos para o contexto do cinema, Ramos automaticamente desmonta a retórica da “venda do sonho”. À exceção de um momento em que interroga um incorporador sobre o conceito de cidade, o filme nunca tenta desqualificar os argumentos dos entrevistados, mas apenas selecionar os mais ilustrativos de uma lógica que vê o espaço urbano exclusivamente como “oportunidade”.

Imagens eloquentes e uma edição provedora de subtextos cobrem a peregrinação dos compradores de terrenos, a anatomia das maquetes, a marquetagem dos showrooms  e as justificativas estéticas dos modernos stands de venda, verdadeiros parques temáticos. Esse dossiê de dissecação implacável é também sobejamente divertido. Conforme foi lembrado no debate sobre o filme, Banco Imobiliário poderia em vários momentos ser visto como uma comédia de Jacques Tati ou uma versão brasileira do clássico Salesman, de Albert e David Maysles. A safra 2016 haverá de ter um lugar de destaque para esse documentário.

6 comentários sobre “Meu giro por Tiradentes

  1. Pingback: Meus filmes prediletos de 2016 | ...rastros de carmattos

  2. Pingback: Festivais 2016: Tiradentes, Roterdã, Sundance |

  3. Pingback: Vladimir vê “Santo Daime” | ...rastros de carmattos

  4. prezado, belo texto panorâmico acerca da experiência de Tiradentes. Obrigado pelos comentários sobre o “Entre imagens (intervalos)”. Bom saber que o filme foi apreciado. Abraço, Reinaldo Cardenuto.

    • Sim, Reinaldo, parabéns pelo belíssimo curta. Ainda é tempo de inclui-lo num texto de fôlego que estou preparando sobre filmes-ensaio brasileiros. Abraço

      • caro, fico contente em saber da inclusão do filme nesse texto. Caso precise revê-lo, posso te enviar um link. Me avise quando ocorrer a publicação do artigo. Quero muito ler. Abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s