Um cemitério, um cão e um presidente

Filho de um casal de médicos, Apichatpong Weerasethakul (AW) insere referências constantes a hospitais e enfermidades em seus filmes. Em CEMITÉRIO DO ESPLENDOR, boa parte da ação se passa numa clínica que trata de soldados com uma estranha doença do sono. O prédio já abrigou uma escola, e o terreno, ao que se diz, repousa sobre um antigo cemitério de reis. Ou seja, nos filmes de AW, não só as pessoas, mas também os edifícios e os lugares têm vidas passadas, que se comunicam com o presente em regime de absoluta naturalidade (Past Lives é o nome de sua produtora). Uma mulher se dedica a cuidar de um dos soldados como se fosse seu filho e estabelece relações com uma moça sensitiva capaz de acessar o pensamento dos soldados adormecidos.

O que mais me agrada no cinema de AW, para além de seu ritmo sereno e sua extrema simplicidade formal, é a ausência de passes de mágica para criar sua magia toda especial. Nos seus filmes, deusas podem vestir roupas comuns e conversar com simples mortais enquanto comem frutas; uma médium pode visitar fisicamente o passado remoto; os sonhos de duas pessoas podem ser recíprocos; o jogo de luzes de uma enfermaria pode se reproduzir em vários pontos da cidade. Mas nada se transforma como um efeito, tudo simplesmente é. O imanente e o transcendente, o banal e o extraordinário, os cremes para a pele e os mistérios do espírito habitam um só patamar. Ao mesmo tempo em que retrabalha velhas tradições do folclore da Tailândia, AW também lida com a atualidade corriqueira do país – os gadgets, as reproduções pop, as ginásticas de rua, a fixação nos EUA.

CEMITÉRIO DO ESPLENDOR pode não estar entre os filmes mais ambiciosos e originais do diretor, mas certamente tem o encanto calmo e a doçura misteriosa de uma aparição em plena luz do dia.



Não são poucos os filmes que mostram cães no ataque a seres humanos, seja por vingança, distúrbios infecciosos ou treinamentos para a violência. DEUS BRANCO/WHITE GOD combina diversos tratamentos possíveis desse tema num misto de aventura disneyana e thriller gore. Ecos de Jack London (“O Chamado da Selva” e “Caninos Brancos”) aparecem na transformação do manso Hagen numa fera assassina como efeito do contato com donos diversos. A conotação social também é bastante clara, já que os vira-latas são uma alegoria dos párias da sociedade e vítimas de discriminação racial. Não por acaso, “White God” é um anagrama de “White Dog”, o filme de Samuel Fuller sobre cães treinados para atacar negros.

Após um prólogo tão impactante que a gente fica esperando rever perto do final, o diretor húngaro Kornél Mundruczó constrói o filme como uma narrativa paralela entre as aventuras de Hagen e as de sua dona, a adolescente Lili. Enquanto Hagen descobre seus instintos selvagens e sua capacidade de liderança, Lili conhece o amor e as primeiras dores que o acompanham. A música, de forte presença como trilha sonora, tem também uma importância dramática fundamental, já a partir do mote da redenção pelo amor na ópera Tannhäuser, de Wagner. Se deixa a desejar aqui e ali na caracterização unidimensional e um tanto fria dos humanos, Mundruczó se esmera na direção do elenco canino, demonstrando uma enorme perícia técnica e apenas roçando a fronteira do antropomorfismo. Os cães são sempre cães, em vez de réplicas de gente. É onde DEUS BRANCO se afasta de Disney e se aproxima de Fuller.



O PRESIDENTE, de Mohsen Makhmalbaf, é uma parábola especulativa sobre ditadura, revolução, revanchismo e perdão. Passada num “país desconhecido”, mas ambientada na Georgia, lida com um imaginário político característico do leste europeu. Derrubado o ditador, o país entra numa renhida guerra civil, sinal de que a democracia por ali é algo inalcançável. Enquanto isso, o ex-presidente, com a cabeça a prêmio, foge com o neto disfarçado de pastor ou artista de estrada, experimentando o lado oposto da opulência vivida até então e deparando-se com as vítimas do seu regime.

Quem conhece o cinema de Makhmalbaf sabe que não deve esperar dele maiores sutilezas. O PRESIDENTE é quase sempre óbvio em suas contraposições e enfrentamentos. A mão diretorial é pesada e a dramaticidade se exacerba em vários momentos, numa encenação neorrealista que soa bastante anacrônica. O filme se safa principalmente pela construção do olhar do neto inocente – e pelas diversas oportunidades em que ele prefere ou é levado a fechar os olhos e os ouvidos para uma realidade insuportável. O menino Dachi Orvelashvili conecta imediatamente o espectador com seu ponto de vista e cria um diferencial valioso para a narrativa.

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