A Garota, a Irmã e o Tempo

Meninas de 12 anos, direta ou indiretamente, podem ser muito perigosas. Isso talvez seja tudo o que levamos para casa depois de ver A GAROTA DE FOGO. Mas enquanto estamos diante do filme do espanhol Carlos Vermut a sensação é de caminhar num fascinante labirinto. A trama inusitada liga cinco personagens num jogo de pedidos e atendimentos. Da menina com doença terminal que deseja uma roupa de cantora japonesa à mulher fatal que, de um leito de hospital, pede ao ex-professor que devolva um certo livro à biblioteca, temos uma rede de desejos, chantagens e favores que se forma como um quebra-cabeça. O espectador é colocado em permanente estado de indagação, pois ninguém no filme se comporta de modo psicologicamente justificável, nem mesmo dramaticamente plausível.

A grande aposta de Vermut é justamente o convite a que exercitemos a dedução e, não raro, a imaginação. A ponto de exagerar em algumas lacunas, sobretudo na relação entre Bárbara e Damián. Seu estilo é gélido, calculado, e se sustenta na atuação clinicamente precisa do elenco. A estabilidade dos planos fixos contrasta com os distúrbios dos personagens. Dentro de um desenho aparentemente metódico e racional, o desejo de irrealismo irrompe em coincidências, vínculos misteriosos, passes de mágica e indícios de violência brutal. Um filme exótico, inesperado, que tem valido ao seu diretor o epíteto de “novo Almodóvar”, muito embora trafegue por searas bem diferentes.



NOSSA IRMÃ MAIS NOVA é uma suprema ilustração do culto à harmonia na sociedade japonesa, mesmo à custa de se esconder toda a verdade para evitar conflitos. Espera-se que as pessoas observem o conceito de “Honne x Tatemae”, que pode ser traduzido por “opinião sincera x expressão pública”. Nesse novo filme do às vezes genial Hirokazu Kore-eda, baseado num mangá-folhetim para mulheres, uma série de traumas e queixas familiares são seguidamente varridos para baixo do tapete da cordialidade e da conciliação sorridente. Mas há material para quem quiser enxergar por trás da cortina dos costumes.

Três jovens irmãs, filhas de pais separados, acolhem em sua casa uma meio-irmã adolescente, recebida como um tesouro que pode completar o quebra-cabeça da família. Embora as verdades só venham à tona muito brevemente em momentos excepcionais, para logo serem abafadas pelos sorrisos e a ternura fraternal, é possível perceber uma corrente subterrânea  de ressentimentos, culpas assumidas entre pais e filhos, e irrealizações pessoais que vão se dissimulando na repetição cíclica dos papéis sociais, dos hábitos caseiros, das receitas culinárias e do calendário da hoje pequena cidade de Kamakura.

Esse não está entre os trabalhos mais fortes de Kore-eda, como “Depois da Vida”, “Ninguém Pode Saber” e “Pais e Filhos”. Contenta-se em ser uma crônica de cotidiano, quase totalmente desdramatizada, que se apoia essencialmente na minuciosa direção das atrizes e no levíssimo contraste entre as idades, personalidades e posturas das moças perante o amor. O papel da irmãzinha Suzu, mais que protagonista, é de escada ou espelho para projetar as irmãs maiores. Em vários momentos, o filme toca o sentimentalismo e passa pelas indefectíveis cerejeiras em flor e associações entre a comida e as grandes questões da vida. O estilo direto e delicado de Kore-eda ganha momentos de maior efusividade na sequência final de cada “ato”. No mais bonito deles, em que a linguagem contradiz o sentido, a agregação das quatro irmãs é filmada como se fosse uma clássica despedida em estação ferroviária.



Partindo de impressões pessoais de sua agitada vida de diretora de festivais de cinema (Circuito Inffinito), Adriana L. Dutra investiga velhos e novos conceitos de tempo em QUANTO TEMPO O TEMPO TEM. A direção compartilhada com Walter Carvalho cria similaridades com o projeto de “Janela da Alma”, assinado por Walter e João Jardim. Temos a mesma abertura do tema entre campos disciplinares e entrevistados de nacionalidades diversas. Intercalando os blocos de depoimentos, imagens de cidades em time lapse sugerem a velocidade do mundo contemporâneo.

É sobre isso basicamente que se fala. Como a abolição dos espaços pela internet mudou a percepção do tempo? Que novas histórias e relações estamos criando com o tempo que sobra e o que falta? Será possível existirmos fora do tempo, fora da biologia? Aboliremos um dia a finitude humana, razão principal da nossa obsessão com as durações?

Da evocação histórica à análise filosófica e à especulação científica de futuros possíveis, o elenco do filme apresenta com inteligência muitas coisas que pensamos e discutimos no dia a dia, mas sem a mesma capacidade de articulação nem o mesmo brilho. Ouvi-los e refletir junto com eles, acreditem, não é nenhuma perda de tempo.

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