Cangaceiro morto, cineasta ressuscitado

Misto de autobiografia e fantasia cinéfila, eu arriscaria dizer que MEU AMIGO HINDU é o melhor filme de Hector Babenco desde “O Beijo da Mulher Aranha”. Ou pelo menos aquele em que o diretor melhor fez coincidir sua maneira ao mesmo tempo sóbria e ousada de filmar com um assunto que domina plenamente. É interessante que, desde a cura do câncer, ele tenha feito três longas e vários pequenos trabalhos antes de elaborar frontalmente no cinema o drama da doença, do tratamento e de sua “ressurreição”. O tempo foi benéfico para que ele encontrasse o tom adequado – duro, penoso, ainda que sempre elegante.

É um Brasil estranho esse que se vê no filme, em que todos se expressam num inglês perfeito e São Paulo parece uma cidade asséptica da Nova Zelândia. Babenco nos convida a dissociar a história da realidade exterior enquanto nos afunda na realidade, digamos, interior: os dilemas de consciência do cineasta enfermo, as querelas familiares, a convivência com uma elite que ele retrata entre a intimidade e a ironia (a visita dos VIPs americanos ao diretor “ressuscitado” é um primor nesse sentido). Às vezes tive a impressão de que Baneco convertia a doença numa forma de exibicionismo, mas logo me convencia de que se tratava de uma elaboração artística do sofrimento, quem sabe uma extensão do processo de cura através do cinema.

Willem Dafoe empresta sua particularidade corporal e seu talento ao papel desse Diego levemente felliniano que lida com a iminência da morte e a aposta no sonho de ainda viver e filmar. A fotografia de Mauro Pinheiro Jr. e a música de Zbigniew Preisner são outros responsáveis diretos pela qualidade do filme, que só peca por perder um pouco de ritmo em sua última parte. Em meio ao clima geralmente soturno, uma diversão é identificar as muitas citações cinematográficas, filmadas ou verbalizadas, com que Babenco embala esse seu “Oito e Meio” hospitalar.



Seria até natural esperar que um filme idealizado e dirigido por Alceu Valença fosse, acima de tudo, um veículo para sua verve musical. De fato, A LUNETA DO TEMPO muitas vezes parece mais uma sucessão de clipes do que uma narrativa dramática fluente. Mas Alceu está longe de ser um novato no cinema, seja como compositor e intérprete de trilhas, seja como ator. Essa ligação transparece na forma como ele, nesse seu primeiro filme, engaja elementos de clássicos do cinema nordestino como “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Baile Perfumado”, os filmes-cordel de Rosemberg Cariry e “A Noite do Espantalho”, do qual integrou o elenco. O universo do cangaço é revisitado com a intenção de combinar ação, romance e mito. As linhas de continuidade no tempo são o mote da trama. Enquanto a rivalidade entre o cangaceiro Severo Brilhante e o Tenente Antero se estende aos respectivos filhos, 25 anos depois, o romance entre Lampião e Maria Bonita se prolonga após a morte dos dois. Talvez essa seja a mais inusitada abordagem de cangaceiros já feita no cinema brasileiro, mas no cordel já fora antecipada com o célebre folheto “A Chegada de Lampião no Céu”.

O roteiro tem sérias dificuldades em conciliar os diversos flancos da história e acomodar as elipses, assim como não evita uma frequente segmentação entre ações e músicas. O circo demora muito a se integrar ao tecido narrativo, prejudicando uma maior organicidade. Ainda assim, Alceu tira ótimos efeitos dos diálogos rimados e da conexão entre Irandhir Santos e Hermila Guedes (agora assinando-se Hermyla). A participação muito simpática do diretor como o mestre de cerimônias do circo, nas sequências finais, ameniza o jeito desordenado com que o desfecho se desenrola na tela.

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