Sylvio Back relembra Chico Moreira

Divulgo aqui um texto inédito em que o cineasta Sylvio Back relembra seu intenso trabalho com o montador Chico Moreira.

A VIDA É UM FILME RISCADO

Sylvio Back 

Cineasta com quem nosso herói, talvez, justamente, por isso, mais pesquisou, montou e editou filmes, num total de sete títulos, sinto-me profundamente solidário com seus entes queridos e colaboradores neste necrológico em louvor à personalidade multimídia do homem e profissional, belo amigo e parceiro, prematuramente recém-falecido, Francisco Sérgio Moreira (1952-2016).

Nesta lutuosa hora em que elevamos corações e mentes em sua memória (ele gostará dessa alusão ao genial documentário!), é premente que, em poucas palavras, remontemos a seu inexcedível currículo, único no Brasil. E, também, enunciando as obras que, ao longo de quase três décadas (nos conhecemos em 1988 no MAM, apresentados pelo saudoso diretor da cinemateca, Cosme Alves Netto), frutificaram de nossas incursões aos arquivos na Biblioteca do Congresso americano e National Archives, em Washington, DC (EUA) e no Imperial War Museum, em Londres (Grã-Bretanha). Tudo coincidindo com o labor cotidiano da montagem, edição e mixagens, sofrendo, rindo ou empacados sem alternativa estética à vista, mas curtindo todos os takes, cortes e soluções da variada filmografia que Chico Moreira e eu formatamos.

Cinéfilo de carteirinha, assinante da seminal revista, “American Cinematographer”, um espécie de making of do cinema de Hollywood, ele sabia título original, datas, de filmes & técnicos de centenas de obras fossem brasileiras ou estrangeiras, era um IMDb sem celular à mão… Por anos ficou conhecido nacionalmente como Chico do MAM, dada sua umbilical ligação com a Cinemateca, onde foi atilado curador de filmes durante duas décadas.

Desde então reconhecido como um dos maiores especialistas brasileiros em restauro de filmes de arquivo e preservação de obras ameaçadas pela incúria do tempo e da burocracia (entre outros, dedicou-se a recuperar a obra do mestre Nelson Pereira dos Santos, de clássicos como “Alô, alô, carnaval!” [1936], de Adhemar Gonzaga; “Os Fuzis” [1963], de Ruy Guerra; e “O País de São Saruê” [1971], de Vladimir Carvalho), com estágio de seis meses em Berlim no laboratório do Staatlichesfilmarchiv da ex-Alemanha Oriental, à época o melhor da Europa, especialização na Universidade da Califórnia e na Kodak norte-americana, Chico Moreira tinha respostas criativas para todas as instâncias de construção e edição de um filme, do negativo à cópia final, portanto, literamente, uma enciclopédia viva que deixou o cinema brasileiro mais órfão como jamais se pensaria.

Encarecendo vênia ao leitor pela autorreferência (no caso, é incontornável), essa luz mágica em pessoa, definição que lhe cabe em toda sua inteireza, Chico Moreira deixa assinatura indelével em meus filmes (sim, também em uma vintena de outros, como de Silvio Tendler, Manfredo Caldas, Ivan Cardoso, Werner Schünemann, Marcos de Souza Mendes), tornando-se coautor invisível em tantas e quantas epifanias embutidas neles, a saber, “Rádio Auriverde” (LM, de 1991), “A Babel da Luz” (CM, de 1992), com o qual vencemos o Festival de Brasília de 1992 (“Melhor filme” e “Melhor Montagem”), além da “Margarida de Prata”, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) do mesmo ano; “Yndio do Brasil” (LM) e “Zweig: A Morte em Cena” (MM) (ambos de 1995, este feito para a televisão alemã), “Lost Zweig” (2003, sua única ficção comigo, premiado em Brasília) e “Véu de Curityba” (LM, inacabado, ora sendo retomado, e que tem fotografia do também saudoso cineasta e artista plástico Mário Carneiro (1930-2007).

Solitário autor no cinema brasileiro de três longas-metragens em formato de bricolagem (ressignificação icônica e irônica de filmes de arquivo), a começar por “Revolução de 30” (1980) e os citados “Rádio Auriverde” e “Yndio do Brasil”, foi com “Rádio Auriverde”, no entanto, que Moreira e eu tivemos que absorver a ira e os despautérios dos ex-pracinhas da FEB, chegando a receber ameaças de morte e de constrangimento físico nos festivais de Brasília e de Gramado. Ainda ouço as gargalhadas de Chico Moreira fazendo coro com o que é o mais puro truísmo: polêmica não se premedita, ela nasce quando você menos espera.

A convite da então direção da Cinemateca do MAM, escrevi em 2005 ensaio para livro sobre os cinquenta anos de sua criação, e que, curiosamente, acabou não sendo publicado, cujo título era: “A vida é um filme riscado”. Ali resgato átimos existenciais, a partir da fieira de curtas, médias e longas-metragens realizados em conjunto, como em “Lost Zweig”, quando o silêncio na montagem prevalecia sobre conceitos estéticos e a pertinência ou não do corte da cena ou sequência, pois o talento e a intuição de Chico Moreira me conheciam tanto quanto meus fotogramas, exorcização moral de uma relação montador-diretor que se manteve absolutamente inoxidável ao longo dos anos.

Como explicação dessa fidelidade, há que considerar uma circunstância ir­recorrível. Num filme, dois “ca­samentos” têm que dar certo para que tudo dê certo: o do diretor com o diretor de foto­grafia e com o montador/editor – a luz e o ritmo. Não posso me queixar: em todos os meus trinta e nove filmes ja­mais pas­sei pelo transe de um divórcio!

Sylvio Back é cineasta e poeta.

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