Tags

,

Para alguém como eu, que quase nada conhecia da dupla Luhli e Lucina, o documentário YORIMATÃ foi uma revelação e tanto. Dos anos 1970 aos 90, elas viveram uma espécie de portfólio dos sonhos de vida alternativa e criativa: amor inclusivo, família expandida, utopia autossuficiente, consciência ampliada por drogas, invenção artística quase permanente, quebra de barreiras entre cotidiano doméstico e atividade de criação.

Elas mesmas, e quase mais ninguém, recordam suas histórias e fazem um balanço do tanto que viveram e compuseram juntas. Outros personagens, como Ney Matogrosso, Gilberto Gil, Tetê Espíndola e Zélia Duncan, contracenam com as duas em evocações mais musicais que qualquer outra coisa. A narrativa conduzida na primeira pessoa do plural determina alguns saltos um tanto bruscos e alguma desorganização na exposição de tempos e lugares, mas felizmente o filme de Rafael Saar não depende muito de questões estruturais. Sua força está na presença atual das duas e no magnetizante material de arquivo reunido. Lá estão diversas apresentações antológicas da dupla e muitas cenas da vida privada, colhidas pelo fotógrafo e cineasta Luiz Fernando Borges da Fonseca, morto em 1990 e com quem as duas viveram harmoniosamente e tiveram dois filhos cada uma.

Além de trazer mais à luz a originalidade multiétnica das compositoras e o seu talento performático, YORIMATÃ funciona hoje como um necessário manifesto anticonservadorismo. O desassombro libertário, profundamente honesto, de Luhli e Lucina comprovou ser mais que um delírio hippie. Ficou como exemplo de afetividade integral que resiste aos desencontros da vida.

Vale a pena ver o site e ouvir os discos.



ZOOM, coprodução canadense-brasileira, é um looping de metalinguagem que esvazia todas as possibilidades de relação com o real. Uma cartunista e artesã de bonecas sexuais (Alison Pill) está desenhando a história de um cineasta de filmes de ação (Gael García Bernal), que é apresentada em animação. Logo saberemos que a cartunista, na verdade, é personagem do livro de uma escritora estreante (Mariana Ximenes). Adivinhe agora de onde vem a escritora? O nó estaria completo se Pedro Morelli inserisse algumas cenas do seu próprio making of para sublinhar ainda mais a ideia de que tudo, afinal, é criação.

Dentro desse labirinto circular, trafega o tema da insatisfação. A cartunista quer seios maiores, o cineasta quer fazer um filme com alma e a escritora é uma top model que aspira à Literatura. Já o jovem Pedro Morelli, neste seu primeiro longa solo (ele dirigiu “Entre Nós” com o pai, Paulo Morelli), parece almejar um mix de divertimento e filme de arte, cinema brasileiro e filme de gringo. Usa uma linguagem ágil, que tangencia a publicidade e o cinema independente americano. Sua criatividade, porém, é barrada por um argumento baseado em ingredientes banais, que incluem prótese de pênis, cocaína transportada em boneca de plástico e discussões batidas sobre autonomia no cinema de estúdio. ZOOM se assemelha, então, a um filme de adolescente a quem sobram recursos e competência técnica, mas faltam consistência e maturidade.

O aparato metalinguístico ganha algum fôlego nas sequências finais, quando as pontas se tocam, o que indica um potencial que o filme poderia ter explorado desde muito antes. A meu ver, também teria ganho muito se suprimisse a trilha sonora de Kid Koala, uma das mais irritantes dos últimos tempos.



Esta é a segunda adaptação do romance autobiográfico “O Astrágalo”. A primeira foi dirigida por Guy Casaril em 1968, com Marlène Jobert, Horst Buchholz e Magali Noel nos papéis principais. Na versão em cartaz, dirigida por Brigitte Sy (da família Garrel), há a intenção de homenagear a Nouvelle Vague: a fotografia em preto e branco, o olhar carinhoso para o mundo marginal de Paris e referências pontuais como a sequência das duas mulheres na praia que lembra “Jules e Jim” e um cliente de Albertine parecidíssimo com Jean-Pierre Léaud. Mas ASTRÁGALO é muito mais bem comportado que até mesmo os filmes de Truffaut. E adoça um bocado a história de Albertine Sarrazin, pioneira da autoexposição de uma mulher de vida bandida na França.

Albertine nasceu na Argélia, cresceu com pais adotivos, foi violada por um tio aos dez anos de idade e passou por diversas casas de correção antes de ser presa e fugir no episódio que abre o romance e o filme. Ao pular um muro, ela quebra o astrágalo (um pequeno osso do pé). A sequela a deixa manca, mas o astrágalo, na verdade, é uma metáfora da vulnerabilidade trazida pela paixão. Sua relação com o pequeno ladrão que a resgatou toma ares de “amour fou” enquanto ela, foragida e disfarçada com uma peruca platinada, tenta escapar ao cerco da polícia.

O livro de Albertine – um dos 12 que ela escreveu em apenas 29 anos de vida – é apresentado como “pequeno romance de amor para Julien”. Isso explica o viés romântico que domina as duas versões cinematográficas. Albertine e Julien foram presos inúmeras vezes, juntos ou separados, quase sempre por pequenos furtos. Estão mais para dois “Incompreendidos” do que para Bonnie & Clyde.