Tags

Sobre os filmes AS CONFISSÕES e PEQUENO SEGREDO

Toni Servillo, o ator que menos “atua” no mundo, é a escolha mais justa para viver um padre acostumado a não reagir nem reproduzir jamais o que ouve no confessionário. Na primeira sequência de AS CONFISSÕES, ele desembarca na Alemanha e compra um pequeno gravador digital antes de ser levado para um luxuoso hotel campestre, onde vai reunir-se com um estranho grupo de cidadãos de várias partes do mundo. Quem são e por que estão ali? O espectador vai se inteirar aos poucos, embora a composição do grupo nunca fique bem clara. Quem os convidou foi o diretor do FMI, que chama o padre a sua suíte para confessar-se. Na manhã seguinte, um fato inesperado fará com que o religioso passe a ser questionado sobre o grande segredo da confissão, algo que poderá afetar o destino da Humanidade.

Parece ficção científica ou thriller criminal, mas é somente uma especulação sobre o estado do mundo nas mãos de financistas e políticos sem escrúpulos. Os diversos personagens abrirão pequenas frestas em seus quartos para expor preocupações e ambições, mas nada desfaz a impressão de que são heterogêneos demais para comporem um pensamento coeso. Todos parecem guardar segredos que não despertam a menor curiosidade, já que não rendem mais que conversas vagas e discussões conceituais estéreis.

O diretor Roberto Andò compensa o argumento pretensioso e vazio com um estilo sedoso, marcado pela câmera sempre deslizante, as falas sussurradas e a música hipnótica de Nicola Piovani. O ruído dos protestos anticapitalistas é cuidadosamente afastado enquanto esses convivas disparatados tentam em vão construir uma metáfora dos poderes desprovidos de moral e consciência cristã. Enfim, um miúra italiano al dente.



Não há qualquer critério que justifique a escolha de PEQUENO SEGREDO para disputar o Oscar em detrimento de “Aquarius”, “Mãe Só Há Uma”, “Nise” ou até mesmo o pancadão “Mais Forte que o Mundo”. Só mesmo a miopia de alguns membros da comissão para achar que aquele drama soporífero, como que saído de algum baú de melodramas da década de 1940, poderia conquistar a simpatia de quem vem elegendo filmes duros e criativos como “O Filho de Saul”, “Ida”, “A Grande Beleza” e “Amour”.

Eleições à parte, o que temos é um longa que se esforça o tempo todo para parecer bonito e edificante, como reza o manual do kitsch. Narrado em três tempos/espaços, alterna o quente/colorido (Belém) com o frio/fofo (Santa Catarina) e o gélido/preconceituoso (Nova Zelândia). Assim conhecemos a paraense Jeanne (Maria Flor), que se casa com o nômade neozelandês Robert (Errol Shand), tem a encantadora filhinha Kat (Mariana V. Goulart), que será adotada pelo casal Heloisa e Vilfredo Schurmann (Julia Lemmertz e Marcelo Anthony) e disputada pela avó neozelandesa Barbara (a irlandesa Fionnula Flanagan). Cada um desses personagens não passa de um rascunho unidimensional, com destaque negativo para o de Marcelo Anthony, que não tem mais o que fazer além de ficar calado e olhar para os lados.

No início, o esmero da fotografia de Inti Briones e a suntuosidade da trilha de Antonio Pinto impressionam, mas não demoram a causar enjoo pelo abuso de fundos desfocados, exibições de clichês da direção de arte, arroubos de retórica visual vazia e acordes musicais edulcorantes. Se a técnica eventualmente se impõe para encher olhos e ouvidos, basta que alguém comece a falar (dentro do quadro ou em off) para o barco afundar sob o peso dos diálogos estereotipados ou de atuações (não todas) mecanizadas.

A história real vivida pela família Schurmann merece todo o respeito, assim como a competência de tantos profissionais envolvidos, mas faltou muito para aquilo se transformar em bom cinema. Um drama que reúna romance intercontinental, adoção, bullying, esforço de superação, doenças e mortes em série precisaria de um tratamento mais sutil e menos idealizado para ser palatável. Mas tudo no filme é apresentado como numa explicação para crianças angelicais. Acaba morrendo na praia, encalhado como a baleia que se pretendia uma grande metáfora.