Choques culturais na província

O CIDADÃO ILUSTRE é um desses roteiros tão inteligentes que conseguem nos colocar nos dois lados de um conflito e nos indagar o que faríamos no lugar de diversos personagens. De um lado está o escritor argentino Daniel Mantovani, detentor de um Prêmio Nobel, solteirão arrogante que acreditou escapar da mediocridade através da fama e de uma vida confortável na Europa. De outro está a sua pequena cidade natal, Salas, que o convida para uma homenagem.

Ele aceita como uma concessão generosa depois de 40 anos fora de lá. Pensa que pode conciliar, por breves três dias, o seu refinamento e desdém por tudo (até pelo Nobel) com o provincianismo de Salas, que alimentou toda a sua obra literária. A prova, porém, vai ser dura, na medida em que ele se confronta com a bajulação, a cafonice, o conservadorismo e a brutalidade do lugar. E ainda com as expectativas e ressentimentos de uma cidade que usou como matéria-prima de seus romances de crítica à província. O fato é que a distância cultural entre a origem e o destino do escritor não pode ser apagada, a não ser que ele se desfaça de sua acidez crítica e entre no jogo da mediocridade e do sistema de poder vigente em Salas.

Mas as coisas ficam ainda mais interessantes quando Daniel se envolve com uma menina e deixa patente que a diferença entre ele e um cacique rural pode ser questão apenas de dissimulação e oportunidade. No fundo do seu enfado reside uma empáfia, o clichê do artista ególatra e porta-voz da insatisfação com o mundo.

Essa parábola sobre inspiração, criação e repercussão literárias reafirma a qualidade do cinema argentino em muito mais quesitos que o roteiro fenomenal de Andrés Duprat. A direção de Gastón Duprat e Mariano Cohn (“O Homem ao Lado”) é de uma perspicácia absoluta na descrição do comportamento do escritor, na pintura da cidade provinciana e dos tipos que a habitam. O esplêndido Oscar Martínez lidera um elenco simplesmente perfeito através de situações ao mesmo tempo hilariantes e reveladoras de um abismo cultural intransponível. A saga do nosso cidadão ilustre ainda encerra uma pequena charada sobre a distinção entre realidade e ficção. Um grande, enorme filme.

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