Extremos do mundo

Sobre O DESERTO DO DESERTO e O REINO DA BELEZA, fimes antípodas em muitos sentidos

Depois de uma temporada de programas de viagens exóticas no Canal Brasil, Samir Abujamra apresenta um longa documental sobre o povo saarauí, que há 40 anos vive situação aflitiva no Saara Ocidental. O DESERTO DO DESERTO (em cartaz no Cine Odeon, talvez só até hoje) viaja ao coração do drama, a ponto de a própria equipe ser “premiada” com uma quase-tragédia. Samir, o codiretor chileno Tito Gonzalez Garcia e equipe atravessaram o chamado Território Livre Saarauí escoltados pelo exército de uma nação não reconhecida pela ONU – nem pelo Brasil.

A República Árabe Saarauí se compõe de grupos nômades, campos de refugiados e soldados em luta contra o Marrocos, que ocupou aquela parte do Saara depois da retirada dos colonizadores espanhóis. Esse passado explica por que tantos saarauís falam espanhol e curtem música latina. Em seu périplo pelas areias do deserto, o filme colhe depoimentos cheios de dor e confiança nos poderes do martírio. Registra também atos do parco cotidiano local, entre camelos, caminhões-pipa, crianças cantando o “Saara Livre”, um muro marroquino que separa famílias por décadas e carcaças de tanques, veículos e animais espalhadas por campos minados.

O documentário se ressente de uma estrutura irregular e uma certa confusão no repasse de informações, fruto certamente da produção “de guerrilha”. O almejado encontro com o mar, ao fim da viagem, não se concretiza visualmente e nem se oferece explicação para isso. Fica, porém, o valor de uma rara incursão a territórios inatingíveis por estrangeiros e questões que parecem fora das grandes pautas mundiais.



Num dado momento de O REINO DA BELEZA, a esposa do arquiteto assiste na TV a um noticiário de conflito sangrento em país árabe e pergunta a si mesma e ao marido: “Nós somos reais?”. Trata-se do início de um síndrome do pânico, mas a indagação reverbera para muito além disso. Até que ponto são reais aquelas pessoas da alta classe canadense circulando entre paisagens “de folhinha”, morando em casas maravilhosas, praticando esportes de luxo e trabalhando em empregos charmosos? Todos são absolutamente cool seja diante do adultério, seja da doença mental ou da morte.

Esse filme de Denys Arcand (As Invasões Bárbaras, Jesus de Montreal, O Declínio do Império Americano) volta a lidar com a sociedade afluente do Canadá, onde escolher entre o golfe e a caça ao ganso pode ser o maior problema da semana. Dentro desse cenário belo e frequentemente gelado, ele costuma colocar dilemas éticos e culturais graves. Mas nesse seu último longa, as questões se esvaem como vinho branco na neve, praticamente sem deixar marcas.

Luc, o arquiteto, é casado com a loura e tem um affair com a morena. Convencido de que a felicidade depende de uma química do cérebro, ele não se deixa abalar por nada. Arcand faz o mesmo: esbanja beleza nas imagens e gélida elegância no estilo enquanto o espectador se pergunta: “Esse filme é real?”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s