Contos do subúrbio americano

Sobre SUBURBICON, RODA GIGANTE e PATTI CAKE$

Ao contrário da maioria dos meus colegas críticos, daqui e de fora, gostei da direção de George Clooney em SUBURBICON – BEM-VINDOS AO PARAÍSO. Desde os créditos de abertura, emulando propagandas imobiliárias da década de 1950, o filme se instala no campo da caricatura. Convém lembrar que a boa caricatura exagera alguns traços não para causar risos, mas para melhor revelar a essência de alguém ou alguma coisa. Com esse projeto de época, Clooney pretende claramente comentar sobre o estado atual de racismo e hipocrisia da América “branca”, “grande” e “familiar” modelo Trump.

Uma família all american entra em parafuso a partir do dia em que tem a casa suburbana invadida por dois homens. O roteiro original dos Irmãos Coen, escrito nos anos 1980 e agora incrementado por Clooney, tem a dose habitual de ironia com os costumes, gosto de sangue e surpresas saborosamente administradas à plateia. O fato de toda a trama girar em função do olhar e do conhecimento do menino alimenta uma expectativa trágica muito eficiente. Outra distinção do roteiro é o lugar ocupado pela família de afro-americanos que se muda para a vizinhança, despertando a fúria dos suprematistas brancos. Mais conceitual que propriamente dramático, esse ingrediente funciona como catalisador dos horrores escondidos detrás do sonho americano.

Na direção, Clooney pode não ter a exatidão de um Hitchcock nem a sofisticação de um Billy Wilder, mas apresenta um ótimo senso de suspense gótico e de tipologia humana. SUBURBICON carrega genes não só dos Coen, mas também de “Um Corpo que Cai”, “Pacto de Sangue” e outros clássicos do gênero, inclusive na trilha sonora às vezes bernard-hermanniana de Alexandre Desplat. A filmografia de Clooney diretor talvez espelhe um desejo de diversidade maior que um compromisso com a qualidade. Mas SUBURBICON, para mim, é seu melhor trabalho desde “Boa Noite e Boa Sorte”.



Em sua admiração pela cultura dos séculos XIX e XX, Woody Allen já procurou se avizinhar de Bergman, Fellini, Tchekhov, Tolstói, Shakespeare e outros grandes mestres. De alguma maneira, ele sempre o fez sem deixar de ser Woody Allen. Em RODA GIGANTE, pela primeira vez, Woody se afasta de si mesmo o mais que pode. E o resultado é um de seus filmes mais insatisfatórios.

A proximidade com o teatro de Eugene O’Neill, citado abusivamente nesse novo filme, e Tennessee Williams também tem sido uma busca frequente em sua carreira. Vestígios de “Um Bonde Chamado Desejo” e “Longa Jornada Noite Adentro” emergem do fundo desse melodrama passado na colorida e suburbana Coney Island dos anos 1950. Kate Winslet superatua como a esposa infeliz, uma verdadeira bomba de culpa e carência que vê seu amante estar a ponto de ser roubado pela enteada. Uma dívida para com a máfia agrega outro tipo de perigo a pairar até a penúltima sequência.

Em poucos momentos de sua longa filmografia o diretor foi tão cinematograficamente flácido na apresentação de seus personagens e no encaminhamento da trama. O salva-vidas e candidato a escritor (Justin Timberlake) flutua confusamente entre narrador e personagem, sem jamais fixar-se como o costumeiro alterego de Woody. Diálogos longos e estáticos se sucedem sem a graça habitual do autor – e não falo aqui de humor, mas da mescla de leveza e elegância que costumamos encontrar em seus filmes, mesmo fora da comédia. A intensidade teatral almejada só vai se instalar na meia-hora final, quando a “fraqueza trágica” de um dos personagens determina o desfecho melancólico.

Enxerguei um certo cansaço – diria mesmo uma ausência – de Woody tanto no engendramento quanto na confecção de RODA GIGANTE. Não há nada ali que ele já não tenha feito muito melhor, e nada de novo se introduz. Mesmo a elogiada fotografia de Vittorio Storaro me pareceu carregar a mão nas tonalidades de almanaque e na incidência das luzes do parque de diversões sobre o clima das cenas íntimas. Quanto ao forte contraste que deixa estranhas áreas de escuridão, não posso afirmar se provém do original ou é resultado da projeção no cinema.



Assim como “Suburbicon”, PATTI CAKE$ também não emplacou nos EUA. Por aqui, não resistiu após a segunda semana em cartaz. Merecia um pouco mais que sua modesta recepção. O primeiro longa de Geremy Jasper, produzido por Chris Columbus e o onipresente brasileiro Rodrigo Teixeira, é daqueles indies simpáticos que complementam o curto orçamento com muita inventividade. Passa um retrato nada elogioso de New Jersey, terra do diretor, povoada por gente pobre, racista e impiedosa.

A personagem-título tem tudo para não vencer no mundinho dos rappers locais: é mulher, branca e gorda. Espezinhada pela molecada, que a chama de “Dumbo”, e até pela mãe white trash, cantora decadente de música “branca”, Patti, aliás Killa P. tem a seu favor um fairplay de Polyana e uma capacidade fulminante     de resposta poética. Entre esperanças e decepções, entre trabalhos ordinários e a busca de oportunidades, ela tenta uma carona desajeitada no sonho do sucesso.

Quase tudo no filme cai sobre os ombros fofos da australiana Danielle Macdonald, que confere uma profunda autenticidade ao papel, mesmo nos momentos de divertida tolice. Ela e seus parceiros multiétnicos – um indiano e um afro-americano – dão conta com muita garra de tocar e cantar os raps espalhados por todo o filme. Geremy Jasper trabalha num registro ágil, que transita com naturalidade entre o ritmo musical dos clipes, a comédia e o melodrama. A imagem ligeiramente suja, o aspecto de cinema amador (no melhor sentido da palavra) e a energia que provém da montagem enchem a tela de vida.

Vale mencionar a excelência da tradução das legendas, que encontrou rimas, gírias e falares condizentes com o colorido linguajar do original.

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