O nascimento de uma noção

Em época de pós-democracia e ressurgência conservadora como a atual, chega a ser uma afronta realizar um filme como O JOVEM KARL MARX. Foi o que fez Raoul Peck, ativista político, ex-Ministro da Cultura do Haiti, presidente da célebre escola francesa de cinema La Fémis e autor de perfis de grandes esquerdistas como “Lumumba” e James Baldwyn (“Eu Não Sou seu Negro”). Essa cinebiografia do jovem Marx, bem antes de ele se transformar no gênio de “O Capital”, não tem papas na língua ao colocar a ideologia comunista frente a frente com a lógica selvagem do capitalismo.

A ação transcorre entre 1843, quando foi fechado o jornal Reinische Zeitung, editado por Marx em Colônia (Alemanha), e o brainstorm com Friedrich Engels para redação do Manifesto Comunista, em 1848. Cinco anos fundamentais para que Marx passasse da sombra à plena evidência como o homem devotado a fornecer uma base teórica sólida para os movimentos de trabalhadores que eclodiam desde a Revolução Industrial. Marx não se contentava com o aventureirismo revolucionário, nem com o reformismo utópico do reverenciado Proudhon, e menos ainda com a proposta de fraternidade universal encampada por muitos líderes da esquerda de então.

Era um período de vida difícil para o pobretão Marx (August Diehl) e sua inspiradora esposa Jenny (Vicky Krieps). O surgimento da amizade com Engels (Stefan Konarske) vai lhe prover não somente um parceiro fundamental, com sua pesquisa das condições do proletariado inglês, mas também uma ajuda financeira providencial nos momentos de penúria. É mesmo possível deduzir que, embora Marx seja o personagem-título e o mentor intelectual do salto adiante, o herói do filme é antes Engels. Este é que enfrentou o pai industrial, assumiu o romance com uma proletária e proclamou, numa cena decisiva, a substituição do modelo fraternalista pelo novo paradigma da luta de classes.

Mesmo valendo-se de um cânone narrativo tradicional, Raoul Peck e o corroteirista Pascal Bonitzer encontram um perfeito equilíbrio entre a descrição de um modo de vida e a discussão de ideias. Não sobrecarregam o espectador de contendas teóricas, mas incorporam as linhas básicas do primeiro pensamento marxista, que contestava o dinheiro como definição do valor das pessoas e criticava a sociedade burguesa a partir de suas relações de produção.

Desde as cenas iniciais, que ilustram a reivindicação violenta da propriedade, até a leitura final do Manifesto Comunista, escrito para um partido que ainda não existia, O JOVEM KARL MARX constrói uma exposição engenhosa, dinâmica e nunca didática ou solene. Quem dera Raoul Peck atingisse seu objetivo de tocar os jovens de hoje com uma faísca de inquietação e inconformismo. Em horas de egoísmo neoliberal exacerbado é que precisamos voltar às fontes das ideias de justiça.

Aqui vai uma boa entrevista com Peck, traduzida do jornal L’Humanité.

E para quem não puder ver o filme no cinema, fica o link para a versão completa e legendada no Youtube.

2 comentários sobre “O nascimento de uma noção

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s