Vida (dura) de ator

As primeiras imagens nos trazem à mente “Jogo de Cena”, de Eduardo Coutinho. Mas o documentário COMO VOCÊ ME VÊ? logo se afasta dessa impressão em troca de uma sucessão de depoimentos diretos de atores e atrizes brasileiros a respeito do seu ofício. A atuação fica por conta de Julio Adrião, que lê a fala inicial e mais tarde interpreta trechos de seu espetáculo solo “A Descoberta das Américas”.

Pensando melhor, posso dizer que a atuação está presente em quase todo o filme pela forma como cada ator ou atriz encena a si mesmo diante da câmera. Uns se mostram mais emocionados, outros mais descontraídos, outros ainda se empenham em soar inteligentes ou despretensiosos. Se é difícil para qualquer pessoa não encenar-se perante uma câmera, para o ator isso é especialmente irreprimível, mesmo quando estão, como aqui, pretensamente “fora de cena”.

Nessa toada, é natural que as falas guardem uma certa irregularidade. Até porque a opção do diretor Felipe Bond foi abarcar um leque bastante variado de profissionais. Estrelas como Casia Kis, Matheus Nachtergaele, Stenio Garcia, Zé Celso e Amir Haddad revezam-se com nomes menos conhecidos, entre eles muitos jovens que trabalham basicamente em teatro. O que às vezes falta em experiência e carisma de entrevistado sobra como exemplos da diversidade existente dentro da profissão.

Há o ator que se vira como taxista, a atriz que batalha como diarista e garçonete, e até o veterano e consagrado Tonico Pereira apresentando seu quiosque de venda de roupas num mercadinho de Botafogo. A difícil sobrevivência financeira do ator fora das grandes mídias, junto a questões de editais e patrocínios, ocupa um tempo grande do documentário, chegando a registrar uma redundância que poderia ter sido podada na edição. Entre os outros temas discutidos estão a visão do trabalho como um produto vendável, a relação com a fama e o glamour, o sistema industrial da TV e a plenitude do teatro.

Nem todas as considerações escapam ao já muito conhecido, mas não faltam reflexões interessantes e mesmo sofisticadas sobre a maneira como os atores veem a si e o seu mister. Nachtergaele, Osmar Prado, Silvio Guindane, Luciano Vidigal, Rodrigo Pandolfo e Patrick Sampaio são alguns do que se destacam com suas participações. Apesar do volume de informações e impressões do elenco sobre as suas condições de vida e trabalho, é inevitável que o filme decole mais lindamente quando o assunto transcende esse patamar, tocando no inefável da interpretação.

O título, até onde percebi, é uma pergunta apenas colocada à margem para o espectador.

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