“Cura” gay na África

Um dos pré-indicados ao Oscar de filme estrangeiro, OS INICIADOS retrata um ritual de passagem da etnia Xhosa, da África do Sul. Uma vez por ano, jovens são enviados às montanhas para serem circuncisados e passarem por várias provas dolorosas a fim de alcançarem o status de homens de verdade. Com base no romance “A Man Who Is not a Man”, de Thando Mgqolozana, o diretor John Trengove estreia com um tema explosivo numa área do país que se orgulha de suas tradições másculas e guerreiras. Além de revelar detalhes (não muitos) do ulwaluku, um costume secreto – o que atraiu a crítica dos líderes tribais –, o filme se concentra em dois personagens homossexuais.

O iniciando Kwanda, garoto rico de Joanesburgo, é enviado pelo pai com o propósito de “curá-lo” do seu “excesso de sensibilidade”. Seu “cuidador” durante o processo ocorre de ser Xolani (o cantor gay Nakhane Touré), um operário solitário que esconde sua paixão por um amigo de infância. O que se segue é um jogo tenso de dissimulações, encontros furtivos, bullying, rivalidade e submissão.

Exceto Kwanda à sua maneira, ninguém contesta abertamente a permanência de um ritual tão bárbaro, pelo menos aos nossos olhos. O bispo Desmond Tutu, por exemplo, limitou-se a pedir mais perícia dos cirurgiões encarregados da circuncisão, uma vez que centenas de jovens têm morrido por complicações resultantes. O filme mostra um quadro de aceitação entusiasmada pelos heterossexuais e sujeição resignada pelos gays. O choque entre tradição e modernidade é mantido em banho-maria até o desfecho impactante.

Trengove obtém ótimas atuações do elenco principal e uma sensação de permanente inquietação mediante o uso da tela panorâmica e da câmera na mão. O tema é forte e já despertou comparações com “Moonlight”. Mas o que tem mais atraído a atenção internacional talvez seja a ousadia de tratar de homossexualidade em contexto tão austero e remoto, além de um certo exotismo que o filme veicula.

OS INICIADOS é uma boa e rara oportunidade de ouvir o sotaque xhosa, com seus característicos estalos da língua. Vale também para despertar a curiosidade pela voz sedosa de Nakhane Touré em seus clipes no Youtube.

P.S. Se me refiro a Nakhane Touré como “cantor gay” é porque esta é a temática da sua música.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s