por Paulo Lima
O documentário Túmulo de Gelo (Ice Grave) traz a história de três suecos que em 1897 ousaram se aventurar numa viagem rumo ao Polo Norte num balão de hidrogênio.
A expedição de Salomon August Andrée, fotógrafo de 42 anos, Nils Strindberg, físico e astrônomo de 24 anos, e Gustaf Ekholm, engenheiro de 48 anos, tem ares de um romance do tipo Cinco Semanas num Balão, de Júlio Verne.
É assim, como uma eletrizante narrativa romanesca, que assistimos ao filme do diretor francês Robin Hunzinger. Só que, enquanto o balão de Verne cruzou o continente africano com sucesso, o sonho do Polo Norte de Andrée, Strindberg e Ekholm se transformou num pesadelo.
Após o adiamento da partida em 1896, ocasionada pelo mau tempo, o trio levantou voo só um ano depois, a partir de uma base norueguesa no Oceano Ártico. Devido a divergências técnicas, Gustaf Ekholm acabou sendo substituído por Knut Frankael, engenheiro de 27 anos.
O sobrevoo do continente gelado durou apenas três dias. O mistério do desaparecimento dos exploradores se manteve durante 30 anos, até que seus corpos foram descobertos em 1930.
Robin Hunzinger monta o documentário com base nas fotografias e nos diários com os registros que Strindberg e Andrée fizeram durante o período de 88 dias em que os três exploradores vagaram pelo continente gelado, buscando sobreviver. O filme conta ainda com a narração do ator François Gillerot. Hunzinger se vale também dos depoimentos de pesquisadores que estudam a história da expedição, procurando, através dela, entender as mudanças climáticas e assuntos médicos.
O documentário ganha um emocionante tempero romântico ao apresentar em paralelo o drama amoroso de Nils Strindberg com sua noiva Anna Charlier. Tempos depois do desaparecimento de Strindberg, Anna mudou-se para a Inglaterra, onde casou-se com um cidadão britânico, mas seu amor por Strindberg permaneceu vivo.
Consta que ao morrer, em 1949, Anna teve seu corpo enterrado sem o coração. Supõe-se que o órgão teria sido extraído e cremado por seu marido britânico, e suas cinzas remetidas numa urna para jazer ao lado dos restos mortais de Nils Strindberg. Puro Shakespeare. Uma pesquisa no Google revela que a história de Anna Charlier se transformou em filme e romance.
O recurso às fotografias e à exibição de trechos dos diários de Nils Strindberg e de Salomon August Andrée dá a sensação de um acompanhamento em tempo real da tragédia que vitimou o trio. Soma-se à narrativa uma banda sonora assinada por Marc Namblard, que contribui para o clima de estranheza e suspense do filme.
Uma passagem do diário de Andrée captura seu temor e encantamento diante da proeza exploratória: “Que estranho sobrevoar o Oceano Ártico assim. Ser o primeiro a sobrevoar esses trechos inexplorados.” Outra passagem exibe sua consciência de que estava dando um passo pioneiro, audacioso: “Quanto tempo levará até que alguém nos imite? Seremos vistos como loucos? Outros seguirão nossos exemplos?”
Ontem o homem se lançava num balão rumo ao Polo Norte. Hoje, embarca num foguete rumo à lua. A tecnologia mudou, mas não o ímpeto de se aventurar rumo ao desconhecido.
Paulo Lima




