O estrangeiro

O RISO E A FACA

A primeira sequência de O Riso e a Faca me remeteu à de O Agente Secreto: o protagonista chega de carro a uma barreira de estrada remota, e um guarda lhe pede um pequeno suborno. Mas, em lugar de cigarros, ele pede um livro. Está lançada a primeira semente do que Pedro Pinho vai desenvolver como uma crítica ao neocolonialismo, apontada para os dois lados.

Sérgio (Sérgio Coragem) vem de Portugal para concluir um relatório sobre impacto ambiental em aldeias da Guiné-Bissau, a serviço de uma ONG. Em suas interações com a população local, na fronteira entre a encenação e a improvisação documental, pensei em Iracema, uma Transa Amazônica, em que o Tião de Paulo César Pereio instigava habitantes da Amazônia a denunciar as mazelas da exploração da floresta e da descaracterização cultural.

Mas, à medida que o filme avançava, fui vendo que tudo era muito diferente. Sérgio é apenas um forasteiro perdidão, acossado pela solidão em terra estranha, que tenta se enturmar desajeitadamente com grupos heterogêneos. A amizade com o travesti Guilherme (Jonathan Guilherme), brasileiro em busca de raízes africanas, e com a fogosa dona de bar Dária (Cleo Dária, melhor atriz na mostra Um Certo Olhar de Cannes) o arrasta para baladas hedonistas e aventuras sexuais diversificadas. Com os funcionários da empresa que pretende construir uma estrada potencialmente prejudicial para os agricultores, ele é incapaz de vocalizar qualquer posicionamento. Tampouco transmite o receio adequado para alguém que vem substituir um engenheiro que pode ter sido assassinado.

Os coadjuvantes são o sal do filme. Especialmente em três momentos, Pedro Pinho usa sua extraordinária capacidade de criar diálogos espontâneos para fazer a crítica frontal do projeto neocolonial. Diante de um Sérgio apático, uma prostituta o questiona sobre seu suposto interesse de “homem de bem” pela vida da antiga colônia. Do rico e articulado Horácio (interpretado pelo multiartista angolano Nástio Mosquito) Sérgio ouve uma caudalosa preleção em defesa do papel das elites no avanço da civilização. Mais à frente, em conversa com Dária, ele é censurado por ter recusado uma oferta de suborno. Para ela, isso era um sinal de poder (econômico) que os pobres não teriam.

Emerge de tantas conversações um panorama complexo das relações de raça, classe, colonialismo e ambientalismo. O projeto da estrada, por exemplo, divide a comunidade entre os que o rejeitam e os que veem nele benefícios.

Em boa parte do tempo, Sérgio é um papagaio de pirata em cenas que descortinam a realidade rural da Guiné-Bissau. Ele eventualmente interroga algumas pessoas, dando margem a uma curiosidade etnográfica que provém dos realizadores. A equipe basicamente portuguesa conta com o diretor de fotografia brasileiro Ivo Lopes Araújo, a comontadora Karen Akerman e a coprodutora Tati Leite.

Sérgio parece um personagem intencionalmente amorfo, que está ali como pretexto para um retrato muito vivo, isto sim, dos fazeres, falares e cantares dos guineenses. A narratividade do eixo central – o trabalho de Sérgio e seu relatório – é frouxo o bastante para que todo o resto ganhe proeminência. Ficamos então imersos na paisagem física e cultural de várias classes, da nata intelectual ao pessoal da viração, de expatriados desencantados aos aldeões de vida mais rudimentar.

É intrigante a maneira como Pedro Pinho estrutura o filme com uma liberdade notável, mesclando o que parecem ser questões reais da comunidade e vivências verídicas de alguns atores com a mise-en-scène ficcional. A fotografia em película (35 e 16mm) dá conta primorosamente de captar as nuances de uma improvisação controlada.

Esse estilo de direção já havia sido celebrado no impagável A Fábrica de Nada. Agora, em O Riso e a Faca, nem tudo se estabelece com a mesma organicidade. Há inconsistências narrativas e cenas que se alongam demais, tornando o filme excessivamente longo, com mais de três horas e meia. Consta que a chamada versão integral tem mais de cinco horas. Mas, para quem se dispuser à maratona, há uma viagem feérica ao coração de uma certa África.

>> O Riso e a Faca está nos cinemas.

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