Um ex-morto vai à forra nos fascistas

A FÚRIA

Em Os Fuzis (1964), Mário era um dos soldados destacados para impedir que a população faminta de uma cidade sertaneja saqueasse um depósito de alimentos. Em A Queda (1978), Mário havia abandonado a farda, trabalhava como operário da construção civil e lutava por justiça após a morte de um operário em acidente de trabalho. Em A Fúria, Ruy Guerra já não contava mais com Nelson Xavier, intérprete de Mário nos dois filmes anteriores e codiretor de A Queda. Ricardo Blat assume o papel num filme que mescla fantasmagoria com teatro político.

Executado no pau de arara da ditadura, Mário retorna do mundo dos mortos para se vingar de seus algozes. É assim que voltam à cena o empreiteiro Salatiel (Lima Duarte), sogro de Mário, e o ex-soldado Pedro (Paulo César Pereio). Eles se juntam a outros atores veteranos e a caras mais novas numa sátira ácida às vicissitudes da esquerda no enfrentamento de um governo de extrema-direita.

A Fúria foi concebido e começou a ser filmado durante o governo Bolsonaro. Daí que esse Mário ressuscitado vá encontrar um país que mais parece um inferno cênico, com motociatas, falsos atentados, generais no poder e pastores engajados no fascismo. O deputado Feijó (Daniel Filho), ex-comunista convertido à direita, disputa a presidência da Câmara com uma deputada progressista, Petra (Grace Passô), que remete vagamente a Marielle Franco. Feijó é financiado pelo riquíssimo Salatiel em troca de travar uma CPI da devastação de terras indígenas.

Não há meias palavras no discurso de Ruy Guerra. As relações espúrias são expostas da forma mais explícita possível, até óbvia mesmo, em tons sardônicos, no limite do burlesco. A encenação é francamente expressionista. As linhas do quadro privilegiam as diagonais, os espaços são distorcidos e redesenhados pelo claro-escuro da fotografia de Luís Abramo Campos. Os atores se movem entre projeções de video-mapping, que ora fazem o fundo das cenas, ora cobrem os seus corpos.

As interpretações enfáticas dos vilões contrastam com a postura mais sóbria dos personagens positivos, como Mário e sua ex-mulher Laura (Simone Spoladore ocupando o lugar de Isabel Ribeiro de A Queda). Antonio Pedro, numa ponta como velho militante, toca nas cordas da verdadeira emoção em sua grande cena. Já o abominável Salatiel transpira crueldade a ponto de ter sangue como seu suco predileto.

Curtos trechos de Os Fuzis e A Queda emergem como flashbacks dos personagens. A estrutura geral em esquetes abre espaço para os atores estarem sempre a um passo da performance, adotada de corpo e alma pelo travesti Monalisa, papel de Lux Nêgre. Monalisa e o indígena Urutau (Urutau Guajajara) incorporam a representação de grupos que ainda não tinham aparecido nos primeiros tomos da trilogia.

Dividindo a direção com sua ex-mulher Luciana Mazzotti, Ruy Guerra fez, afinal, um filme furioso na evocação de uma geração massacrada pela ditadura que vê seus piores pesadelos voltarem a assombrar o presente. Uma santa fúria apontada como uma flecha para o pescoço dos fascistas.

>> A Fúria está nos cinemas.

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