Baião, que bom tu sois

Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga

Ao contrário de muita gente boa, eu não gostei de Cartola – Música para os Olhos, o doc com que Lírio Ferreira e Hilton Lacerda quase afogaram o sambista num mar de referências estapafúrdias (leia minha resenha). Se os dois pernambucanos não acertaram o compasso do samba, a afinidade de Lírio com o baião rende agora um filmaço com O Homem que Engarrafava Nuvens (conheça o blog do filme). Toda a invenção, o cruzamento de alusões e eixos narrativos, que em Cartola pareciam pretensiosos, aqui se justificam plenamente e formam uma unidade coesa.      

Humberto Teixeira era um homem brilhante e conservador, co-responsável (com Luiz Gonzaga) por impor o baião como uma das matrizes da música popular brasileira, aqui e no exterior. Com roteiro e edição primorosos, o filme costura as dimensões humana e artística do personagem sem jamais perder a graça e o ritmo. Pontua os elos entre o baião e manifestações tão diversas da MPB quanto os cegos cantadores, o Tropicalismo, Raul Seixas, o pop pernambucano e até, quem sabe, o reggae. Não dá pra sair do filme sem uma ponta de orgulho por tanta musicalidade.  

Talvez fosse interessante ressaltar melhor o aspecto mais marcante da contribuição de Humberto Teixeira, que foram as letras. O foco acaba mesmo na música, perigando reforçar a desigualdade do peso em relação a seu parceiro estelar (Leia update sobre o assunto). Há quem reclame da “lavagem de roupa suja” de Denise Dumont (filha de Humberto, produtora e co-roteirista do filme), mas isso me pareceu completamente orgânico pela forma como o doc se organiza desde a sequência inicial.  

No fim das contas, temos um perfil criativo, às vezes empolgante, de um grande artista que soube combinar como poucos o erudito e o popular. Eu poderia tecer loas à fotografia de Walter Carvalho e às deslumbrantes imagens de arquivo garimpadas por Antonio Venancio, mas prefiro fazer outra coisa: deixar vocês com o texto que Felipe Messina escreveu para o DocBlog em 2008, muito mais inspirado do que o meu.    

… e com elas pintava as cores de suas asas…  

Felipe Messina

O Homem Que Engarrafava Nuvens não deixa de ser um título de literatura de cordel. Tem cheiro de licença poética que, aliás, fica demarcada desde o principio neste filme de Lírio Ferreira. Dentre as tantas referências utilizadas pelo diretor, as tradições nordestinas da cultura popular são elemento fundamental neste trabalho. É bom que se diga: popular e rica. Estas referências remetem ao universo do personagem Humberto Teixeira, advogado, poeta, compositor e um dos maiores criadores e defensores do baião. Pode não ter inventado o ritmo mas o baião nunca mais foi o mesmo depois dele. E não apenas o baião.  

Humberto é mais próximo ao brasileiro do que se pode imaginar. Quem nunca cantarolou a melodia de Asa Branca? Se os versos são íntimos, a figura do dono do texto é muito pouco conhecida. Assim Teixeira caminha no filme: um personagem cujas palavras estão sempre presentes mas o semblante é quase invisível. Seu trabalho talvez seja mais atribuído ao parceiro Luiz Gonzaga, com quem dividiu a batalha de gravar o primeiro disco de baião da história. Juntos entoaram um sem número de canções e colocaram o baião como uma das principais bases da cultura brasileira. Assim entendemos um pouco melhor a presença da sanfona e do chapéu de couro. O filme de Lírio Ferreira, mesmo fazendo questão de apontar imprecisões, carrega a voz de vários personagens que vão colocar o baião ao lado do samba como um dos pilares fundamentais de nossa tradição musical. É o berço da música que ganha o mundo a cada dia e se faz universal.  

Há de se frisar o detalhe de que Lírio não vem mesmo só, como de costume. Este documentário é também projeto de Denise Dumont, filha de Humberto. Ela assina a produção. Desde o primeiro plano, este elo familiar fica demarcado quando Denise apresenta sua origem e diz, talvez rapidamente, que o filme é também a caminhada de uma filha na tentativa de conhecer melhor o pai. Este pilar confere ao percurso uma base distinta porque pessoal e intransferível. Mesmo que tentem, podem até questionar o documentário mas nele há um terreno em que só ela consegue entrar. Pertence a Denise e a mais ninguém. Mas este ingrediente não é o único e nem dele se sente o sabor o tempo todo. Não é apenas uma louvação pois o personagem aparece com sua altitude mas também com suas ranhuras.  

Para além da filha, Lírio vem bem acompanhado de outros companheiros de cinema. Se há “o homem engarrafava nuvens”, há também o homem que encaixota a luz. Walter Carvalho dirige a fotografia e movimenta sua câmera com a capacidade de buscar o detalhe, dar ritmo à dança e sair da cena na hora em que a ação necessita de respiro ou demanda uma intimidade que não deve ser filmada.  

A bela e burilada montagem é assinada por Mair Tavares e Daniel Garcia. Está aqui um dos principais detalhes deste documentário. Mair também acompanhou Lírio em Cartola – Música Para os Olhos. Entender a edição de O Homem Que Engarrafava Nuvens é perceber que esse trabalho não começou aqui. Vem de antes a tentativa de se praticar um certo tipo de montagem, de se buscar um filme fluido e bem concatenado. Pode-se afirmar que um estilo próprio de organizar o pensamento foi perseguido e aqui acontece bem neste filme que quase beira a um texto de versos. O documentário é composto de inúmeros fragmentos mas muito bem costurados, cheio de referências cinematográficas e bom trabalho de pesquisa. O áudio por vezes é unha e carne da imagem mas em outros momentos não lhe diz tanto respeito. Acontece então uma fartura de informação e cada um pode escolher qual caminho seguir. Pode-se simplesmente respirar o quadro enquanto se escutam as palavras. São as pegadas de liberdade que Mair já experimentou em outros tempos, como em A Lira do Delirio (1978) de Walter Lima Jr. Aliadas ao bom roteiro de Lírio, frutificam num resultado notável que confere independência às mais variadas cenas mas que, perfiladas, narram a boa história.  

Para além disso tudo há um imenso e forte fio condutor. O ingrediente principal não está no personagem ou na capacidade dos que neste filme trabalharam. O pernambucano Lírio já dirigiu bem antes. O paraibano Walter já fotografou de maneira exímia. O cearense Mair tem extenso currículo. Os baianos, alagoanos, italianos, portugueses, africanos e até mesmo americanos já apareceram cantando muito bem em outros dias. Sua aproximação está no sentimento que todos eles tiveram e que Humberto soube transmitir com maestria e simplicidade. É esse gosto da saudade que arde o peito; é este sonho do mundo sem fronteiras; é esta lembrança dos tempos da infância perdida; é esta falta da família distante; é essa coragem de enfrentar novas terras e suas grandes cidades; é essa ausência dos dias que nunca serão vividos; é esta dor que por mais triste que seja pode ser cantada belamente. E ali são todos eles iguais.  

Felipe Messina  

 

5 comentários sobre “Baião, que bom tu sois

  1. Pingback: Elogio de João Silva | ...rastros de carmattos

  2. Pingback: Danado de Bom | ...rastros de carmattos

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  4. Gostei muito, revivi o que escutava no rádio quando era bem molequinho na primeira metade dos anos 1950. Verdadeiras “madeleines” proustianas. Inclusive o “Baião de Ana” do filme “Anna” do Lattuada com a Silvana Mangano cujas coxas só foram me torturar tempos depois; e cujo belo rosto angustiado em “Teorema” ou “Édipo Rei” do Pasolini ou em “A Feticeira queimada viva” (episódio de Visconti no coletivo “As bruxas”), mais tempo depois ainda…

    • Vá me dizer que você não se incendiava com as coxas da Teda Bara na sua primeira e distante juventude?

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