O cinema natural de Heddy Honigmann

O nome da cineasta holandesa Heddy Honigmann não sugere qualquer ligação  com o mundo latino. Mas Heddy nasceu no Peru e volta e meia filma na América do Sul. Seu mais recente documentário, exibido no É Tudo Verdade/2009, foi El Olvido, uma tocante galeria de gente humilde da sua cidade natal, Lima (ele pode ser visto aqui, falado em espanhol com legendas em holandês).

A Videofilmes está lançando um DVD com dois outros docs latinos de Heddy Honigmann: Metal e Melancolia e O Amor Natural. São duas amostras da incrível capacidade da diretora de se acercar de pessoas comuns para extrair emoções e entusiasmos com a maior simplicidade e delicadeza.

Em 1992, Heddy visitou uma Lima em estado quase falimentar após o desastroso primeiro mandato do presidente Alan García. Metal e Melancolia (expressão poética muito querida no Peru) nos coloca para viajar em diversos táxis ilegais da cidade, dirigidos por funcionários públicos, professores e até um ator de filmes de Francisco Lombardi. Todos procuram complementar a renda conduzindo carros arruinados, alguns propositadamente detonados para se tornarem “irroubáveis”.

As conversas partem dos engenhosos expedientes para garantir a sobrevivência e chegam a instâncias mais privadas, como a esperança na cura de uma filha, a lembrança de um amor impossível ou a carinhosa relação “pessoal” de um taxista com seu velho carro. No caminho, cruzamos com pedintes e vendedores ambulantes que arrematam o quadro da cidade dura e melancólica.

Já em O Amor Natural (1996), instigada pela então recente tradução holandesa do livro de poemas eróticos de Carlos Drummond de Andrade, Heddy Honigmann desembarcou no Rio de Janeiro. Procurou pessoas da terceira idade, famosas ou não, que topassem ler um poema diante da câmera. Da mesma maneira habilidosa e “natural”, Heddy vale-se dos poemas como passaportes para a intimidade dos leitores. Alguns com a parcimônia do recato, outros com a malícia da oportunidade lúdica, esses senhores e senhoras falam de sua vida amorosa, recordam a plenitude sexual, confessam fantasias.

Os versos de Drummond têm uma função liberadora, fornecida não só pelo aval da literatura, mas também pela identificação com o poeta idoso (a produção erótica de Drummond só foi publicada após sua morte, aos 84 anos). Se bem que para a veneranda Dona Neuma da Mangueira soltar o verbo da mais pura sacanagem não precisava o álibi de nenhum poeta. É dela a sequência apoteótica, impudica e hilariante que fecha esse doc absolutamente encantador.                   

Veja abaixo um trecho de O Amor Natural

2 comentários sobre “O cinema natural de Heddy Honigmann

  1. Ótimo post, Carlos! Vi dois documentários de Heddy e adoro a abordagem dela nos temas que escolhe. Que legal que os filmes agora estarão disponíveis ao público brasileiro. 😉

  2. Vi esse DVD na Cultura de Recife. Não conhecia a diretora, mas vi que o DVD tinha o selo da Videofilmes, sinal de que o produto era bom, mas não comprei. Agora vejo o que perdi. Chuif…!

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