Menos silêncio, por favor

(Artigo publicado hoje no caderno Prosa e Verso de O Globo)

Tentei calar-me, mas fui vencido pela necessidade de dizer duas ou três coisas a propósito e a partir do artigo de Felipe Bragança no Prosa e Verso (O Globo) de sábado passado (leia aqui). É um texto articulado e vibrante, que faz um histórico do surgimento de um novo cinema e uma nova crítica no Brasil nos últimos dez anos, concluindo com a proposta de uma agenda de realização que contemple o “erro” e o “prazer do vazio”. Filmes como “monstros maravilhosos”, para resumir.

O artigo pede para ser lido como peça política de um movimento que se auto-intitula de “reinvenção do cinema brasileiro”. Outras peças do gênero têm se posicionado em mostras, revistas eletrônicas e sessões cineclubísticas. Isso configura um movimento de fato, embora nem todos os citados se sintam como parte de um.

Que há muitas novidades por aí, não resta a menor dúvida, mas é necessário não confundir manifestos com panegíricos. Nem toda busca leva a um encontro. Existem buscas que são belas em si, outras que apenas se acomodam no pretexto da busca para não dizer nada. O texto de Felipe, como de praxe nesse microuniverso, é recheado de afirmações mais ou menos peremptórias sobre o cinema supostamente mais adequado a este ou àquele momento. Para elevar os chamados (não por Felipe) novíssimos, é necessário rebaixar os que os antecedem. Assim é que os filmes de Walter Salles aparecem reduzidos a “um cinema-de-arte bem composto” e os de Fernando Meirelles, a “explotation (sic) do imaginário urbano”.

Quando cita O Céu de Suely (do qual foi corroteirista) como um dos marcos de influência dessa nova onda, Felipe parece desconsiderar o caminho aberto por Terra Estrangeira, de Walter Salles, para o florescimento de coisas como o maravilhoso filme de Karim Aïnouz. Prefere citar nomes mais afeitos a um perfume “de invenção” para constituir uma genealogia do seu próprio êxtase.

Esse tipo de ação política tem que ser visto com desconfiança. Que mais não seja, pela distância gigantesca entre a qualidade dos textos e a qualidade de grande parte dos filmes em que eles almejam se concretizar. É preciso desmontar o pacto de silêncio e levantar a redoma das meias-palavras a respeito do que se tem visto nas telas. Este é um texto bem pessoal, mas estou levando em conta também uma percepção do que ouço ao redor, muitas vezes em tom de cochicho para não ferir os amigos e admiradores.

Reconheço uma potência de enunciação e um desejo real de comunicação em certos realizadores e filmes pernambucanos. Os recentes longas da turma da Alumbramento (Ceará) trazem uma simpatia e uma busca estética a suprir parte do enorme vazio que ocupa o seu centro. Alguns mineiros têm seu charme e propõem radicalidades embasadas em talento plástico e escolhas bem definidas. Mas, afora isso, são poucos os filmes aptos a ultrapassar o filó de uma certa patota e a curiosidade prospectiva de alguns festivais internacionais.

Na Mostra de Tiradentes, frequentemente citada como “prova” de sucesso, afora os convidados, ver filmes na tenda é um programa gratuito e atraente para o público que aflui à cidade, sobretudo nos fins de semana. Mas, sem contar as comuns debandadas em meio à projeção, muita gente sai rindo dos filmes e fazendo comentários bem distantes do que os seus diretores gostariam de ouvir. Em muitos casos, eu dou razão a quem abandona a tenda muito antes do filme terminar, avassalados pelo tédio ou a perplexidade.

Por mais que me interesse pelo que vem sendo feito pela geração “novíssima”, não posso compactuar com a rede de proteção estendida sobre ela e por ela mesma. Em boa medida, há uma síndrome de autocontentamento com o filme barato e sem rumo. Uma espécie de masturbação recíproca coletiva acompanha os intercâmbios de talentos entre grupos e estados da federação. Uma permuta de legitimações ocupa o lugar de uma real aproximação crítica dos filmes.

Os rebentos cariocas que conheço são particularmente ineptos – e não é à toa que os filmes mais interessantes a chegarem brevemente aos cinemas sejam de dois cineastas um pouco mais velhos e à margem dessa celebração: Eduardo Nunes com Sudoeste e Eryk Rocha com Transeunte – além de um ligado à órbita da produtora Cavídeo, frequentemente “esquecida” nesse tipo de balanço, que é Gustavo Pizzi com Riscado.

Por sua vez, as realizações dos críticos-cineastas, praticamente sem exceção, têm naufragado num misto de pretensão, infantilismo intelectual, umbiguismo cool e referencialismo blasé. Elas somam a um panorama de cinefilia e filosofia mal digeridas, transformadas em filmes abúlicos.

Há marcas insistentes de um ressentimento com relação a um cinema narrativo e humanista, assim como à crítica que o valoriza ou tolera. Um patrulhamento semântico bombardeia conceitos como “arte”, “qualidade” e “autoria”, trocando-o por termos menos palpáveis como “vida”, “afeto”, “fluxos” e “lugar”. No entanto, os filmes em si demonstram que uma real inovação não se faz apenas com mudança de vocabulário e elogios em circuito fechado.

Minha experiência pessoal e minhas observações ao redor, entre jovens cinéfilos e cultuados mavericks da invenção, é de que, resguardadas as exceções, as manifestações verbais têm soado mais vistosas e articuladas que as imagens e sons atirados, a custo baixo e em mão única, no retângulo da tela.

Este texto não pretende ser um contramanifesto, muito menos um ataque indiscriminado a certo jovem cinema brasileiro. Quer ser antes uma tentativa de jogar alguma dúvida e relativização num tipo de discurso que aspira à hegemonia.

34 comentários sobre “Menos silêncio, por favor

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  3. Tive uma impressão diversa a respeito do texto do Felipe.

    Acredito que muito que foi dito é verdade, especialmente essa questão do auto-referenciamento. Mas bem, a internet possibilitou novas formas de legitimação mais democráticas e por um lado acho normal que esses cineastas se aproveitem disso. Por outro, essa produção ainda não chegou ao público propriamente e me parece um erro ( ou, no limite, até mesmo uma prepotência ) considerar a importância desses filmes baseados unicamente no “público de festival” ou nos seus júris. Verdade é que ainda não temos parâmetros para perceber o sucesso dessas obras, proclamá-las não faz sentido.

    Mas, voltando ao início desse comentário: o título do texto do Felipe, “Meu último texto de cinema” aponta justamente para um movimento seguinte em que esse processo de auto-legitimação é abandonado. Como se dissesse: algumas portas foram abertas (legitimamente), agora devemos produzir, daí brotará alguma originalidade e quem sabe algum valor da obra “construída todo dia”, como ele diz. Ao contrário não manter uma masturbação crítica que só se preocupa em ligar o cinema daqui com o de fora ou a situá-lo de certa forma como “anti-industrial”. Essas fronteiras foram atravessadas há tempos.

    Pelo que entendi, e pelo que concordo na posição dele: agora, é necessário calar e construir para que das obras sobre menos silêncio.

    um abraço,
    Pedro

  4. Gostei muito do seu artigo, Carlinhos. O texto do Felipe é, como sempre, muito interessante, mas marcado pelas características presentes na “nova” geração de críticos das revistas eletrônicas – e isso pode ser notado desde o início da Contracampo – de defesa acirrada de determinadas opções estéticas, numa mistura sempre perigosa (embora talvez necessária) de posicionamento político e doses às vezes acentuadas de arrogância e prepotência infantil. Mas o que me incomodou neste último texto, e ninguém parece ter comentado nos comentários, é a afirmação dada como óbvia de [cito] “certa “defasagem” do cinema narrativo e da dramaturgia cinematográfica brasileira em relação aos aspectos mais brilhantes que enxergávamos em filmes daqueles primeiros anos de século XXI”. Defasagem? Isso quer dizer que podem mudar os referenciais, mas a busca do nosso cinema – seja o ‘novíssimo cinema brasileiro’ ou qualquer outro – continua sendo “alcançar”, “nivelar”, “estar à altura”, “entrar em compasso” com certo cinema internacional? No passado era Rosselini, depois Godard, mais tarde “Kiarostami, Hou, Tsai e Oliveira”, mas algo parece não mudar: a sensação de que nosso pobre cinema culto brasileiro tem que seguir pelo caminho previamente referendado em alguns circuitos (de elite) e já trilhado pelos outros? Isso tudo me parece uma “velha novidade”…

    • Salve, Rafael. São tantos os aspectos em discussão que para cobri-los só mesmo uma relação interativa e estendida no tempo, como num blog. Essa necessidade de se mirar no cinema culto internacional não leva em consideração as motivações “íntimas” que movem as diferentes cinematografias. Daí resulta, entre nós, um cinema às vezes flutuante e apático, referencial e pretensioso, que não consegue estabelecer diálogo com quase nada. É um dos problemas, sem dúvida.

  5. EU EM LETRAS TORTAS REPITO . MAIS AFROMANTAMENTOS DE PENSAMENTOS POR FAVOR … E MENOS ÉTER… ENTRE RIO FILME / GLOBO e PRETENSO CINEMA CASEIRO FEITO COM RED OU 5D…. PREFIRO OUTRO CINEMA, O QUE ESTÁ POR VIR… O QUE SÓ EXISTE NAS VONTADES E PRETENÇÕES DE QUEM SE PRONUNCIA COMO LONGAMETRAGISTA. ARTISTA DE CINEMA OU NEOCRÍTICO/NEOJORNAISTA DE FACEBOOK….

  6. Muito bom, Carlinhos, importantíssima a discussão. Achei o texto do Globo arrogante, beirando o infantil, difícil mesmo de digerir… seu post foi o meu antiácido do dia!

  7. Carlos,

    Acho a sua posição importante.
    Realmente os jovens realizadores brasileiros, dito autorais, tem que ter a percepção de que, se existe um cenário por aqui que traz singularidades e até novidades, esse cenário é incipiente, heterogêneo e precisa ser desenvolvido sem oba-oba e sem a vaidade ser maior do que os resultados (os filmes).
    Apesar de ter realizado meu primeiro curta em 1998 (não sou tão novato assim), nenhum deles teve um destaque que chegasse perto do que “O Céu sobre os Ombros”, meu primeiro longa conseguiu. Então, a minha relação com a crítica, com os olhares sobre o meu trabalho é bem recente.
    Vejo com interesse e curiosidade as reações adversas que começaram a ocorrer, de questionamento ao “novíssimo cinema brasileiro” (termo associado às produções como as do meu filme) desde Brasília, quando parece que uma instituição mais “relevante” legitimou essa produção. Talvez os questionamentos fossem anteriores, e essa impressão só tenha me acontecido, porque foi a partir daí que eu me envolvi. Mas acho que só começaram a relativizar a importância desse grupo de filmes/geração/movimento quando a imprensa/mídia/crítica/público mais ampla, menos guetificada passou a levar em conta que esses filmes existiam. Então, pra começar, esses filmes, essa geração, já estava produzindo antes, e exibindo seus filmes antes. Foram vocês (te coloco no meio disso Carlos) que passaram a dar mais importância (no meu modo de ver, merecidamente) para essa produção. Foi algo natural, a acredito que assim o foi, pela relevância dos filmes. Foi uma conquista dos filmes, e não uma estratégia obscura de seus realizadores.
    Daqui do meu lugar, Belo horizonte, fazendo parte de um coletivo de realizadores, a TEIA, que completa 10 anos de existência no fim do ano, vejo a repercussão positiva desse cinema (feito com equipes menores e com menos hierarquias, feito de forma mais barata, feito a partir da fricção entre real e ficção, feito sem seguir a lógica narrativa hegemônica, etc…) com muito entusiasmo. O meu desejo de fazer filmes ia além da impossibilidade que o sistema de produção brasileira me indicava. Fui favorecido pelo surgimento das ilhas de edição caseiras e das câmeras digitais. Fiquei realmente confortado quando me dei conta de que em outros estados brasileiros (Ceará, Pernambuco, Rio, São Paulo, Paraíba…) haviam outras pessoas e grupos produzindo como a gente aqui. E ainda mais pertencente a uma geração, quando me dei conta que esse fenômeno é mundial. Que nas Filipinas, na Coréia, Portugal, Argentina, México, Chile, Tailândia, Romênia, e por aí vai, surgiam esquemas de produção e formas narrativas diversas da hegemônica, que ganhavam legitimidade e melhor, chegavam até mim. Acho que mais do que tudo, uma nova voz surgiu na cena audiovisual brasileira. Não acho que essa voz queira ser considerada genial, mavericks inventivos, muito menos queira desmerecer outros realizadores e outras formas de narração. Essa voz quer contar que também está presente no cinema brasileiro, que é possível fazer filmes dentro de um outro sistema, com outra lógica. Essa voz quer dizer também que ela não é um grito solitário no deserto. Daí talvez venha a importância de se dizer de afetividade, vida, rede. Não sei se você se dá conta Carlos, de quão especial é termos pares nessa vida no pequeno mundo do cinema brasileiro. E o cinema? Talvez, em uma análise mais contundente, realmente não sejam muito os filmes que se sustentem para gregos e troianos. Mas me parece novo, o fato de termos algumas dezenas de jovens realizadores ao menos esboçando algo interessante. Ainda mais se levarmos em conta que a grande maioria está fazendo seu primeiro longa. Acho que esse é o ponto a ser valorizado. Inclusive porque essa produção é diversa. Percebi que vc tem um questionamento sobre a forma narrativa dos filmes tb (sobre a homogeneidade desss forma nesse grupo – um questionamento muito justo, diga-se de passagem) Particularmente acredito que o potencial expressivo do audiovisual é muito maior do que a forma (cinema industrial americano/telenovela brasileira) que o cinema brasileiro em sua enorme maioria produziu pós cinema novo. Os filmes que mais me comovem, transformam, reformam passam por uma relação mais complexa filme/espectador, com mais lacunas, para espectadores mais ativos. Apesar, disso, sei dar o devido valor a filmes que “contam uma história” de forma mais convencional. É preciso acreditar no filme que se vê. o cinema tem como característica expressiva se confundir com a vida, para quem o assiste. Hoje em dia, é difícil para mim acreditar em certos filmes, em ter essa relação. Vejo muitas vezes pequenos teatros feitos a partir de textos de roteiristas querendo trazer uma mensagem (humanista, ou moral, ou revolucionária, não importa) e não acredito neles. Mas isso é o meu caso, o meu olhar. E acho que exibir esses filmes para públicos diversos faz parte de um trabalho de longo prazo para formar público para o cinema, visto que a formação audiovisual brasileira vem da TV e de sua lógica de consumo. Nnao subestimo o públicoe tenho visto ótimos resultados, ao menos com o meu filme. Daqui a um ano saberei ainda mais. Mas tenho que ter noção do potencial de público do meu filme, e sei que é segmentado. Mas é curioso, porque acredito muito que o potêncial de público do Céu sobre os Ombros é maior que o circuito de festivais. E acho que as salas de shoppings já tem um público viciado. Sonho com outros circuitos de exibição no Brasil (universitário, Cine Mais Cultura), mas ainda acho que se meu filme for visto por 10 mil pessoas no cinema, o custo benefício (já que ele custou 150 mil) será melhor que o de um filme de 4 milhões visto por 200 mil pessoas. Eu tenho feito um esforço político e me mobilizando para criar condições de filmes “menores” poderem ser realizados e exibidos no Brasil. De forma nenhuma acredito em autocontentamento com filmes baratos e sem rumo. Acho o “sem rumo” maldade (ou falta de sensibilidade) de sua parte com vários filmes. Não quero pertencer ao gueto do barato e autoral, mas não vou abandonar minhas convicções estéticas pelo sucesso no mercado. Fico realmente feliz em ver você ou o Sílvio Da Rin em um debate de jovens realizadores domingo de tarde no Rio. Mas fico com a impressão que para vcs, ainda somos um bando de amadores que precisam dar um salto de qualidade (como o Sílvio disse). Acho que não é bem assim. Quanto a jovem crítica, a minha impressão é de que ela dispõe de mais subsídios para ver os filmes, e não está formando uma panelinha que legitima esses filmes. Fábio Andrade é persona não grata de muitos realizadores, por exemplo, por criticar os filmes. Eu inclusive acho que muitas vezes eles pegam pesado demais e são muito pouco generosos com os filmes. Não acho que paternalismo seja bom, mas acho legal incentivar os novos realizadores apontando possíveis virtudes.
    O seu olhar sobre essa cena me faz perceber que, se queremos nos dizer partícipes da cena cinematográfica brasileira, temos que responder sim a todos, e não só a nossos pares. Acho realmente saudável a sua crítica. Acho que entre esses novos realizadores, existe algo que os une, mas também cada filme e cada realizador deve responder por seus filmes e suas palavras. Acho que não estamos mesmo com essa bola toda. Mas estamos participando do jogo sim. Com direito a opiniões, críticas, e com muita gente querendo nos assistir. Não vi evasão de sala no meu filme, e acho Pacific um filme incrível, mesmo com grande evasão de público. É bom entender se há um erro de modulação nessa nova voz. Sua crítica me faz pensar nisso. grande abraço.

    Sérgio Borges

  8. Fecho com o Jair de Souza, quando diz que o esforço para se posicionarem em outro patamar da história do cinema faz parte da necessidade de matar o pai, superar o mestre… mas vamos ver o que sobrará desse caldo.
    Uma discussão como essa aberta e franca, e de alto nível, estava mesmo em falta, tô gostando,valeu Carlos Alberto!

  9. Falando francemente, acho que o único talento que me impressionou na nova “onda” foi o do Karim Aïnouz. Um pouco antes, o do Brant – e mais ninguém, quanto ao meu sentimento de estar diante de talentos verdadeiros e não pessoas enturmadas para colher/provocar elogios mútuos e/ou forçados a fim de criar a falsa situação de uma “retomada” (?) consolidada etc.
    Aliás, eu poria em discussão essa própria “retomada” tão falada – como se houvesse alguma coisa acontecendo em sólida continuação de coesas propostas (Cinema Novo etc) de “revelar” o Brasil, ou dar-lhe uma face bem captada pela câmera (algo que o velho Eduardo Coutinho costuma fazer nos seus documentários), sem digressões “umbigais” e desvios até ridículos tipo “Eu Tu Eles” (2000).
    Sendo mais sincero ainda: na maioria dos casos, eu saio do cinema na metade dos filmes dos novos cineastas – apesar do ingresso caro nos multiplex da vida…

  10. Carlos,
    irrompendo esse silêncio que já não dava mais pra suportar, você traz à tona a urgência de se conversar sério, sem receio de perder amigos – afinal não se trata de Fla-Flu.

    Mas, peralá, o descompasso entre o discurso e o filme propriamente já estava indo longe demais. Isso estava levando à impressão de unanimidade, que vem se refletindo não só na realizacão e na crítica, mas também na academia, onde algumas palavras de ordem, carregando o “esvaziamento” à frente, têm dado a tônica.

    Essencial enfrentar esse “cálice”!
    Um abraço.

  11. Salve meu amigo,

    Visto a carapuça. Tenho apontado para esse cinema como algo importante no Brasil hoje. Me dediquei mais longamente a apenas quatro filmes; Avenida Brasilia Formosa, Pacific, Sábado a Noite e O Céu Sobre os Ombros. Acho os três especialmente tocantes pelas formas que abordam as cidades, a pobreza, as disputas com a cultura de massa e a própria relação do cinema com as formas de vida. Mas, quando trabalhei com cada um desses filmes fiz o esforço de não fazer a passagem entre as obras e um “novo movimento”. Os diálogos dessas obras é complexo. Serras da desordem e Moscou estão próximos, mas também um corte eventualmente ligado ao melodrama, os filme-dispositivo, o documentário moderno e toda crise do lugar do realizador que nunca mais resolveremos – felizmente.
    Digo isso porque me parece extremamente complicado, diante do que temos visto – com os filmes que citas ou que estão implícitos no texto – que façamos um julgamento desse cinema baseado em uma análise das obras; o que não quer dizer que elas não interessem, pelo contrário.
    Temo que tua leitura caia na mesma armadilha da do Felipe. Esses filmes, se desejarmos pensar o conjunto, não podem ser julgados sem que consideremos as redes para as quais eles apontam e mobilizam. Ou seja, metodologicamente meu esforço tem sido partir da obra e dela fazer as conexões necessárias para a reflexão ou partir da rede à qual os filmes fazem parte. Quando parto da obra, percebo que são filmes que fazem parte da história do cinema, com eventuais singularidades, é claro. A indistinção entre documentário e ficção, por exemplo, ganha novos traços. A performatividade, como você chamou atenção em Tiradentes, também, assim como uma relação com história do cinema que, nesses filmes que trabalhei mais a fundo, não é nada ingênua. Mas, quando parto da rede e das condições de possibilidade para que essa eventuais traços estéticos surjam, percebo que estamos diante de algo forte e singular.

    Uma singularidade que tem nos forçado a pensar novas estratégia de mercado, novas formas de atuação do estado, novos tipos de licença para proteção da propriedade intelectual, novas formas de relação com a universidade, novas formas de fomento e incentivo ao acesso, etc. Perceba. Se não fossem os filmes, em suas heterogeneidades e qualidades diversas e não consensuais – nós mesmo em Tiradentes discordamos sobre determinados filmes – esse movimento que hoje mobiliza bem mais do que uma patota e festivais que não são tão irrelevantes assim, não estaria acontecendo.
    A rede que tenciona a distribuição, as formas de acesso, os festivais, as políticas públicas, a universidade, a crítica e é recheada de inquietações estéticas, é mobilizada por algo que está nos filmes, não é pouca coisa.
    Não se trata assim de um movimento, como se houvesse um conjunto relativamente fechado, como nos tantos movimentos que conhecemos na história do cinema, nesses caso, acho que essa noção não faz muito sentido. Trata-se de uma outra lógica, acentrada, dispersa, que hoje está focada em alguns diretores e no ano que vem em outros ou outras cidades. Sim, talvez seja uma geração, uma geração que soube inventar meios de fazer do cinema um modo de vida fora do eixo Rio-São Paulo – mas nele também, como v. chama atenção -, fora das amarras da indústria mas, mas encontrando seus espaços, fazendo uso e inventado redes econômicas, afetivas, criativas e, claro, de legitimação.
    Diria então: estamos diante de imagens que tem força suficiente para nos revelar a potência e a singularidade dessas redes que incluem os filmes e suas criações. Isso já é, em si, motivo de entusiasmo, mas também é pouco para uma leitura histórica, panorâmica. Nesse sentido, torna-se problemático deslocar para toda uma rede aquilo que se pode encontrar no específico; infantilismo, pretensão, etc.

    Há um ponto no teu texto que é um desafio para nós. Quando falas do patrulhamento semântico que nega “arte”, “qualidade” e “autoria”, optando por termos menos palpáveis como “vida”, “afeto”, “fluxos” e “lugar”. Primeiramente, acho patrulhamento forte, entretanto, duas colocações me parecem fundamentais. O primeiro é referente às obras mesmo. O fato desses outros termos ocuparem a cena, alguns marcadamente pós-estruturalistas, não fala da necessidade de nos relacionarmos com outros campos do pensamento para falarmos dos filmes? É claro que essa utilização pode ser caricata, mas, novamente, faria o esforço de não ver no particular um retrato do todo. O outro ponto é ainda mais problemático. Estamos dispostos a lutar pela noção de qualidade no cinema com a Globo e um certo cinema em que a “qualidade” se auto-justifica? Estamos dispostos a lutar pela noção de autoria? Com que ganho? Novamente, nos filmes que citei acima, tal noção não se faz sem problema. Ainda, quando por todos os lados, a palavra de ordem é crie, eu entendo perfeitamente que falar em arte seja difícil, eu não desisti ainda, mas, sem deixar a polis de lado.

    Meu abraço
    Cezar Migliorin

  12. Carlinhos, antes de mais nada acho bacana te ver entrar nessa discussão. Compartilho essa impressão de que há um certo desespero por afirmação em parte dessa geração, algo até certo ponto natural, bastante rapidamente comprado pela imprensa (a necessidade de gerar pautas é prato cheio pros manifestos, pra exaltação dos coletivos, etc, etc), mas que muitas vezes atrapalha no contato com os filmes, que é o que realmente me interessa.

    Só acho complicado quando você diz que há silêncio sobre esses filmes, porque cria a impressão de um consenso que eu nunca vi existir. Porque pra isso é preciso desconsiderar (e digo não como algo inválido, mas como algo que em tese não existe) as coberturas feitas pela Cinética, pela Filmes Polvo e por um cara como o Sérgio Alpendre, por exemplo, de vários festivais onde esses filmes são exibidos. Porque se você for olhar os textos que respondem e questionam esses filmes, verá que há enfrentamentos frontais e diretos, sem que a crítica se furte de aquiescer quando percebe que um caminho interessante surge nos filmes.

    A Cinética, que eu conheço melhor por razões óbvias, têm críticas bastante duras aos dois últimos filmes do Felipe Bragança e da Marina Meliande, embora o Felipe já tenha participado da revista. E não é caso isolado: os dois filmes do Gabriel Mascaro, o “Casa de Sandro” do Gustavo Beck, “Estrada para Ythaca” e diversos curtas brasileiros já suscitaram posições bem firmes na revista, basicamente porque acredito que a firmeza é necessária em todo trabalho crítico, com filmes brasileiros ou não. E digo isso com bastante tranquilidade, porque fui eu mesmo quem escreveu essas críticas e não só sei que elas existem e estão disponíveis para serem lidas, como elas geraram respostas e debates entre as partes envolvidas. São críticas, inclusive, que usam abertamente palavras como “arte” e “autoria”, conceitos que estão muito longe de serem abandonados pela crítica em nome de outros conceitos, como você indica.

    Acho que textos como o seu dependem mesmo de algumas generalizações pra que a pulsão inicial deles seja transmitida, mas para que a coisa não se perca nos manifestos – dos cineastas e dos críticos – e na simples tomada de posição (algo necessário, mas que eu julgo bastante infrutífero quanto não sai de si), é preciso que algumas correções de foco e de argumentação sejam feitas para que a conversa não se esvazie na convivência de monólogos. É preciso, no fim das contas, pensar que o tal “novíssimo cinema” é composto de filmes específicos e que a tal “jovem crítica” traz um conjunto de textos e pensamentos. Sugiro alguns textos pra você ver que o silêncio, se é que já existiu (tenho minhas dúvidas), já foi quebrado há muito tempo:

    http://www.revistacinetica.com.br/aberturasemana.htm
    http://www.revistacinetica.com.br/aalegria.htm
    http://www.revistacinetica.com.br/lugaraosol.htm
    http://www.revistacinetica.com.br/brasiliaformosa.htm
    http://revistacinetica.com.br/tiradentes11dia9.htm
    http://www.revistacinetica.com.br/tiradentes10dia5.htm
    http://www.revistacinetica.com.br/tiradentes09curtas.htm

    Abraço!

  13. Parabéns, Carlinhos, (concordando com o Kleber) – achei muito lúcido o seu texto. Compartilho de suas dúvidas e agradeço a sua voz.
    Abraços,
    Uliana

  14. Carlos Alberto, meu caro, tendo a concordar com muita coisa do seu texto e acho louvável sua iniciativa de não silenciar, mas queria discordar quando você fala dos filmes dos críticos-cineastas. Gostaria de saber a quais você se refere, pois dos críticos cineastas mais notórios, Kléber Mendonça e Eduardo Valente não tem nada de abúlicos. Eletrodoméstika e Recife Frio, do primeiro, estão entre os curtas mais instigantes que assisti recentemente. No Meu Lugar, do Valente é um dos filmes mais injustiçados (por júris e parte da crítica) nos últimos tempos. Aquele giro temporal em torno de um mesmo local e suas particularidades me estimularam ao ponto de voltar ao cinema poucos dias depois para rever, coisa que só o Scorsese e o Coppola fizeram ultimamente.
    E também, acho curioso que tanto você quanto o Bragança esqueçam do Beto Brant, cineasta que, pelo conjunto da obra, mais tem me provocado dentre os surgidos nessa “retomada”.
    Abração
    Marcelo

    • Marcelo, minha opinião sobre os filmes do Kleber é bastante conhecida. Aprecio muitíssimo os curtas dele e acho Recife Frio o melhor curta feito no Brasil em muitos anos. Mas lamento não compartilhar da mesma admiração pelo filme do Valente. A mim pareceu um giro em falso, um filme empenhado em se desvencilhar de muitas coisas, mas que em troca não abraça nada. Achei anódino.
      Devo ressaltar também que aprecio o documentário do Daniel Caetano sobre O Padre e a Moça, e que não conheço os curtas do Cleber Eduardo e da Ilana Feldman.
      De qualquer forma, em vista do volume da produção, estamos falando de pouquíssimas exceções.
      Quanto ao Beto Brant, ele pertence a uma geração anterior à que ocupa a nova cena no momento. Daqui a pouco ele também será objeto de destroçamento pelos mais que novíssimos.

      • DIscordo, o Brant tem filmografia sólida, quem tem bom gosto há de apreciá-lo. Pena que nós ainda temos uma síndrome bairrista muito forte no nosso cinema, é que como se tivéssemos dificuldade de falar de nós mesmos. Essa identidade ainda está sendo gerada. Somos um País imenso. Por isso nos aglutinamos.

      • Oi Carlos, poxa, claro que sei que o Beto é da geração anterior, mas é que citaram o Meirelles, o Salles, a Tata Amaral…

  15. Muito boa e lúcida a análise. Você citou a palavra-chave que vem marcando esses filmes: infantilismo, e isso não tem nada a ver com a idade, mas apenas com a mentalidade de seus realizadores.

  16. Carlos,

    Parabéns.Você expressou muito bem em palavras idéias e inquietações que estavam rondando minha cabeça, insatisfeita com estas auto-conclamações. Já estava na hora de haver um texto sério e forte a respeito disto tudo.
    Abraços,
    Nelson

  17. Há muitos anos não leio um artigo como esse, posicionado frontalmente à uma onda com pretensões virtuosas e dominantes.
    A imprensa “compra” certas idéias por pressão. Ninguém quer ficar do lado antigo ou convencional, pois esse tipo de processo visa a criar uma espécie de obsolescência, retirando valor do que até então tenha sido produzido.
    Nada contra as novas produções que questionem em sua real realização às do passado. Isso faz parte da trajetória da história da arte, matar o pai, superar o mestre…Isso é essencial. O texto do Felipe Bragança também é importante porque mesmo com arrogância se posiciona claramente na pretensão de revelador de inovações contemporâneas. Escrevo apenas para parabenizar um crítico de cinema que enverga de fato o papel de pensador e articulista ao se colocar criticamente à maré da nova onda. No mais, espero que a onda prolifere de fato e que as flores se abram no parque dos monstros.

  18. Carlos, teu texto é muito lúcido. Precisamos de pelo menos dez anos para entender o que se passa agora. O cinema se faz aos poucos, durante um bom tempo. abs, Kleber

    • Kleber, ainda há pouco o Marcelo Lyra citou aqui seus filmes como exceções não contempladas no meu texto. Na verdade, nem o considero exatamente um integrante desta “nova cena”, mas sim um antecessor. E meu apreço pelos seus curtas é mais do que conhecido, sobretudo o meu entusiasmo por “Recife Frio”. Abraço.

  19. Esse pessoal tá tendo mais repercussão que merece e que eles acham que estão tendo. É um modismo que passa. Um estudo antropológico daria conta disso, porque tá mais para um estudo de tribo do que de um movimento ou uma escola cinematográfica. Enfim, uma doce ilusão para universitários.

  20. olá Carlos,

    Belo texto.
    Fico contente de ler essas palavras por aqui. O circuito fechado da auto-enunciação não pode mesmo ir muito longe.

    abraço
    Tatiana

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  22. O que me espanta é o auto-referenciamento desses cineastas. Como alguém me falou esses dias, há pretensão demais…

  23. Pensei que nem tão cedo eu iria ler algo parecido com esse texto de Carlos Alberto Mattos. Isso porque a “blindagem” corporativa pró-cinema “genial” brasileiro atual é taõ forte, tão maciça, tão cerrada, no momento, que parecia impossível aparecer alguém arrostando – desse modo inteiramente franco, pelo menos – com a coragem do que Mattos aqui desvela, em alguns poucos porém certeiros parágrafos: O REI ESTÁ NU no árido-movie atual.
    ASSINO EMBAIXO.

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