Esqueça o original

Uma discussão bastante envelhecida ocupa o centro de Cópia Fiel. Até que ponto a aura das obras originais lhes garante um lugar de superioridade em relação a suas cópias, sobretudo às boas cópias? Qual o valor da originalidade quando ela não é percebida como tal ou quando é atribuída a uma mera cópia? O que mais importa, a proveniência da obra ou o prazer que ela proporciona? Livros e textos sobre isso dariam para encher uma biblioteca das grandes. Os pós-modernos tinham aí uma de suas razões de ser. A dramaturga brasileira Celina Sodré tem uma tese sobre o “segundo original”, em que defende a importância das recriações que relançam o potencial do primeiro original. Enfim, não é de hoje que esse debate vem se estendendo, sendo o cinema uma câmara de eco quando trabalha os limites entre autenticidade e simulação.

Abbas Kiarostami é um dos mais ricos expoentes desse momento do cinema, em filmes seminais como Close Up, Através das Oliveiras, Ten e Shirin. Em Cópia Fiel, ele traz a discussão para a boca dos personagens, o que, a meu ver, não produz um avanço em sua dramaturgia. Pelo contrário, as conversas entre Juliette Binoche e o barítono William Shimell trazem um ranço didático e reiterativo que parece insistir: “é sobre isso que o filme está falando”. Ademais, é preciso admitir que muitos dos tópicos discutidos, principalmente na primeira metade do filme, soam como se saídos de um livro de banalização do tema – o que deve ser mesmo o tal livro lançado pelo personagem. O problema é que essa banalização não é mostrada com viés irônico ou crítico, mas como a espinha intelectual do filme.  

A partir do momento em que Juliette (a personagem feminina sem nome) dialoga com a mulher do café, a trama se volta para o casal e dispara um mecanismo a que estamos mais acostumados nos filmes de Kiarostami. A confusão entre realidade e encenação se projeta sobre a relação dos personagens num jogo de cena que pode lembrar os Resnais dos anos 1960, sobretudo O Ano Passado em Marienbad e Hiroshima Mon Amour. Juliette e o escritor introjetam um no outro memórias de um (suposto?) casamento dos dois, levando a coisa ao ponto de a aparente brincadeira despertar emoções (supostamente?) reais.

Toda a coisa se dá num périplo através de ruas e estradas da Toscana, pátria do Renascimento, que por sua vez deu origem ao pensamento moderno nas artes, na filosofia e na ciência. Cheio de referências à arte renascentista e a seus ecos, o filme parece fugir ao repertório habitual de Kiarostami. Mas, em termos de construção cênica, a identidade está patente nas longas discussões entre os personagens, no recurso ao deslocamento constante e, sobretudo, na maneira como o registro desliza da veracidade naturalista para uma representação meio brechtiana e vice-versa.

O título brasileiro traz uma vantagem sobre o original Copie Conforme por aludir à questão da fidelidade, central para o subtema do filme, que é o casal. A Toscana hoje é mais lembrada como cenário de comédias românticas do que como a terra de Giotto e dos Medici. Nos fins de semana, as praças de suas cidades ficam coalhadas de casais de noivos exibindo sua felicidade. Kiarostami lança um olhar de carinho e dúvida sobre essa ilusão romântica, contando até mesmo com Jean-Claude Carrière para ajudá-lo como ator numa sequência plena de artificialismo. A “originalidade” de um amor jovem pode se transformar em mera “cópia” com o passar dos anos, sem que com isso deixe de ser amor. À medida que o filme, literalmente, caminha de um debate conceitual óbvio para uma experiência lúdica de discussão da felicidade a dois, o interesse cresce e a sutileza habitual de Kiarostami se reinstala.

A registrar, ainda, como relativa novidade, a implicação direta do espectador nesse jogo. Em vários diálogos de Juliette e William, a câmera está situada frontalmente a cada personagem, fazendo com que eles se dirijam a nós. Em outros momentos, os personagens usam a câmera (e o nosso olhar) como espelho. De alguma forma, Kiarostami está nos agenciando deliberadamente para esse jogo de espelhos. Estamos ou não diante de um filme original? E que sentido tem essa pergunta, se de todo filme o que vemos é sempre uma cópia? (Agora quem soou velho fui eu).  

3 comentários sobre “Esqueça o original

  1. Pingback: Cópia infiel | incinerrante

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