Cinema passageiro

Enquanto Pacific está em cartaz no Cine Joia (até 5ª feira, sempre às 20h), republico aqui o texto que fiz para a Filme Cultura nº 55 sobre o “cinema a bordo” de Marcelo Pedroso: 

Marcelo na balsa

Chama atenção o fato de um jovem realizador pernambucano ter feito, consecutivamente, dois filmes inteiramente rodados a bordo de embarcações. Seria apenas uma curiosidade logística, não fossem Balsa e Pacific duas viagens em busca de linguagens pouco usuais no documentário brasileiro.

Em Balsa, um média-metragem de 48 minutos, Marcelo Pedroso instala a câmera em diversos compartimentos de uma balsa que transporta carros e passageiros entre as margens de um rio em Alagoas. No longa Pacific, ele apenas reúne e monta cenas filmadas por turistas durante um cruzeiro que parte de Recife em direção a Fernando de Noronha. O fato de ambos os filmes se passarem a bordo é a única semelhança evidente. De resto, eles se opõem visceralmente como dispositivos de registro documental.

As diferenças começam no sentido mesmo das viagens. As travessias de Balsa são cotidianas, rotineiras, momentos de suspensão na trajetória de pessoas rumo ao trabalho ou ao lazer. A esse vazio da viagem corresponde a quase total indiferença em relação à câmera, afixada em pontos estratégicos da embarcação. Isso permite captar o absolutamente casual: embarques e desembarques, rostos ensimesmados, olhares vadios, gestos fortuitos, corpos que saem e entram no quadro sem qualquer propósito deles próprios ou da câmera. O estado de suspensão sugere pausa, serenidade, comedimento.

Pacific é em tudo o oposto disso. Os passageiros do cruzeiro estão navegando em direção à concretização de um sonho de consumo: a chegada ao paraíso de Noronha. As imagens, solicitadas pela equipe do filme somente depois de encerrados os cruzeiros, carregam a plena espontaneidade do registro doméstico, aí incluídos narração e comentários incessantes do cinegrafista e das pessoas ao redor. Nada soa casual nessa coletânea de registros exaltados pelo deslumbramento e a autossatisfação. Ao contrário de Balsa, aqui o empenho dos passageiros é maximizado. As imagens exprimem uma catarse.

A estética de cada filme, naturalmente, é pautada por essas diferenças. A câmera sempre fixa de Balsa colhe ora o acaso dos movimentos no interior do barco, ora a composição rigorosa e expressiva dos movimentos da paisagem de fundo. O diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo usa recursos simples como grandes-angulares, teleobjetivas e seleção de foco para criar imagens de grande força plástica. Variações de luz e reflexos, somados a belos contrastes entre ruído e silêncio, imobilidade e deslocamento, acabam por desenhar uma pequena fenomenologia visual da travessia. Investimento mínimo dos passageiros, investimento máximo dos realizadores.

Inverta-se esta última fórmula e temos a equação de Pacific. Tudo o que está na tela foi produzido pelos passageiros. Daí a falta de rigor, a trepidação permanente do quadro, a caça sôfrega ao imediato, o excesso de intenções superlotando cada cena. Se Balsa promove o olhar do cineasta como instância organizadora do mundo, à revelia dos homens, Pacific propõe vermos o mundo pelos olhos dos homens. Ainda que, nos dois casos, sejamos sempre voyeurs dos viajantes.

Duas maneiras de abordar o estar a bordo, duas maneiras extremas de relacionar-se com os personagens de um documentário. Em nenhuma das duas existe o contato entre documentarista e documentado. Estaríamos, assim, de volta a um estágio inicial do cinema ou a uma alternativa contemporânea de dramatizar percursos reais? Uma coisa é certa: estamos a anos-luz da interatividade obsessiva que vem pautando o documentário brasileiro recente.

Uma curiosidade a mais sobre os filmes de Marcelo Pedroso, um aficionado por meios de transporte: seu primeiro longa-metragem, KFZ-1348, codirigido por Gabriel Mascaro, levantava a história de um velho Fusca através de seus sucessivos proprietários. O mais recente, Aeroporto, é um misto de doc e fic também relacionado a turismo. Veja abaixo uma pequena reportagem sobre este curta:

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