As vozes de Flávia

Flávia Castro abre seu filme com uma foto do pai morto. A partir de então, ela faz um duplo movimento em Diário de uma Busca. Com a ajuda de parentes e amigos, vai reconstruir uma imagem do pai, ou seja, reavivá-lo através do filme. Mas há também uma dura e tranquila consciência de que nenhum filme é capaz disso. Toda morte é uma derrota contra a qual o cinema, na verdade, pode muito pouco.

Daí uma certa quietude nessa busca. A voz de Flávia, principal narradora do filme, nos chega com suavidade, em frases cujo tom decresce sempre no final. Uma voz que exprime aceitação e paz interior, mesmo quando se recorda dos anos de exílio em diversos países, da vida familiar atribulada e da investigação policial esquisita que se seguiu à morte do pai. Segundo a polícia, Celso Afonso Gay de Castro, ex-militante comunista, teria matado seu comparsa e depois se suicidado durante a invasão da casa de um ex-cônsul alemão em Porto Alegre, supostamente envolvido com o nazismo.

Não é difícil lembrar que Tata Amaral fez há dois anos o doc O Rei do Carimã para provar a inocência do seu pai num caso de acusação de estelionato. Mas as semelhanças com Diário de uma Busca são poucas e superficiais. A certa altura, Flávia Castro explica ao irmão que não está fazendo uma investigação policial, mas um filme. Um filme, aqui, significa uma construção horizontal, em lugar de uma investigação vertical sobre alguma coisa. Embora entreviste policiais e um perito em balística, não há uma intenção de descobrir provas ou fechar conclusões. Mais que isso, Flávia parece-me interessada em inventariar os traços de um mistério que deve permanecer como tal. Essa é a busca. Vejo nisso uma dimensão de respeito, inclusive pelos segredos do pai.

Os irmãos Joca e Flávia

A voz (ou as vozes) de Flávia se propagam em vários setores do filme. Está na luz doce das horas em que filmou as externas, na serenidade da câmera diante de rostos ou paisagens, no calor das cordas da discreta trilha sonora, no tom geral de memória que se desdobra entre lembranças divertidas e uma emoção exposta economicamente aqui e ali. Uma voz que não pretende desenterrar os mortos.

É interessante ver como ela projeta sua voz também na voz dos outros. É como se todos falassem por ela ao mesmo tempo em que falam por si próprios. Um ponto de relativo atrito está na participação do irmão Joca, que resiste à ideia de juntar sua voz à dela. Ele acaba lendo em off as cartas do pai, em tom semelhante ao que Flávia usa em sua narração em primeira pessoa. Já os risos meio envergonhados da mãe ao relembrar certos lances da militância clandestina, assim como as lembranças do ex-padrasto e de ex-militantes do P.O.C. (Partido Operário Comunista) se costuram como um fluxo coerente e contínuo. Por isso a leitura de algumas cartas começa numa voz e termina em outra.

Ao fim e ao cabo, são todas “vozes” de Flávia. As vozes com que ela desenha sua busca e sua crônica do exílio.

5 comentários sobre “As vozes de Flávia

  1. Pingback: Joana e o exílio interior | carmattos

  2. Pingback: Joana e o exílio interior | carmattos

  3. Pingback: Meus melhores de 2011 « …rastros de carmattos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s