O dia em que Orson Welles procurou o Dragão do Mar

Esse ano fez 70 anos que Orson Welles veio ao Brasil para filmar É Tudo Verdade. Quando estava no Ceará pesquisando para o documentário, foi visto de perto por um menino de 15 anos que nunca esqueceu aquela imagem já então meio mítica. Ele é o meu amigo e célebre pesquisador de música Jairo Severiano, autor dos livros A Canção no Tempo e Uma História da Música Popular Brasileira. De sua casa em Ipanema, ele enviou para o blog esse flash de sua memória fabulosa em detalhes:

“De repente parou um carro, dele saindo um gringo enorme, afogueado, todo de branco, seguido de dois sujeitos bem mais baixos, entrando os três na casa de Seu Bastos, nosso vizinho. A cena, acontecida numa tarde de março de 1942 na rua Padre Mororó, em Fortaleza, foi logo esclarecida por meu xará, Jairo Martins Bastos (futuro poeta e jornalista), que, alvoroçado, anunciou: ‘O Orson Welles está lá em casa entrevistando meu pai…’ Ato contínuo, estávamos todos, garotos e até marmanjos de nossa rua, aglomerados na janela de Seu Bastos, olhos pregados na celebridade, que a maioria sequer conhecia. Eu mesmo, que na época já lia jornais (tinha 15 anos), sabia apenas que um americano chamado Orson Welles chegara ao Brasil para filmar o Carnaval e os jangadeiros.

Na verdade, a razão da entrevista eram as façanhas de um herói cearense, o Dragão do Mar, tio-avô, ou bisavô, de Seu Bastos. Francisco José do Nascimento (1839/1914), conhecido como Chico da Matilde, era um abolicionista ferrenho, que, exercendo forte liderança sobre seus colegas jangadeiros, levou-os em 1881 a suspender de forma definitiva o serviço de embarque e desembarque de escravos no porto de Fortaleza. Esse movimento contribuiu de forma decisiva para que em 25 de março de 1884 o Ceará se tornasse a primeira província brasileira a abolir a escravidão, antecipando-se em quatro anos ao ato da Princesa Isabel. Então, o Chico da Matilde passou a ser chamado de Dragão do Mar, entrando gloriosamente para a História do Ceará (hoje dá nome ao Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura e a uma escola pública). Já a entrevista que motivou exemplifica, para os mais exigentes, a exagerada importância que Mr. Welles costumava dedicar a ínfimos detalhes de seus projetos.

Setenta anos passados, descobri no site IMDB a estatura de Orson Welles: um metro e oitenta e sete centímetros. Tendo em vista a opinião dos especialistas em vôlei e basquete masculinos, que consideram ideal para seus praticantes a estatura mínima de um metro e noventa, chego à conclusão de que o gigantesco Orson que conheci seria hoje considerado um reles ‘tampinha’ se resolvesse praticar esses esportes.”

Jairo Severiano
Foto: Chico Albuquerque

2 comentários sobre “O dia em que Orson Welles procurou o Dragão do Mar

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