Pílulas na rede 9

Aprecio as experimentações de Patricia Moran no doc CLANDESTINOS, mas saí exasperado desse tal de PONTO ORG. Quase descolei a retina com a câmera tonta nesse mix indigesto de voyeurismo chique da marginalidade e pseudo-modernidade multiplataforma. Tudo provinciano demais, autocentrado demais, estereotipado demais. As ideias fragmentadas e incompletas podem ter charme quando têm alguma densidade e originalidade nos fragmentos e na incompletude. Do contrário, não são objetos, mas sim dejetos contemporâneos.

A pequena Djin Sganzerla se agiganta e engole o palco do Dulcina em O BELO INDIFERENTE. Nesse ‘monólogo a dois’ escrito por Jean Cocteau em 1939, o desespero de uma mulher para fazer contato com o marido indiferente (Dirceu de Carvalho) funciona como uma metáfora para tudo o que não conseguimos tocar e alcançar, e mesmo assim continuamos vivendo. São os colchões de pedra em que nos deitamos pela vida afora. A bonita montagem dirigida por Helena Ignez e André Guerreiro Lopes é concisa em termos espaciais (o público fica no palco com os atores) e hiperrealista em matéria de som e luz. Mas o grande trunfo mesmo é o apetite cênico de Djin, uma atriz prodigiosa quando tem, como aqui, seus recursos exigidos em toda sua elasticidade. Não percam, é só até dia 30, às sextas, sábados e domingos, 19h, no Dulcina.

Depois de me entediar profundamente com COSMÓPOLIS, leio a resenha do Rômulo Cyríaco e fico achando que perdi alguma coisa. Perdi, sim, a capacidade de me interessar por filmes que se limitam a expor suas ideias como numa palestra dramatizada. Perdi o interesse por arrazoados óbvios sobre a indiferença dos ricos e a raiva dos pobres. Perdi a paciência para cineastas que confiam demais em si mesmos e fazem seus filmes como se fosse nossa obrigação aturá-los verborrágicos, reiterativos e pretensiosos. A meu ver, a maior qualidade de COSMÓPOLIS foi ter feito os atores fingirem que estavam entendendo o que estavam dizendo. Mas fica aqui a sugestão desse texto “compreensivo” do Rômulo.

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