Pílulas 29

Filmes como CAMILLE OUTRA VEZ, mesmo quando não são bons, tocam no cristal de uma fantasia comum a todos nós: revisitar o passado; ver como nossa vida, afinal, se construiu no processo; conhecer o “futuro” e tentar, quem sabe, alterar nele alguma coisa. Essa simpática comédia francesa dirigida e protagonizada por Noémie Lvovsky lida com o déja-vu não só no sentido da vida vivida, mas também do cinema já visto. Trabalha com uma dramaturgia semelhante à de PEGGY SUE, DE VOLTA PARA O FUTURO etc. Mas CAMILLE, depois de um início nada promissor, e depois que a gente vence o desconforto de ver atores maduros fazendo o papel de adolescentes, mostra que não quer somente divertir. Quer também expor uma certa angústia da impotência diante do curso dos fatos e da impossibilidade de se evitar o que já aconteceu. No fundo, é uma antifantasia, o que me agradou. Se eu pudesse mudar alguma coisa na experiência de já ter visto esse filme, apagaria as participações vexatórias de Jean-Pierre Léaud, Mathieu Amalric e Micha Lescot. Mas apostaria no futuro da superexpressiva Judit Chemla (a melhor amiga de Camille).

MUNDO INVISÍVEL, o último projeto de produção da dupla Leon Cakoff-Renata Magalhães, reuniu um time respeitável de diretores para falar da invisibilidade no mundo contemporâneo. Ideia ousada e oportuna, mas cujos resultados são em sua maioria frustrantes. Gostei do Angelopoulos filmando um pastor no metrô de SP. Acho que Laís Bodanzky conseguiu articular (no episódio mais longo) uma reflexão sobre a teoria zen do desaparecimento do ator. Mas o que dizer da piadinha previsível de Manoel de Oliveira com os celulares na Paulista; do pianinho que destrói o doc de Wenders-Mocarzel sobre crianças com deficiência visual; do grand-guignol teatral de Beto Brant e Cisco Vasques; da bobajada de Guy Maddin no cemitério; ou mesmo da egotrip de Cakoff em torno de sua ascendência armênia sob a batuta de Atom Egoyan? A improvisação (técnica e conceitual) se sobrepõe a um olhar mais elaborado sobre o tema. E o filme sofre sobretudo dessa imposição do tema. Se testemunhamos o empenho de cada cineasta em procurar uma conexão entre o tema e o seu estilo pessoal, chegamos à conclusão de que a maioria deles simplesmente não encontrou. Ou não logrou tornar isso visível. Os pequenos textos que encerram cada curta enfatizam uma “mensagem” que só faz empobrecer cada experiência.

Revi CORES, de Francisco Garcia, agora lançado com a belíssima projeção do Espaço Itaú. Continuo não me mobilizando muito com a história desses manos paulistas vivendo no limite entre a normalidade e a autodestruição. Mas percebi melhor que o filme quer retratar um certo estado – de lassidão, de falsa percepção do mundo à sua volta. Vidas de cágado, como a que levam tantos jovens perdidos por aí, sem passado nem futuro, tendo apenas um presente amorfo pra arrastar até onde for possível. Curti melhor também a extraordinária fotografia P&B de Alziro Barbosa e confirmei que o desenho sonoro de Beto Ferraz é um exemplo negativo do espaço conquistado pelo som no cinema brasileiro ultimamente. Exibicionismo sonoro que não se justifica na dramaturgia do filme. De resto, o diretor constrói muito bem seus personagens no padrão minimalista e demonstra controle do próprio estilo, em que Jim Jarmusch e Angeli são referências explicitamente assumidas.

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