Pílulas 39

BOA SORTE, MEU AMOR é mais um tiro certeiro do cinema pernambucano. Uma história de amor um tanto vaga serve para dar eixo a um pensamento sobre o arcaico e o contemporâneo em Pernambuco. Nesse pêndulo entre o passado de latifúndio e vendettas rurais, e o presente de especulação e banalização urbana é que se dá a boa dramaturgia pernambucana atual. Pode ser que os personagens de Daniel Aragão não se firmem totalmente como criaturas humanas palpáveis, mas a força cênica deles é tão grande que a gente acaba comprando suas questões. Imagens e sons de primeira, um leve absurdo temperando o jeitão nouvelle-vague, situações construídas e apresentadas de maneira surpreendente, uma fragmentação que pauta nosso interesse para cada cena que se segue. E sobretudo uma atriz maravilhosa, Christiana Ubach, capaz de siderar as plateia com seus solos, seja em silêncio, seja falando com aquele sotaquezinho pernambucano forjado em voz carioca. Boa sorte, Christiana.

De alguma maneira, CABARÉ BIBLIOTHÈQUE PASCAL se parece com o bordel homônimo em que se passa boa parte da história. Ali, em quartos temáticos, os clientes podem vivenciar fantasias eróticas com personagens da literatura, em ambiente super-estilizado e frontalmente fake. O filme do húngaro Szabolcs Hajdu parece um tour por vários desses quartos: cenas de traição e sedução no interior da Romênia, uma cartomante falastrona, uma viagem de trem com personagens exóticos, uma sequência de filme de gangster e personagens capazes de projetar seus sonhos na realidade como se fosse numa tela. Essa viagem episódica e surreal vai agradar a quem não se interessar muito por unidade narrativa e coerência estrutural. Hadju explora os espaços e cenários com senso de absurdo e não hesita em misturar crueza realista com sacadas oníricas. Afinal, esta é uma história sobre contar histórias. Mona, a protagonista, é uma espécie de Sherazade da Europa Oriental contemporânea, que relata mil e uma noites de prostituição e abandono para tentar reconquistar a guarda da filha. O filme pode ser maluquete demais para o gosto de alguns, mas a trilha sonora é uma delícia garantida. O roteiro teve colaboração de Béla Tarr e a estética cigana tem parentescos com o sérvio Kusturica, o tcheco Jan Svankmajer e o georgiano Paradjanov.

Vendo LOVELACE eu me perguntava por que fazer um filme sobre Linda Lovelace se:
1. Você não pode mostrar como era profunda a garganta de Linda
2. A história da moça, levando do abuso sexual à redenção, não vale mesmo grande coisa
3. A única forma de produzir “interesse” é através dos estereótipos mais dramaturgicamente obscenos, como o marido violento e os pais retrógrados
4. Os diretores, ótimos documentaristas, não demonstram verve para descolar o docudrama da pauta mais tradicional.
5. Amanda Seyfried é bocuda e boa atriz, mas isso não chega para sustentar uma personagem opaca e subdesenhada
6. James Franco no papel de Hugh Heffner e Sharon Stone (a da cruzada de pernas) como uma mãe indignada são miscasts pavorosos
7. A indústria pornográfica dos anos 1970 já rendeu uma obra-prima como “Boogie Nights”.

A COLEÇÃO INVISÍVEL traz para o contexto das arruinadas fazendas de cacau da Bahia uma trama originalmente situada por Stefan Zweig na Alemanha dos anos 1920. Um velho colecionador de gravuras e desenhos (último papel de Walmor Chagas) é procurado em sua fazenda por um jovem (Vladimir Brichta) interessado em adquirir e revender as obras. O realizador Bernard Attal arma razoavelmente o esqueleto de sua história, mas peca na criação de situações artificiais e numa direção de atores problemática. O filme tem um prólogo trágico que motivaria o protagonista em sua busca no interior do estado, mas essa cadeia de fatos não se solidifica na tela, deixando uma impressão de lacuna. Em compensação, o terço final do filme captura o espectador, até porque o desfecho é um bocado impactante. No pano de fundo, a decadência das cidades cacaueiras baianas, uma das grandes histórias de perda desse país.

Assisti na Mostra Cinema Conquista ao novo longa de Bruno Safadi, ÉDEN. Acho o melhor dos seus filmes. Com uma concisão admirável e uma incrível harmonia de recursos cênicos, ele narra um pequeno conto de maternidade em ambiente de histeria evangélica. Leandra Leal está grávida quando perde o marido vítima de um crime. Seu caminho de mater dolorosa vai se cruzar não só com o do criminoso, mas também com o da mulher deste, igualmente grávida. Esse encontro vai ser negociado por um pastor midiático, vivido com garra e gravidade por João Miguel. O filme trabalha com signos alusivos a parto, batismo, luz e dor. De alguma maneira, é mais um filme brasileiro que trata de religião, mas com uma pegada complexa, pois expõe estereótipos sem exatamente tripudiar deles. Uma poética estranha, incômoda, que me lembrou coisas de David Lynch e também de O Bebê de Rosemary. Um filme, talvez, sobre a perda do fôlego e a recuperação da vida.

Estreou em São Paulo semana passada O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA. Filmes de Manoel de Oliveira dispensariam palavras como “estranho” e “singularidades”, já que são sempre assim. Aos 105 anos, o gajo continua excercitando seu anacronismo poético para contar histórias de obsessão e desejo travestido de outros impulsos. Aqui, um fotógrafo fica fissurado pela imagem de uma jovem recém-morta que ele é contratado para fotografar. É lindo o que acontece na lente da máquina dele quando clica o belo e sorridente cadáver (Pilar López de Ayala). Daí em diante sucedem-se as estranhezas envolvendo metáforas de morte, ressurreição e fixações macabras. Oliveira filma fora do tempo e do seu tempo. Os fatos se passam nos anos 50, mas quando vai-se à rua a paisagem é atual, assim como os cigarros são Camel com filtro. O sobrenatural ganha aparência de conto da carochinha, com efeitos visuais pré-modernos. Por conta da coprodução da Mostra de Cinema de SP, Ana Maria Magalhães faz uma pequena participação como uma engenheira brasileira. Talvez seja ela, com seu jeito brejeiro brasileiro, o único elemento de fato contemporâneo nesta fábula à moda antiga, intrigante e ingênua ao mesmo tempo.

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