Aleluia, Botafogo!

Sylvio Back está preparando um projeto relativamente surpreendente para sua carreira de cineasta afeito às coisas da História e da poesia. Vai fazer um filme sobre o Botafogo, o clube pelo qual se apaixonou desde 1948, ainda no Paraná. O Glorioso Alvinegro, misto de documentário e encenação, deverá estrear no segundo semestre de 2014, depois da Copa do Mundo. No texto abaixo, cedido com exclusividade para o blog, Back narra em forma de “bioconto” como nasceu seu encantamento pela Estrela Solitária.

GLORIOSO 1948

Sylvio Back

Paixão tão antiga quanto a de cinéfilo é a de torcedor do Botafogo. Ambas remontam ao final da década de quarenta do século passado. Ambas, igualmente, já me invadiram com tamanhas alegrias e decepções que só fizeram crescer o amor e a fidelidade a elas ao longo desses sessenta e quatro anos.

Mas, ao contrário do cinema, cujos primeiros filmes, americanos, italianos e franceses, vistos e revistos no Cine Antonina, me conflagraram de gozo estético para sempre, foi nessa época que, pela primeira vez ouvi, com um laivo de assustador desânimo, a expressão, “o Botafogo é triste!”.

Eu tinha dez anos. Era dezembro de 1947. Passava correndo pela porta da frente do Antonina Hotel, no litoral do Paraná,  em direção à calçada defronte para jogar bolinha de gude com os amigos. Alguns quartos do estabelecimento, de propriedade de minha mãe (não é à toa que meu filme, “Aleluia, Gretchen”, se passa num hotel…), eram alugados para clientes que ficavam meses seguidos na cidade, como engenheiros e técnicos do porto, funcionários transferidos, etc. Um deles vinha a ser esse torcedor inveterado do Botafogo, que escutava os jogos, o rádio a todo volume, debruçado no parapeito da janela assistindo aos nossos “embates búricos”, orgulhosamente envergando uma camisa do time! (onde ele havia conseguido essa com a Estrela Solitária, eu nunca soube).   

“O Botafogo é triste!”, repetia inconsolado o cidadão, do qual não lembro o nome nem a idade, mas que, para mim, era “velho”, devia ter em torno de trinta anos. Cabelo untado de gomalina, bigode finíssimo, “homem alinhado” – segundo mamãe! Muito sorridente no restaurante do hotel, com certeza carioca, não disfarçava o sotaque para nossa alegria, da irmã e minha, acostumados a dizer as palavras com todas as letras (leitê quentê faz bem pra gentê…).

Só ao longo do ano seguinte, mesmo sem atinar para o significado do que vem a ser um “vice-campeonato”, o Hóspede (doravante o chamarei assim, com reverente maiúscula, esse mítico botafoguense) me explicou que o Botafogo amargava, pela quarta vez seguida, a perda do título do Rio de Janeiro. Desde 1944, a sina do time era ser vice, contrastando com o antológico tetracampeonato de 1932, 1933, 1934 e 1935, láurea essa jamais igualada desde então por nenhum clube carioca. Comecei “entendendo” o tortuoso destino do Botafogo com um orgulho às avessas: o alvinegro ficara viciado em ser vice, ainda que tetra pelas virtudes na década passada!

Curiosamente, a minha epifania botafoguense ocorreu, justamente, no dia da única derrota do time, abrindo o campeonato de 1948, quando levou uma surra de 4X0 do São Cristóvão. Convidados pelo Hóspede, abortamos nossa jogatina no chão de terra batida e, sentados na escadaria à entrada do hotel, esticávamos o ouvido para acompanhar, vinda do quarto, a transmissão do jogo. Rádio de válvula, muitas vezes a narração sumia por intermináveis segundos e quando voltava o placar já era outro. E coube a mim flagrar, a cada novo gol, o Hóspede soltando o mantra de meses atrás: “O Botafogo é triste! O Botafogo é triste!” O tom era como se aquela tragédia jamais teria fim.

Até hoje é um mistério impenetrável, para usar, senão a melhor expressão para este raio, como soe acontecer, bastou cair uma única vez sobre mim: como é que, na desgraça, na desolação e a partir daquela derrota do Botafogo, acabei me apaixonando pelo clube por toda a vida. Sei lá, talvez inconscientemente solidário com a depressão do Hóspede que, a cada derrota, no dia seguinte era outro homem, carrancudo, calado; talvez, aos poucos ouvindo dele a história das façanhas e glórias do Botafogo, ou lendo e vendo fotos do “Jornal dos Sports” que ele recebia do Rio de Janeiro um tempão depois da peleja que havíamos escutado. Ou, quem sabe mesmo, péssimo jogador de peladas, quando eu preferia escalar o time a atuar (se não fosse cineasta seria técnico de futebol!), tomei gosto, isso sim, compensando a falta de habilidade para o esporte bretão, pela insuperável virtualidade do rádio. As “canoras” vozes de um Oduvaldo Cozzi, Doalcey Camargo, Jorge Cury, cujos gritos de gol ficavam ecoando horas e dias na cabeça, se acoplavam à minha imaginação que parecia filmar no éter, tornando “visíveis” as partidas em General Severiano, em São Januário, na rua Bariri, na Gávea… 

Depois daquela inesquecível derrota na abertura da temporada, exatamente onze dias antes dos meus onze anos, nunca mais fui o mesmo. Junto com meus três, quatro amiguinhos, a tarde de domingo era sagrada, só mesmo quando tinha algum episódio de seriado que eu não podia perder… Neófito, ainda não era um torcedor como o fanático Hóspede alvinegro. Mais tarde, quando me encontrava, ficava descrevendo detalhes da partida vencida pelo Botafogo, pois naquele histórico 1948 o time chegaria (quase) invicto a campeão carioca, goleando no “clássico” da final o Vasco da Gama, o chamado “expresso da vitória”. O Hóspede, forçando seu lindo “carioquês”, passou dias ironizando, com os olhos injetados de prazer e rindo para si mesmo como um louco varrido: agora é o “éqsch-eschpresso” da vitória!, “éqsch-eschpresso” – repetia sem parar.

Tão insólito quanto a inesquecível efeméride, é que aquela criança recém alvinegra nunca mais me abandonou. Seja nas horas sem tempo fuçando os casacões que meus pais haviam trazido em 1935 na fuga da Alemanha hitlerista, à caça de “jogadores europeus” (esse pensamento é a posteriori, lógico, adaptação da recente emigração em massa de jogadores brasileiros ao Velho Mundo) para “reforçar” a defesa do meu Botafogo de mesa. Botões raspados na escadaria do hotel e fatais nos jogos pela sua envergadura e textura. Faziam bonito e provocavam inveja.

Dias antes da final de campeonato, o Hóspede já fazia uma convocação geral para ouvirmos coletivamente o jogo. A mim fuzilou, dizendo que nem a matinê, nem a rinha de gude eram mais importantes. E, também, porque o correio acabara de lhe entregar um rádio novinho em folha. Segundo ele, a voz do locutor não iria mais sumir na hora agá. Sumia, sim, deixando-o meio sem jeito com a minha cobrança. Mas nada disso diminuiu a adrenalina daquele 12 de dezembro, aquela tarde da redenção, da volta por cima dos reiterados vices, a maldição de “morrer na praia” – aliás, umas das grifes mais tenebrosas e recorrentes do Botafogo em todo os seus mais de cem anos de existência.

Não estávamos em General Severiano, obviamente, no meio daqueles vinte mil torcedores, nem podíamos ter nossos berros ouvidos quando Oswaldo, Gerson e Santos (Nilton, o futuro “A Enciclopédia do Futebol”); Rubinho, Ávila e Juvenal; Paraguaio, Geninho, Pirilo, Otávio e Braguinha entraram em campo. O Hóspede, com a sua impecável camisa alvinegra, já um tanto desbotada (nunca perguntei, mas anos mais tarde conjeturei que talvez tivesse jogado no clube, então como teria aquele “troféu”?), exalava uma animação e confiança a que nós, eu em especial, botafoguense catecúmeno, não ficamos indiferentes.

E não é que, inopinadamente, o Hóspede puxou o hino do Botafogo e, não demorou, éramos um pequeno e desafinado coro de malucos cantando para espanto de outros hóspedes, os vizinhos e transeuntes. Até minha mãe apareceu na porta do hotel e, com ar de quem sabe das coisas (e ela sabia, meu pai fora um jogador de baralho inveterado!), pediu moderação, o que de nada adiantou. Sentindo a inocência da cena, fez aquele gesto desmunhecando, típico de alemão, deu um sorriso e grunhou, “bah!”, e nos deixou entregues à euforia.

Os gols de Braguinha, logo no primeiro minuto e pouco do jogo, e de Paraguaio, no final do primeiro tempo, confirmava o que só vim a reconhecer ao longo da vida como sendo uma verdade irretorquível. Se na decolagem e na aterrissagem de um avião, é nos cinco minutos primevos e terminais que a fatalidade fica à espreita, no futebol é a mesma coisa. Não deu outra, nem vascaínos dentro e fora do campo, nem nós, botafoguenses curtidos, ou não, à sombra da árvore das desgraças, podíamos adivinhar que já aos cinco minutos do segundo tempo, com um golaço de Otávio, desde já, escrevia-se o heroico e ansiado epílogo.

Mas, como nem tudo seriam louros, uma madastrice, que também acompanha a crônica dorida da solitária estrela, Ávila fez o gol que o Vasco jamais conseguira durante os noventa minutos. Parece que essa bola contra as próprias cores do “Glorioso”, assim alcunhado pela imprensa desde 1910, quando foi campeão carioca, não deixa de embutir uma sutil falseta do destino. Coincidentemente, nessa campanha o time só perdeu a primeira partida, contra o América (4 a 1). E na final, vitória sobre o Fluminense de 6 a 1, sendo o gol tricolor também obra do capeta: contra do botafoguense Lulu.

Tudo isso, digamos, como se fora um aviso do além, como se o Botafogo talvez não merecesse essa dádiva dos céus, da terra, dos cantos, uivos e lágrimas da torcida, do suor das camisas alvinegras, das mandingas e superstições que teve que exorcizar para chegar ao pódio, incontestável.

Quando o locutor anunciou o final do jogo, estávamos irreconhecíveis, meus amiguinhos felizes, todos “botafoguenses da hora”, e o Hóspede que só faltava saltar da janela. Cantava, cantávamos (mal) o hino do Botafogo. Em verdade, o Hóspede é que sabia de cor letra e música certinhas de Lamartine Babo. De repente, o Hóspede sumiu e por alguns segundos ficamos órfãos do nosso “maestro”. Não demorou e começou a voar confete e serpentinas pela janela caindo sobre nós como se fora algum pó mágico. E quem olhasse da rua (e as pessoas iam parando e riam) ficaria espantado porque da escuridão do quarto vinha uma profusão de papel colorido que lembrava canhão de circo.

No meio dela, fantasmagórico, o Hóspede veio no encalço, pulando da janela para a calçada, de cueca e a camisa do Botafogo encharcada. Completamente descontrolado, gritava a todos pulmões, “Botafogo campeão!”, “Botafogo campeão!”. Acho que gostaria que, da poética e modorrenta Antonina, seus berros fossem ouvidos por todos os botafoguenses do mundo.

Insólita, também quanto à festa da vitória, essa minha condição de torcedor não presencial, como se diz no jargão do ensino à distância, de décadas curtindo o time a partir de Antonina, Paranaguá e de Curitiba, só pode ser coisa da proverbial mística do Botafogo. Pois só vim conhecer o clube, anônima e timidamente, ao vivo, em 1953, na primeira viagem ao Rio de Janeiro, quando fui de imediato assistir a treinos em General Severiano. Nem preciso dizer que chorei ao ver meus “heróis” radiofônicos e da esquadra de botões, ali, bem pertinho, quase sentindo sua respiração, ouvindo a voz deles, usufruindo de sua aura!

O que hoje ressurge para mim, com uma assombrosa nitidez, em câmara lenta, num belíssimo preto-e-branco sem riscos nem manchas e em alta fidelidade, não deve ter levado mais que cinco minutos, se tanto. Mas, talvez sejam esses alguns dos fotogramas e sons mais incandescentes a fluir e a reluzir no filme da minha mente.  

Sylvio Back

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