Libertadores

Os revolucionários latino-americanos do século XIX estão voltando a pegar em armas. No cinema. E com dinheiro do seu antigo algoz colonial. Produtores espanhóis, juntamente com a TV E local, já colocaram em cartaz alguns filmes do projeto Libertadores. São oito longas com o perfil de grandes líderes da luta de emancipação da América Latina: Bolívar, San Martín, José Martí, Tupac Amaru, José Artigas, O’Higgins, Padre Hidalgo e Tiradentes – este, ao que consta, será dirigido por Marcelo Gomes.

Assisti a dois deles, que comento a seguir, assim como uma superprodução hispano-venezuelana sobre Simón Bolívar que não faz parte desse pacote.

Artigas, la Redota foi dirigido pelo “nosso” uruguaio César Charlone (diretor de O Banheiro do Papa e fotógrafo preferido de Fernando Meirelles). O tom épico, dominante nesse tipo de evocação de herói histórico, dá lugar a uma mirada reflexiva e distanciada. A história do militar José Artigas, ungido herói nacional do Uruguai mesmo sem ter vencido as batalhas decisivas contra o exército luso-brasileiro, é contada indiretamente através de dois outros personagens: um falso jornalista enviado para matá-lo no início do século XIX e o pintor Juan Manuel Blanes, encarregado de pintar seu quadro em fins do mesmo século. Assim, o filme trata, na verdade, da construção das imagens históricas. Calderón, o mercenário espanhol, aproxima-se da realidade dos insurretos e começa a admirar o homem que devia matar. Blanes, desprovido de materiais que o inspirassem, usa a imaginação e tem sua primeira versão do quadro rejeitada por não retratar o herói da forma “limpa” e destacada como previa a encomenda oficial.

Enfatizando mais o mito que a reconstituição de fatos, o filme tem um excelente achado de roteiro e economiza na produção ao concentrar-se num período de entreguerras, no reduto chamado La Redota. A realização, porém, resulta com aspecto televisivo, usa recursos que lembram o spaghetti-western (zooms, música intrusiva) e às vezes se atrapalha por conta de uma montagem abrupta e uma decupagem confusa.

Revolución – El Cruce de los Andes também se vale da memória remota para fazer um perfil do General José de San Martín durante a epopeia da travessia dos Andes com um exército de 5.200 homens para libertar o Chile em 1817. Mais de 60 anos depois, um jornalista vai entrevistar o também general Corvalán, que aos 15 anos acompanhou San Martín como seu amanuense, numa relação quase filial. O viés, portanto, é de incontida admiração. San Martín surge como um intelectual da revolução, alguém que estudava estratégias militares no tabuleiro de xadrez e considerava “a mão que empunha a pena mais importante que a mão que empunha o sabre”.

Antes que chegue a sangrenta Batalha de Chacabuco, tudo é narrado através de diálogos e momentos de introspecção do herói. Ele é mostrado às voltas com uma úlcera e com a dificuldade de distinguir entre leais e traidores na formação do seu Exército dos Andes. No papel, Rodrigo de la Serna (o Alberto Granado de Diários de Motocicleta) passa uma imagem vaidosa e autoritária do personagem, mas usa algumas expressões faciais e movimentos corporais um tanto contemporâneos, o que acaba por lhe conferir uma certa fragilidade paradoxal. De resto, é filme histórico de corte clássico e muito bem fotografado.

Bem diferente é Libertador, rica coprodução de Espanha e Venezuela sobre Simón Bolívar, prevista para sair no Brasil direto em DVD este mês. É o representante venezuelano na corrida por uma vaga no Oscar. Imagens vistosas, tomadas aéreas em profusão, batalhas encarniçadas e cenas intimistas contam a saga do general que sonhou com uma América do Sul unificada numa grande terra livre e independente. Simón conquistava mulheres em vez de nações. A essas últimas, pretendia, isso sim, libertar. O filme o retrata como um galante poliglota que, depois de assumir sua missão, passa a se expressar somente por proclamações.

Condensar uma epopeia de 25 anos em meras duas horas não deixa de cobrar seu preço. Entre outras coisas, fica parecendo que uma breve conversa no mercado foi suficiente para que Simón se convertesse de latifundiário hesitante em líder da maior rebelião contra o sistema colonial espanhol. É também de modo sintético e apressado que o vemos lidar com as divisões étnicas, os apoios controladores, as traições e as incompreensões diante de tantas mortes causadas pela guerra.

O roteirista americano Timothy J. Sexton (Filhos da Esperança) abraçou a versão que Hugo Chávez defendia para a morte de Bolívar: assassinato em vez de tuberculose. Apesar desse aceno, não deixa de ser irônico ver uma história de descolonização contada de maneira bastante colonizada. Seja no modelo narrativo, seja na trilha sonora (executada pela Orquestra Sinfônica Simón Bolívar da Venezuela), Libertador é em tudo um épico de estilo europeu. Enquanto cinema, independente da qualidade, esta foi mais uma derrota da cultura latino-americana.

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