Cauby em primeira voz

Se há um tema que subjaz à pletora de performances musicais em Cauby – Começaria Tudo Outra Vez, esse tema é a resistência. A incrível resistência de uma voz e de um culto.

Nelson Hoineff mostra cenas reveladoras no início e no final do seu documentário. Cauby Peixoto, aos 82 anos (em 2013), prepara-se para começar um show. No camarim, é maquiado como se fosse um autômato. Ainda com as cortinas fechadas, entra no palco amparado por auxiliares. O andar é frágil, o corpo está artificialmente empertigado e o olhar é de insegurança, quase de pânico. Mas quando a cortina se abre e soa o primeiro acorde, é como se outro homem saltasse de dentro dele. O rosto se ilumina, a fisionomia ganha vivacidade e a voz ressoa límpida e forte como 20 ou 30 anos atrás.

“Minha voz, minha vida”, diz a primeira canção. “Conceição!”, responde a segunda. É Cauby no seu esplendor, retrato de um artista que viveu em permanente estado de apoteose. É a personificação do kitsch, na medida em que faz tudo para agradar, e do maneirismo, por buscar o efeito extravagante e festejar a si mesmo sem nenhum pejo. Nesse sentido, o filme não poderia ser mais leal ao seu objeto – da seleção de clipes à exposição de sua casa, roupas, etc.

O culto a Cauby também resiste bravamente, e não só nos fãs mais idosos que vemos reunidos na Confeitaria Colombo para cantar suas músicas e externar sua paixão pelo ídolo. O segundo personagem do filme é um garoto de 15 anos que coleciona os discos do cantor e espera com fervor a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente – o que, naturalmente, irá acontecer diante da câmera.

Embora não aprofunde a abordagem biográfica nem adote estrutura cronológica, Hoineff pontua as principais curiosidades: a transformação de sua imagem promovida pelo compositor e empresário Di Veras nos anos 1950, a tentativa infrutífera de fazer carreira nos EUA como “Ron Coby”, a iniciação gay num bar de Nova York e nos “morrinhos”, brincando de gozar com outros garotos. Essas últimas confidências são um dos poucos momentos em que Cauby parece estar participando ativamente do filme, de vez que suas demais declarações nos chegam sempre de maneira oblíqua, um tanto ausente.

Não é Cauby em primeira pessoa, certamente, mas em primeira voz. Ninguém poderá acusar o filme de usar poucas apresentações do cantor, nem de mostrá-lo em todo tipo de roupa e postura de palco. A composição Bastidores é brilhantemente utilizada para desdobrar diversas fases de sua aparência ao longo do tempo numa única sequência musical. A entrada triunfal em cena num show com os Agnaldos Rayol e Timóteo é outro grande momento, assim como a edição do material de arquivo com o samba-canção Inveja para comentar a volta de Cauby dos EUA para o Brasil.

Considerado o personagem, o enfoque de Nelson Hoineff é surpreendentemente discreto e pouco invasivo. A meu ver, poderia abdicar da separação em módulos temáticos na versão para cinemas e se estender um pouco menos na recorrência à canção-título. Mas, talvez, se não fosse assim, com dó de peito e grand finale, não seria Cauby.

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