Dois filmes e um livro

MACBETH: AMBIÇÃO E GUERRA é uma adaptação competente e bastante literal da peça de Shakespeare. Na maior parte do tempo, os atores simplesmente dizem o texto em tom sóbrio, distante tanto da virulência do “Macbeth” de Polanski quanto da monstruosidade expressionista da versão de Orson Welles. O Macbeth vivido por Michael Fassbender tem a frieza de um serial killer ungido pela ilusão da invencibilidade. Ao mesmo tempo, este “Macbeth” de Justin Kurzel parece querer agradar também à geração de “Mad Max” e “300”, para quem não bastam o som e a fúria das palavras do bardo. Daí a batalha estrepitosa que abre o filme, as locações tingidas por cores fulgurantes, a trilha sonora ribombante, as lutas e o sangue pingando em câmera lenta. O espetacular é regularmente cortejado como um alívio para o jorro verbal, que é encenado quase sempre em cenários sombrios. Esses, por sinal, desaconselham a tela do Estação Net Botafogo 1, onde a projeção quase não permite divisar as formas nas cenas mais escuras. Parece a ilustração da frase de uma das bruxas: “O feio é belo e o belo é feio”.


Fui ver AS SUFRAGISTAS com um pé atrás. Tinha lido que era melodramático e esquemático. Tudo isso confere, mas ainda assim não me arrependi. O filme de Sarah Gavron entrega exatamente o que promete.  Elege uma modesta operária desengajada como veículo para nos apresentar a diversos aspectos da luta pelo voto feminino: a exploração (profissional e sexual) e a negação de direitos básicos às mulheres na Londres de 1912, os métodos de ação das sufragistas (uma espécie de blackblocs com causa), a reação dos homens no ambiente doméstico e a ação policial em defesa do status quo machista. Maud (Carey Mulligan, em boa atuação mas não excepcional) é o protótipo da pessoa comum que gradualmente adquire consciência social e se transforma em ativista valorosa, mesmo ao preço de perder seus laços familiares.

Tanto a forma esquemática quanto o melodrama, apesar de alguns pequenos excessos, servem bem à causa do filme, que é mostrar didaticamente o contexto em que as mulheres inglesas lutaram pelo voto. Ir às urnas significava abrir caminho para conquistas pelas quais se luta ainda hoje. Basta lembrar que a première do filme em Londres foi alvo de um protesto feminista pedindo mais rigor contra a violência doméstica.

A câmera levemente desestabilizada empresta um ar de urgência moderna a um filme de época que, de resto, é eficiente dentro do padrão BBC. Não há como não comentar os letreiros finais que mostram a lista cronológica dos países que incorporaram o voto feminino. O Brasil foi um dos primeiros, em 1932, antes da França, da Itália e da Suíça.


Como quase todos os pernambucanos – e também os não pernambucanos –, Mariana Lacerda é apaixonada por Olinda. Em 2012 ela fez um delicado curta impressionista chamado “A Vida Noturna das Igrejas de Olinda”. Em fins de 2015 lançou o livro OLINDA, onde expande seu olhar poético e diáfano sobre a cidade das colinas. Antes de mais nada, OLINDA é um objeto afetivo, característica que se manifesta na capa em formato de envelope, nas folhas de papel de seda, na suave transparência em que textos e ilustrações (de Clara Moreira) se afetam mutuamente. Depois, é um minicompêndio de fragmentos de textos históricos e recentes sobre Olinda, somados a sussurros líricos da própria autora (“Eu encostei meu nariz em uma coluna da Igreja de São Francisco e ali encontrei… o mar”). No mesmo ano em que Mariana, a cidade, se encheu de lama, Mariana, a artista, plasmou de Olinda a alma. Felizmente, nem todos os rios correm na direção do abismo.

2 comentários sobre “Dois filmes e um livro

  1. irei assistir hoje. Sempre acompanho as críticas em seu blog pois refletem de forma inteligente o conteúdo e a forma das obras. Parabéns.

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