Greenaway despe Eisenstein

Pode ser piada de mau gosto dizer que o filme de Peter Greenaway mostra “o outro lado” de Serguei Eisenstein. Afinal, na cena mais escabrosa e comentada de Que Viva Eisenstein! – 10 Dias que Abalaram o México, o gênio do cinema soviético é virado de bruços, lubrificado com azeite e sodomizado por seu bem-dotado guia mexicano, que ainda arremata o feito espetando uma bandeirinha comunista no ânus recém-desvirginado. Para chegar até esse ato de bravura cênica, Greenaway combinou sua verve iconoclasta com uma séria pesquisa sobre a passagem de Eisenstein pela terra de Diego Rivera para filmar Que Viva México!.

Já nas primeiras linhas da introdução de sua autobiografia, intitulada Memórias Imorais, Eisenstein desestimulou os leitores a encontrar ali “episódios imorais, detalhes sugestivos ou descrições obscenas”. Quando se refere a sua vida íntima, classifica-a como “pessoal, pessoal até demais”. Mas no livro não faltam insinuações de sua atração por amigos homens, além da declaração de que o sentimento do amor, no seu caso, era sublimado. Eisenstein manteve um casamento de fachada com sua assistente Pera Attacheva (com quem o vemos conversar ao telefone no filme) e extravasou sua sexualidade reprimida em desenhos pornográficos, produção bastante incrementada durante a estada mexicana.

Não há dúvida de que o México foi um cenário de desrepressão para o artista subjugado pelo puritanismo revolucionário de Moscou. “É aqui, na tierra caliente, que venho a conhecer a estrutura fantástica do pensamento pré-lógico e sensual”, escreveu. “Os corpos brônzeos que se entrelaçavam pareciam encarnar os devaneios latentes da sensualidade. (…) Tive a impressão de que o México, em toda a variedade de suas contradições, era uma espécie de projeção exterior daquelas linhas e traços individuais que eu carregava e carrego comigo, como se fossem um emaranhado de complexos”.

A homossexualidade de Eisenstein, em que pese as transpirações simbólicas nos seus filmes, sempre foi colocada de lado pela historiografia oficial do cinema. Não combinava com a imagem do cineasta identificado com a Revolução de Outubro. A façanha de Greenaway é escancarar esse aspecto da maneira barroca e extravagante como ele fez nos seus melhores filmes. Ofensivamente brilhante e brilhantemente ofensivo são expressões que cabem à perfeição.

A alguns, o deboche de Greenaway pode parecer simplesmente grosso e caricato. O aporte do ator finlandês Elmer Bäck ajuda nessa impressão, embora tenha uma grande semelhança física com Eisenstein. Para mim, foi a medida justa de um projeto que não aspira a reencenar fatos, mas a carnavalizar suposições. É nesse sentido que compreendo o uso meio sério, meio irônico, de recursos do documentário, seara em que Greenaway também já demonstrou imensa criatividade. Ele abre o filme apresentando a situação e ilustrando cada nome citado com uma foto. Ao longo de todo o filme, essa conduta de documentário didático vai conviver com a representação delirante do encontro de Eisenstein com as cores, as formas e os mitos mexicanos. Toda a narrativa é pontuada por uma iconografia real do cineasta e de sua obra (os óculos quebrados de Potemkin e os talheres roubados de Outubro são algumas referências recorrentes), assim como muitos dos diálogos são retirados de escritos de Eisenstein.

O modelo é a viagem de iniciação. Serguei é visto tomando seu primeiro banho de chuveiro (o que naturalmente aconteceu antes, na França, Londres ou EUA), tendo seus primeiros distúrbios alimentares, mergulhando pela primeira vez nos mistérios do catolicismo e do culto mexicano à morte e, supostamente, tendo sua primeira relação sexual. A cena da defloração anal fica ainda mais indecorosa pelos diálogos históricos que a acompanham. O garanhão mexicano estaria executando nada menos do que uma vingança do Novo Mundo contra toda a submissão sofrida do Velho Mundo. E Eisenstein, tão enamorado quanto assustado, estaria consumando sua revolução pessoal 14 anos depois de ver o proletariado subir ao poder na Rússia.

Como bom sátiro, Greenaway manipula a História e as histórias para revelar sentidos ocultos nas narrativas oficiais. O affair de 10 dias entre Eisenstein e seu guia Palomino Cañedo (Luis Alberti) coincide com o fracasso do projeto de Que Viva México!. Mas Greenaway não dá quase nenhuma atenção às filmagens de Eisenstein, mostradas apenas numa rápida cena. O que vemos é o cineasta no turbilhão de contatos, entre mesas de jantar e a cama do hotel. O estilo de Greenaway ambiciona ser uma contraparte contemporânea e devassa do estilo de Eisenstein, com sua encenação cheia de camadas sobrepostas, telas divididas, cenários distorcidos, referências pictóricas, montagem propulsiva, closes velozes e uma tridimensionalidade sempre sugerida, mesmo sendo o filme em 2D.

Pode soar ofensivo um paralelo entre os dois cineastas, já que Greenaway é por muitos considerado um embuste chique, um diluidor do cinema pós-moderno. Mas esse petardo mexicano é bem mais que um mero vandalismo biográfico. É um convite irresistível à fronteira entre a admiração e a petulância, o culto a um gênio que Greenaway sempre admirou e o desejo (erótico, mesmo) de despi-lo de uma vez por todas.

4 comentários sobre “Greenaway despe Eisenstein

  1. Fiquei fortemente impressionada pelo teu texto. Uma beleza inspirada pelo filme. O que deveria um filme criar num critico/expectador senão isso????

  2. Querido Carlinhos, seu blog e textos sobre cinema são essenciais. Sem ranços ou rancores, sempre à procura do significado ou significante das imagens e narrativas dos filmes, suas críticas balizam o cenário cinematográfico contemporâneo e marcam época. Obrigado pelas leituras que saboreamos ao longo de 2015. Abrir 2016 com as provocação do filme do PG sobre o meu mito Eisentein foi o máximo. Um ótimo ano para você, muita paz, inspiração e cinema na cabeça! Abraços, Toni

    • Toni, meu mano, para uma atividade como essa, feita por puro amor pelo cinema e pelo ofício, não há “remuneração” melhor do que uma mensagem como a sua. Ela sacia a alma. Espero não desapontá-lo além da conta em 2016. Um belo ano pra você e pra família.

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