Ainda fora de cartaz

Baseado no romance homônimo de Luiz Ruffato, ESTIVE EM LISBOA E LEMBREI DE VOCÊ é um filme que nos cativa aos poucos, mansamente. Mineira ou lisboetamente. Começa em Cataguases, terra de Sérgio, o personagem central, um homem cândido em sua ingenuidade e otimismo. O hábito de ofertar florezinhas de papel às mulheres que admira vai marcar sua trajetória. Primeiro, um casamento que logo vai se mostrar bem menos perfeito do que parecia. Em seguida, a emigração para Lisboa, na esperança de ganhar muitos euros e “voltar patrão”. Ali Sérgio vai oferecer sua florzinha a uma prostituta, abrindo as portas para mais um romance incerto.

Nas duas cidades, o diretor José Barahona (português radicado no Brasil) lida muito bem com personagens e locações reais, num tom semidocumental que nos sintoniza imediatamente com o espírito dos lugares. Em Lisboa, mergulhamos no pequeno mundo dos imigrantes, sobretudo brasileiros, numa época (2005) em que os sonhos de sucesso com o “novo Portugal” começavam a fazer água. Em sua inabalável boa fé, Sérgio vai encontrar tanto a solidariedade de outros companheiros quanto as armadilhas preparadas para gente como ele.

Coprodução luso-brasileira, o filme é narrado com serenidade e parcimônia, dando mais ênfase ao desenho dos personagens do que à construção de um plot. Barahona utiliza composições expressivas e belas elipses, além de se beneficiar de um elenco de caras desconhecidas e perfeitamente adequadas a seus papéis. Gostei sobretudo da atuação “branca” e mineiríssima de Paulo Azevedo no papel central e do trabalho luminoso de Renata Ferraz (atriz brasileira imigrada para Lisboa) como a sinuosa Sheila. Destaque-se ainda a participação de Henrique Frade no personagem do Dr. Fernando, criação análoga à vida do ator, mas que também pode ser vista como uma versão pervertida do Dr. Pangloss, o mentor do Cândido de Voltaire. A estreia está prevista para 2016.


Amy Winehouse foi ferozmente vampirizada pela mídia nos seus últimos anos de carreira e autodestruição. Os paparazzi não lhe davam sossego, à cata de imagens fortes e sinais de escândalo. De certa forma, esse processo é revivido em AMY, o documentário de Asif Kapadia. Em “Senna”, quando tratou de outro personagem que parece ter buscado a morte, Kapadia já demonstrava sua fome de registros do piloto. De Amy ele obteve filmagens públicas e domésticas que pontuam os estados de ânimo da moça da infância à beira da morte. Acho que nunca vi um doc biográfico tão obcecado pela imagem do biografado. Mesmo quando se ouvem depoimentos de terceiros, é ela que vemos numa cornucópia de fotos e vídeos. A edição em câmera lenta fetichiza as expressões e os movimentos da estrela.

Mais do que em “Senna”, essa escolha aqui se justifica pelo fato de que a vida de Amy passou estampada pelo seu corpo, deixando marcas visíveis e às vezes chocantes. Seu corpo não podia mesmo ser dissociado de sua voz e de seu estilo. Daí assistirmos ao filme como quem acompanha um calvário, uma auto-imolação. Diferente de outras celebridades que se consumiram pelo sucesso, Amy o fez por fragilidade, romantismo e amor à liberdade. Nesse sentido, o filme é leal à personagem.

A discreta trilha sonora de Antonio Pinto faz um bonito contraponto ao jazz dramático que Amy tirava das vísceras para o microfone. O filme teve sessões especiais em setembro último, mas, que eu saiba, não teve lançamento regular no Brasil.


Estreou por enquanto somente na plataforma online Mubi um longa de Michael Nyman. Sim, o compositor famoso pelas antigas trilhas de Peter Greenaway e que estará nas telas em janeiro com a música do documentário “Eu Sou Ingrid Bergman”, volta e meia se aventura na direção de filmes de compilação. Depois de homenagear Dziga Vertov em “NyMan With a Movie Camera”, ele escolheu o centenário da I Guerra Mundial para inspirar WAR WORK – 8 SONGS WITH FILM. Nyman e o montador Max Pugh reuniram farto material documental dos bastidores da I Guerra e o editaram ao som de oito canções compostas por Nyman, algumas delas sobre versos de poetas mortos durante o conflito, como Guillaume Apolinaire.

Não há cenas de batalhas, mas somente de soldados em treinamento, construção de aviões, combatentes horrivelmente mutilados usando próteses, famílias sofrendo pela ausência dos seus pais, crianças brincando de guerra e por aí afora. São materiais carregados de tempo e dor, coletados em arquivos de diversos países. Tanto visual como musicalmente, o filme tem a solenidade e também o caráter mórbido dos memoriais. As composições de Nyman usam fragmentos melódicos da década de 1910, o que, aliás, não é estranho ao seu repertório de “nova música velha” (a expressão é minha).

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