Bye bye, Brasil

Teve golpe.

Gritamos muito, até o fim, que não teria, mas a partir de certo ponto já sabíamos que tudo estava cuidadosamente planejado, orquestrado nos bastidores entre os poderes legislativo e judiciário, e que nosso grito não seria ouvido. Não se tratava mais de uma questão de consciência nem de justiça, mas de vontade. O triunfo da vontade, para ser mais exato.

O golpe consolida uma reação alimentada embrionariamente desde que Lula assumiu a presidência em 2002. Durante o seu governo, porém, o carisma avassalador do “sapo barbudo”, no Brasil e no exterior, e os benefícios sociais implantados calaram os descontentes, e nem o tal mensalão conseguiu abalá-lo.

Mas com Dilma seria diferente. Uma mulher, e ainda por cima inábil politicamente, era alvo mais fácil de derrubar. A reeleição em 2014 pregou uma peça em quem dava como certa a vitória da oposição. Era demais! Os derrotados juraram não deixá-la governar, e logo partiram para juntar forças com todas as instâncias conservadoras do país. A bandeira anticorrupção, agitada pela mídia oligárquica e corrupta, caiu como luva nas mãos de uma classe média que não topava ver seus minúsculos privilégios compartilhados por gente mais humilde, por obra de um governo que, em sua visão vesga, não a representava.

Quando a administração Dilma deu seus primeiros sinais de fragilidade, por ocasião dos protestos inconsequentes de 2013, os zumbis da direita encontraram o caminho para sair das tumbas e encher as ruas com sua gosma de ódio e obscurantismo. Foi a senha para empresários e interesses estrangeiros encamparem os custos de uma campanha solerte destinada a apear o PT do poder, não importando o que viesse depois. O famoso ódio ao PT mostrou seus dentes de sabre. Na sanha revanchista de Eduardo Cunha, encontraram o agente ideal para fazer o trabalho sujo de acatar um pedido de impeachment comprado pelo PSDB por 45 mil reais a uma jurista ensandecida que necessitava, isso sim, de um exorcista. Na Operação Lava Jato montaram o esquema de incriminação seletiva de atos e pessoas ligadas ao PT. A grande mídia, interessada em afastar os fantasmas de uma democratização do setor de comunicações, encarregou-se de amplificar cada acusação e encobrir o que devesse ficar encoberto. Aos magistrados da corte mais suprema coube o papel de engavetadores, omissos à espera de que o golpe se consolidasse para, só então, bancarem os heróis da maquiagem.

Vem aí um suposto “governo” Temer, fruto de uma usurpação cínica e de uma traição típica de marido apequenado diante da mulher. A cartilha neoliberal, fracassada no mundo inteiro, volta como perfume novo no Brasil. A máquina do retrocesso ganha combustível inédito nos últimos 30 anos. Aos conspiradores, aos raivosos e aos ressentidos de sempre não vem ao caso que rumo o país tomará, já que seu intento estará obtido. Todos sabem que cometeram um crime político de alta gravidade, mas olham-se apenas no espelho da hipocrisia e seguem em frente. Assim é a direita, sempre foi.

Já aos teleguiados pela Globo, aos ignorantes que nem entendiam porque batiam panelas ou levavam suas camisas da CBF para passear na orla, aos omissos e aos falsos “isentões”, não demorará muito para perceberem que derrubaram um muro na direção errada – em cima deles próprios.

A vergonha é muito grande. Sou tomado por um sentimento ao mesmo tempo de impotência e desalento. Meu desejo é de abandonar o Brasil – não física, mas simbolicamente, renunciando ao misto de civismo e afeto que compõe o sentimento de brasilidade. Esse que começa amanhã, uma sexta-feira 13, é um Brasil que não amo, não quero.

Mais doloroso ainda é testemunhar reações populares de submissão voluntária ao discurso dos algozes ou mesmo de ingratidão para com um governo que fez o possível para melhorar o padrão de vida dos mais pobres e dar-lhes dignidade. É principalmente diante disso que dá vontade de dizer “bye, bye, Brasil”.

Concretamente, minha conduta a partir de agora pode ser resumida em poucas palavras: NÃO RECONHECER ESTE “GOVERNO” GOLPISTA. Na prática, isso significa:

NÃO RESPEITÁ-LO NEM CONFERIR-LHE QUALQUER LEGITIMIDADE

NÃO PARTICIPAR DE, NÃO COLABORAR COM, NEM DIVULGAR QUALQUER INICIATIVA DE INSTITUIÇÃO, EMPRESA OU PESSOA A ELE LIGADA, AÍ INCLUÍDOS VEÍCULOS DE COMUNICAÇÃO, ENTIDADES E PARTIDOS ENVOLVIDOS NO GOLPE.

COMBATÊ-LO EM TODAS AS FRENTES POSSÍVEIS. 

Estou consciente de que isso pesa menos que uma pena de passarinho, mas se um número considerável de cidadãos conscientes e mais influentes do que eu também agirem assim, certamente faremos uma diferença. Além do mais, ter um propósito firme é a melhor cura para o luto político.

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5 comentários sobre “Bye bye, Brasil

  1. Que texto excelente! Uma análise crítica e precisa desse processo espúrio para liquidar com o Brasil. Parabéns, vou compartilhar.

  2. Carlinhos, obrigado por verbalizar a dor e indignação que queima no peito e nossas cabeças. Parece que estamos vivendo o êxtase fascista do Porfirio Dias/Paulo Autran na cena final de Terra em transe. A ascensão da plutocracia. Muito corajosa sua colocação. Parabéns por destoar da mão única jornalística nacional. Projeto social sem órgãos de mídia, fortes e qualificados, para travar a luta no campo das ideias é muito vulnerável. Deu no que deu. Vamos combater.

  3. Valeu amigo. Também penso assim. Resistimos antes, resistiremos agora e até quando for preciso. Pois como disse o Poeta – “eles passarão, nós passarinhos…

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