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LA LA LAND conquistou inicialmente minha simpatia pelo prosaico de suas cenas musicais. Elas acontecem em lugares desglamourizados como um viaduto, um apartamento de classe média, um banco de parque, um observatório astronômico. Algumas têm aquele ar casual com que Fred Astaire e Cyd Charisse começam a bailar “Dancin’ in the Dark”. Outras soam como diálogos musicados à moda de Jacques Demy. Melhor ainda é quando trocam o estilo Broadway pelo ritmo febril do jazz.

Mas o musical acaba sendo apenas um comentário não muito orgânico – e progressivamente abandonado ao longo da projeção – para uma história de amor construída com todos os tijolinhos do lugar-comum. Aliás, o lugar-comum não é uma contingência, mas algo intencionalmente buscado por Damien Chazelle, seja no enredo, seja na linguagem. A ideia era reconectar Hollywood com a inocência do passado, quando a heroína tinha um quê de Audrey Hepburn, o herói tinha a capacidade de renúncia romântica de Bogart em “Casablanca” e tudo era filmado em Cinemascope.

Há inúmeras referências ao cinema, especialmente do gênero musical, e à música nesse canto de amor a Los Angeles (L.A. La Land). E também um elogio à resistência do jazz contra a invasão do pop vulgar, sem falar nas alusões pejorativas ao samba. A cidade aparece através de seus ícones mais tradicionais, além dos estúdios de Hollywood. Sem alarde, os imigrantes e negros têm presença marcante na paisagem, o que não deve agradar muito aos eleitores de Trump. Por sinal, LA LA LAND está sendo consumido como um antídoto à depressão pós-eleitoral nos EUA.

A recepção eufórica da crítica e dos júris ao filme talvez tenha muito a ver com seu aspecto lúdico, aparentemente pouco pretensioso e definitivamente careta. Emma Stone e Ryan Gosling, num bem-sucedido tour de force de aprendizado musical, são veículos adoráveis para conduzir esse elogio ao indefectível sonho individual e artístico. Ainda que nem todos os sonhos se encaixem um no outro como nos antigos musicais.