Bowie interplanetário

Quarenta anos depois de seu lançamento, O HOMEM QUE CAIU NA TERRA é relançado em cópia restaurada e versão completa de 139 minutos – e vale cada um deles. Nicolas Roeg ousou mais uma vez em sua subversão do filme de gênero, como já fizera com o gangster movie em Performance (com Mick Jagger) e com o terror em Inverno de Sangue em Veneza. O HOMEM QUE CAIU NA TERRA, estrelado por um David Bowie quase de cera, é tão ficção científica quanto fantasia pop, labirinto kafkiano e experimentalismo intertextual. Algumas cenas, por exemplo, são construídas em contraponto direto com O Amor à Tarde, de Billy Wilder, e O Terceiro Homem, de Carol Reed. Outras, como a sequência de sexo e tiros, evoca o underground de Kenneth Anger.

Não é para ser levado a sério enquanto trama – o extraterrestre chega para patentear uma série de invenções, montar rapidamente um império de mídia e tecnologia, e tentar salvar o seu planeta da falta de água. O que importa é a irreverência com que Roeg trata a narrativa e a continuidade, invertendo clichês do romance interétnico (afinal, o personagem de Bowie é um imigrante), do filme de espionagem industrial e do próprio filme de extraterrestre. O “invasor” é vítima, e não ameaça.

Interessante notar os itens tecnológicos que em 1976 eram relativas novidades ou meras antecipações futurísticas: celulares, controle remoto e zapping, players digitais de música, filmes fotográficos de revelação instantânea, videowalls, transmissão de hologramas, reciclagem de lixo.

Além de Bowie e de um impagável Buck Henry de óculos magnificantes, no elenco brilha também a comediante Candy Clark como a faxineira de hotel que se apaixona pelo “visitante”. Ela namorava Roeg nas filmagens e por pouco não roubou de Carrie Fisher o papel da Princesa Leia em Guerra nas Estrelas um ano depois.

A ousadia e a rispidez das cenas de sexo fazem enorme diferença em relação ao cinema comercial de hoje. As tomadas de nudez frontal masculina e feminina, inclusive de Bowie (cortadas nas versões exibidas nos EUA e no Brasil nos anos 1970), fala de um tempo em que os diretores – britânicos, pelo menos – arriscavam-se nos limites da petulância.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s