Sul-africanos e argelinas

Sobre ELES SÓ USAM BLACK-TIE e FATIMA

Se quiser mergulhar num filme incomum, sua escolha da semana deverá ser ELES SÓ USAM BLACKTIE (Necktie Youth). O filme de estreia de Sibs Shongwe-La Mer, dirigido aos 23 anos, nos atira num cenário duplamente estranho. A Johannesburgo afluente em que circulam aqueles jovens perdidões é raramente vista nos filmes sul-africanos que aparecem por aí. Mas, curiosamente, ela aparece apenas de maneira furtiva. O diretor, nascido e crescido no bairro de Sandton, evita explorar as mansões e ruas bucólicas do lugar, preferindo enfocar imagens impessoais e pouco aprazíveis de um subúrbio que poderia ser outro qualquer.

Insólita também é a maneira de organizar a narrativa sobre um grupo de amigos mais ou menos afetados pelo recente suicídio de uma moça das redondezas, que preparou uma transmissão ao vivo do enforcamento pela internet. Num mix de conversas informais, narração em off e depoimentos para um suposto documentário intitulado “Dying for Freedom”, expande-se um quadro de hedonismo atravessado pela frustração e o desencanto. Drogas, sexo, internet, estilo e relações interraciais dominam as trocas do grupo, deixando patente a imensa distância que se abriu entre o presente dessa juventude à deriva e o passado histórico do país que derrubou o apartheid mas não encontrou remédio para os males do capitalismo.

A cristalina fotografia em preto(s) e branco(s) fornece um retrato taciturno de “Joburg”, cujas ruas, muros e lojas disputam com os personagens a atenção da câmera. Os negros Jabz (Bonko Cosmo Khoza) e September (interpretado pelo diretor) formam uma dupla capaz de sugerir à perfeição os ritmos e tons da fala local, assim como a instabilidade permanente que pode levar tanto ao êxtase quanto ao fracasso. Pena que falte um pouco mais de clareza e de universalidade para que as questões, tratadas aqui de maneira impressionista, possam conectar um público mais distante. O filme é altamente sugestivo na superfície, embora falhe na comunicação do essencial.


Agora imagine uma mamãe cabra tendo que criar dois filhos peixes, ela vivendo na terra e eles no mar. É mais ou menos esse o dilema vivido pela personagem-título de FATIMA, vencedor do Prêmio César de melhor filme francês no ano passado. Fatima é uma imigrante argelina, empregada doméstica e faxineira que não fala francês e cuida de duas filhas tão plenamente integradas ao modo de vida da França que conversam com a mãe em línguas diferentes. Sua rotina, dificuldades e reflexões num diário compõem esse discreto e delicado pequeno filme, que teve a sorte de ser superestimado.

Há um subtexto de realismo que explica o carinho pelo trabalho de Phillipe Faucon (iniciado pela produtora Fabienne Vonier, que veio a falecer durante a preparação do roteiro). A história é baseada em livro da marroquina Fatima Elayoubi, que viveu experiências semelhantes à da personagem e se tornou escritora autodidata. À procura de atrizes não profissionais para os papéis, Faucon topou com Soria Zeroual, de perfil quase idêntico ao de Fatima, mas de origem argelina. O que falta, então, a Soria em matéria de desenvoltura interpretativa sobra em sugestão vivencial.

FATIMA não traz grandes lances dramáticos nem qualquer invenção formal. Às vezes sugere um rascunho de “Que Horas ela Volta?” (as filhas sentem vergonha da condição e do véu da mãe, uma delas tem choques por conta do comportamento), às vezes de “Eu, Daniel Blake” (Fatima tem um problema com sua licença médica). Tudo passa pelos diálogos, numa encenação de simplicidade franciscana. Fica o retrato razoavelmente tocante de uma devoção maternal capaz de vencer todas as barreiras.

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