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Sobre LA VINGANÇA, O FILHO DE JOSEPH e FOME DE PODER

Aparentemente, a rivalidade brincalhona entre brasileiros e argentinos já deu tudo o que tinha que dar em matéria de piadas. Mas LA VINGANÇA prova que o tema está longe de se esgotar se houver um legítimo espírito cômico dando as cartas. A coprodução entre os dois países, dirigida por Fernando Fraiha a partir de um esperto argumento de Jiddu Pinheiro, movimenta esses arquétipos de antagonismo com graça e frescor, mesmo se os ingredientes da história não são os mais originais.

O tímido e trivial Caco (Felipe Rocha) é vítima do pior dos chifres: pegar sua noiva transando com um argentino. É quando Vadão (Daniel Furlan), seu amigo mais inquieto, o estimula a pegar a estrada rumo à Argentina e vingar-se não apenas da traição, mas de todas as ofensas e humilhações que os hermanos já impuseram aos brasileiros. Uma missão de honra nacional com Viagra na mochila.

Poderia ser uma chanchada como outra qualquer, não fossem a inteligência do roteiro, a sagacidade dos diálogos e a perícia na direção. O humor funciona principalmente na química entre Felipe e Daniel, sendo este último responsável pelo incansável contraponto cômico ao bode do primeiro. A dupla lembra o jogo de cena criado por Juan José Campanella para Ricardo Darín e Eduardo Blanco em alguns de seus filmes. Mas os diversos episódios em que eles se metem no road movie tampouco ficam atrás. As estratégias aplicadas por Vadão para conquistar o coração ou os favores dos argentinos – com resultados variáveis – são hilariantes, assim como o desenrolar do tal projeto de vingança.

Exemplo da boa escritura do filme é o uso reiterado da profissão de dublê, comum a Caco e Vadão, e dos dois idiomas próximos como fonte de chistes e situações embaraçosas. De resto, LA VINGANÇA tem ritmo impecável e uma trilha sonora brilhante do craque Plínio Profeta. Se é melhor do que algumas comédias argentinas recentes? ¡La puta madre! Não vamos recomeçar a discussão…



Como um aluno aplicado, Eugene Green trabalha com marcadores coloridos destacando cada referência de seus filmes. Se “La Sapienza” tratava de pessoas em busca de sabedoria e passeava pela arquitetura barroca romana, incluindo a igreja La Sapienza, O FILHO DE JOSEPH não poderia deixar de conter inúmeras alusões à Bíblia e à paternidade. Desde um café chamado “Pai & Filho” até o quadro de Caravaggio sobre o sacrifício de Abraão, passando pelo encontro de José e Maria e uma “fuga para o Egito”, Green coleciona links e simbolismos, facultando a seus fãs o infinito prazer de decodificá-los um a um.

Para mim, não é mais que um formalista chato e esnobe. Seu método empedrado de direção, um tanto tributário de Jean-Marie Straub, pretende reduzir a dramatização a sua expressão mínima: atores declamando as falas em posições hieráticas e cercados pela cenografia mais essencial possível. A tradicional montagem de campo e contracampo ganha uma aura de pretensão, como se acabasse de ter sido inventada. As locações – no caso, jardins, palácios, igrejas e museus de Paris – sintonizam os personagens com reflexões supostamente filosóficas, mas no fundo bastante banais.

Em relação a “La Sapienza”, porém, O FILHO DE JOSEPH tem uma vantagem inegável. Em boa parte do tempo, Green não parece se levar muito a sério. A parábola bíblica sobre um filho à procura de uma figura paterna, já que o seu pai biológico é um patife egoísta que teria preferido um aborto (olha Abraão aí!), frequentemente se confunde com uma comédia de equívocos ou uma aventura policial. Com esse deslizamento de gêneros, o filme decola da pista intelectualoide para alguns voos mais palatáveis. Como bônus de atrativo duvidoso, Green oferece uma canja dos concertos barrocos que dirige em Paris. À maneira dos píntores barrocos que constumavam inserir-se em suas telas, ele faz pequenas aparições gaiatas como um recepcionista de hotel.



FOME DE PODER é de um gênero tão americano quanto o hambúrguer: a business story. Nada importa tanto – nem personagens, nem plot – quanto a biografia de um empreendimento. No caso de Ray Kroc, o obstinado vendedor de equipamentos de fast food que projetou o McDonald’s de um quiosque de sucesso local a megacorporação global, tudo gira em torno dos negócios. Até um eventual subplot romântico é condicionado ao lema da ambição e da relativização dos escrúpulos.

Michael Keaton volta a brilhar na pele desse equilibrista na fina linha que separa o fracasso do sucesso e o profissionalismo do gangsterismo. Disposto a transformar a franquia na “nova igreja americana”, identificando-a com valores da família e do patriotismo, ele gradativamente se apossa da marca dos éticos irmãos McDonald’s e constrói um império todo seu.

O filme de John Lee Hancock também se equilibra num fio tênue entre o elogio do empreendedorismo de Ray e a denúncia de sua veia predatória. Uma dialética tipicamente americana trabalha no sentido de causar admiração e repulsa simultâneas pelo personagem. O mesmo se pode dizer em relação aos irmãos originais, cujos louváveis princípios são também sua fatal limitação. Uma lógica cínica preside a apresentação dessas figuras paradigmáticas do business.

A certo ponto do filme, eu me perguntei que interesse havia em conhecer aquele “case”, em chave que bem pode ser tomada como um grande comercial da eficiência da cadeia dos “arcos dourados”. A muita gente, a boa fluência da narrativa e a verve de Keaton talvez não sejam suficientes para justificar tamanha atenção à história da comida mais rápida do mundo.