Sob a lona do sonho

Por mais que o tema infância & circo já tenha sido revisitado no cinema, nada perturba a originalidade e o encanto de JONAS E O CIRCO SEM LONA. Em seu primeiro longa-metragem, Paula Gomes teve a felicidade de encontrar um personagem cativante, a sensibilidade para retirar dele o essencial e a competência para criar uma construção cênica apta a transmitir tudo isso.

Jonas Laborda, 13 anos, vive com a mãe e a avó num bairro popular da periferia de Salvador. A família vem do circo, ambiente ao qual ele sonha voltar. Enquanto não consegue, organiza um pequeno circo de quintal com a ajuda de alguns amigos. Jonas é um pequeno artista de imenso talento natural e um líder por natureza (hoje é integrante de um grupo teatral de Salvador). Os ensaios do seu “Fantástico Circo Tropical” são levados num misto de seriedade “profissional” e descontraída brincadeira infantil. Maquiagem, roteiro do espetáculo, seleção musical – tudo é pensado em detalhes, até mesmo o providencial intervalo para a venda de balas.

No pano de fundo imaginário desse cirquinho submambembe está o circo como instituição e como aspiração de Jonas, uma vez que o tio mantém a lona da família em funcionamento longe dali. Se a avó, treinadora assistente, o incentiva a perseguir seu desejo, a mãe insiste na educação formal como prioridade. O “corpo mole” de Jonas para o estudo, numa escola de mentalidade castradora e punitiva, faz um dos eixos dramáticos principais do filme.

Outro eixo importante é a relação cálida que Paula estabelece pessoalmente com Jonas, tecendo um paralelo constante entre o seu filme e o projeto circense do garoto. Em função disso, o filme está frequentemente em questão, seja pelo interesse de Jonas em apresentar o melhor e não sair-se com um filme triste, seja pelas reações que a feitura do documentário desperta na escola de Jonas. Uma inesperada intervenção da professora dele junto à equipe de filmagem é um dos momentos culminantes desse processo.

Diante das belas e bem construídas imagens e do som caprichadamente desenhado de Jonas e o Circo sem Lona, não é difícil que o espectador tenha a impressão de estar vendo um filme de ficção. A decupagem das cenas e os tempos da montagem demonstram o interesse de ir além do mero flagrante e de capturar a dimensão dramática do que estava sendo filmado. O cinema de observação revela aqui sua vocação para acercar-se do ficcional sem nada perder da espontaneidade. O acerto de cada uma dessas escolhas, aliado à qualidade original daqueles personagens, compõe um dos filmes mais felizes do recente documentário brasileiro.

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