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Enquanto GALERIA F embarca nas memórias de uma fuga aventurosa na época da ditadura, CENTRAL, O FILME mergulha na lógica perversa do sistema penitenciário atual. Dois ótimos documentários brasileiros em cartaz.

Leva uns bons 15 minutos até que o espectador desavisado tome pé na história contada em Galeria F, daí ser bom dar uma sinopse logo de princípio: o protagonista é Theodomiro Romeiro do Santos, ex-militante do PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário), preso em Salvador em 1970. Ao resistir à detenção e para proteger um companheiro em fuga, ele atirou em dois sargentos, um dos quais veio a morrer. Theo então tornou-se o primeiro condenado à morte no Brasil republicano, pena mais tarde comutada para prisão perpétua. Depois de nove anos de cadeia e muita tortura, vendo-se excluído da Anistia e temendo ser morto no presídio, ele empreendeu uma fuga aventurosa pelo interior da Bahia antes de se exilar na França até 1985. A igreja progressista foi providencial na organização de sua sobrevivência.

Hoje um pacato juiz trabalhista aposentado, Theo refaz aquela viagem diante da câmera de Emilia Silveira, apresentando os cenários da fuga ao filho que nasceu do seu casamento na penitenciária Lemos Brito, em Salvador. A Galeria F era a ala destinada aos presos políticos. Se não cede à emoção de retornar a celas, esconderijos, igrejas e fazendas por onde passou, Theo demonstra uma memória prodigiosa para detalhes e fornece reflexões proveitosas sobre a condição de preso político, a maneira de lidar com o medo e com a passagem do tempo. Seus encontros com outros companheiros trazem à tona pormenores curiosos sobre a vida carcerária, ajustes de lembranças e ecos de sonhos utópicos do período em que estes ainda pareciam possíveis. Aqui e ali, aqueles jovens senhores parecem meninos recordando travessuras de anteontem.

Seguindo-se ao também essencial Setenta, doc sobre os presos políticos libertados em troca do embaixador suíço sequestrado em 1970, Galeria F leva adiante o trabalho de Emilia Silveira (com Sandra Moreyra, jornalista morta em novembro de 2015) no sentido de desenterrar histórias daqueles tempos negros ainda não contadas no cinema. A viagem de Theo com o filho dá ao filme uma dimensão pessoal e placidamente comovente, tal como as fotos de família que pontuam a narrativa feito resíduos lancinantes do passado.



A lógica perversa do sistema penitenciário brasileiro se mostra por inteiro no documentário CENTRAL, O FILME. O funcionamento do superlotado Presídio Central de Porto Alegre, tido como um dos maiores e piores do país, é devassado sob diversos ângulos. As péssimas condições sanitárias e habitacionais são registradas em grande parte pelos próprios detentos, a exemplo do que fez Paulo Sacramento em “O Prisioneiro da Grade de Ferro”. “Estão fazendo um filme tipo “Carandiru”, diz um deles ao empunhar a câmera diante dos companheiros amontoados pelos corredores. Era tanta gente que as celas foram abertas para caber 5.000 pessoas onde deveriam estar 2.000.

Mais estarrecedor ainda é conhecer o modelo de organização que sustenta o sistema, seja pelas vozes de agentes penitenciários e autoridades judiciais, seja pelas de presidiários e seus familiares. Estamos cansados de ouvir e saber que as prisões brasileiras são fábricas de criminosos, mas a maioria de nós ainda não conhecia esses mecanismos da forma como o filme nos mostra. Entre acusações ao estado omisso e defesas de policiais acuados, o que vemos é uma “administração compartilhada”. A polícia guarda as grades e finge que controla a situação, mas quem gere todo o presídio são as facções criminosas com seus braços estendidos para fora do complexo.

Quanto mais houver corrupção, movimentação de drogas e liberdade para o crime se organizar dentro da cadeia, mais tranquilidade existe para todos e menos gastos para o estado. Enquanto isso, um capitalismo especialmente selvagem se expande pelas galerias do “Central”, com o comércio e o tráfico mantendo estruturas de privilégio, liderança e lealdade entre os presos.

Baseado no livro “Falange Gaúcha”, de Renato Dornelles, que assina a codireção do filme de Tatiana Sager, CENTRAL vai bem além da superfície do problema. Não estaciona na exposição crua do cenário prisional nem na coleta de depoimentos previsíveis. Ao contrário, reúne uma diversidade de argumentos que mostram a profunda inviabilidade do sistema como fator de reinserção social.